quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Texto que eu segurei por dias pois não queria publicá-lo, mas acabei mudando de ideia

 


1. A arte e a escrita, para os medíocres, são sua liberdade — sem quaisquer compromissos estéticos ou esforço. Por outro lado, para aqueles de mente elevada, trata-se de atividades que encerram sua expressão forte, sua postura de virilidade perante o mundo. Atividades essas que exigem um preparo sofrido e prática repetitiva por um bom tempo, com total compromisso da parte autora.


2. O pintor dizia: "Demorou quatro anos para eu pintar como Rafael, mas me levou uma vida para aprender a pintar como uma criança" — primeiro se aprende a mexer com os mecanismos de poder, depois se expressa seu ser através deles.

3. Alguns dos que defendem o estilo aforismático de escrita dizem que ele é intencionalmente utilizado pelo autor para evidenciar que a realidade não pode ser sistematizada, mas somente se podem apreender alguns fragmentos dela. Tolos! Mal sabem que essa forma de escrever é utilizada pelos preguiçosos e arrogantes. Preguiçosos porque não querem montar um texto bem escrito, coeso e coerente como quem monta um tabuleiro; arrogantes porque julgam que suas ideias são tão boas, mas tão boas, que as pessoas deveriam lê-las mesmo elas sendo apresentadas de um jeito porco — a preguiça e a arrogância inerentes a esse tipo de texto me irritam.

4. A fúria humana era uma dádiva dos deuses dada a aqueles que precisavam mover a realidade a seu dispor. Era um instinto apurado, o certo a se ter — o que houve com ele então? — a progressiva moralidade culposa, aquela que anseia pelo homem degenerado de si e inofensivo, sufocou-a em nome da igualdade.

5. Lá vem o farejador correndo com um arco-íris em sua mão! Seu capital ignora as fronteiras e desmancha o senso de nacionalidade no ar — saia já da minha terra!

6. Aceno para um conhecimento de séculos — agora perdido pelos ventos da mediocridade — e sintetizo-o numa única sentença: Mulher é bom-dia.

7. Romantismo para privilegiar seu lado, realismo para atacar seu oponente.

8. Os escravos propagaram sua fraqueza através da culpa. Essa evoluiu até virar um norte moral. Esse foi incorporado pela civilidade, ao passo que foi se radicalizando — tal apreensão da realidade permite que se induza que luta oprimidos v. opressores culmine no fim destes pelas mãos daqueles no instante em que a moral revele sua face revanchista.

9. Qual foi o pecado original da humanidade: comer do fruto do conhecimento, a propriedade privada ou assassinar um pai biológico?

10. Como expiar o pecado original da humanidade: conhecimento gnóstico, Messias, revolução comunista ou sessões de análise?

11. Ou melhor, e se não houve pecado algum e não existe nenhuma ordem na realidade nem nenhum fio condutor que relacione a sucessão de acontecimentos?

12. Nunca pensaram no que eu pensei, nunca viram a beleza como eu vi, nunca amaram como eu amei e nunca leram o que eu li — não são como eu.

13. A jornada da consciência do indivíduo pode ser descrita em três etapas subsequentes: um bebê onipotente acha que é o todo; o bebê descobre na negação dos seus desejos que não é o mundo, e esse é constituído de um substrato diferente; ele passa a vida inteira tentando voltar a fazer parte do todo — que fim trágico, não é mesmo, caros leitores?

14. O fim da história humana só pode ser atingido quando todas as consciências se agregarem em união, entendimento mútuo e amor coletivo; entretanto, nossos economistas não dizem que a tendência da economia humana é o trabalho dividir-se, e nossos sociólogos não afirmam que a divisão do trabalho gera individualização? — tento, portanto, pacificar ambos os pontos dizendo que o mercado individualizou a humanidade sim, mas pode ser o meio de integração do todo a partir das relações de troca.

15. Os poetas, filósofos, religiosos e cineastas disseram que o amor é muita coisa, exceto o que ele é de fato. Trata-se do mecanismo mais pacífico de absorver o outro em sua completude para quem absorve — É como engolir um animal vivo, para que não se precise mastigá-lo e triturá-lo em pedacinhos.

16. Engulam-se mutuamente sem mastigarem-se, pois. Amem-se!

17. O ódio não é simplesmente rejeitar o outro, mas sim rejeitar a si mesmo projetado na figura do outro.

18. Para evitar o sofrimento: o sofrimento é apenas uma palavra genérica para designar uma gama de sentimentos. Não há como evitá-lo

19. A chave hermenêutica para meus textos é interpretá-los à luz da minha realidade. Se vocês notarem que o problema está neste que lhes escreve e o que escrevo não passa de bobagem enfeitada com minhas pérolas de arrogância e preciosismo, vão perceber quão risíveis são meus escritos.


Desde já agradeço-lhes, amáveis leitores, por haverem lido isto com paciência para este que vos escreve! Deixo também um abraço especial a aqueles que comemoraram minha volta. Sobre o futuro, acho que entrarei numa fase mais leve com uma escrita que eu considero intencionalmente coloquial.
Bem, quem sabe? O modo como escrevo é minha expressão no momento. Se eu estiver todo paz e amor, fico menos na defensiva e mais suscetível a escrever do jeito que eu acho mais bem humorado

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Pode-se ou não sair da depressão? (Ou texto aforismático que os babacas vão caçoar apontando-o como cópia de Nietzsche)

   

     1. Viver em si mesmo não é o melhor para quem já tem uma mente bagunçada, então surge a proposta de viver o mundo, tornar a felicidade baseada no que se faz hoje no que se passou a ser com esforço.


    2. Quando Boris Ryzhy escreve seu poema retratando acordar num hospital após uma fracassada tentativa de suicídio, o resultado foi não querer nunca mais morrer. Ora, o que o inconsciente mais teme senão ser apagado? Nas preliminares da tentativa, o inconsciente não vislumbra a imagem de si morto e não pode apavorar-se. Entretanto, ao sobreviver e ter que se lembrar da tentativa, ele finalmente simboliza a imagem de si mesmo sendo apagado, como se olhasse para uma foto de si, então surge grande temor e repulsa por quaisquer sentimentos de autodestruição.

    3. O presente escorre pelas mãos como areia, não há nada para se segurar. Não que não se esteja cercado de coisas boas, mas tudo se desmancha no ar — não seria esse o resultado de projetar sua vitalidade na materialidade para escapar do vazio?

    4. A música Dunkelheit diz: Quando a noite cai, ela encobre o mundo em trevas impenetráveis. Calafrios sobem do solo e contaminam o ar. De repente, a vida tem um novo significado.

    5. Tenta-se escapar do vazio exercendo sua vontade no mundo. Assim sendo, descobre-se que todos os humanos estão fazendo isso. O mundo, portanto, se torna um teatro cujos atores estão numa incessante guerra de expansão e poder.

    6. Embora ao se identificar como niilista e como um ator no teatro do poder o objetivo final passe a ser o campeão, há algumas corrupções dentre tais atores, isto é, os niilistas fracos que querem mudar o mundo para que ele deixe de ser um palco de conflitos e dominação — princípio gerador dos partidos comunistas.

    7. Feliz é aquele que suspende a racionalidade e aceita seus instintos mais primitivos e sensuais — são esses os seres que nós, os homens de consciência, repudiamos e chamamos de animais. Esses seres se encontram nas favelas, no amor dos carnavais e na sujeira das festas.

    8. Poucas coisas são tão assombrosas quanto rever colegas do passado, especialmente se eles te lembram de tempos no qual sua vida era melhor. É como se olhar no espelho e ver o quanto você degradou, ao passo que aqueles seguiram suas vidas adiante e com certeza vão te lançar olhares de pena.

    9. Não me comove mais a questão de ser do bem ou ser do mal. O que importa é ser bom, bom no mesmo sentido que um machado o é para decepar um tronco de árvore.

    10. Se não posso ser Napoleão nem quero ser ovelha, posso ao menos ser uma nuvem pela qual um grande homem trovejará?