segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Niilismo, propósito e ideologias totalitárias - um ensaio.

Ao longo da minha formação intelectual, tive contato com diversas ideias dos diversos cantos do mundo e das várias épocas. Não me escaparam os alemães, os russos, os italianos, os franceses, os americanos e nem mesmo os japoneses. Para além do que eu li, eu cultivei cada um desses pensamentos dentro de mim, de modo a se tornarem não somente palavras, mas sensações e maneiras de interpretar a realidade. Sou um ateu materialista, ou seja, não acredito em nada transcendental, apenas em arranjos de átomos dispostos por aí. 

Por ter convivido com ideias tão conflitantes em mim, tornei-me cético à grande maioria das metanarrativas. A verdade se tornou um bem de consumo, e, à medida que mercado econômico se desenvolve, mais as pessoas podem comprar suas ideologias nas prateleiras e se fecharem numa bolha. Assim, nas múltiplas verdades destaca-se sempre algum aspecto da realidade, ignoram-se todos os outros e o sujeito pensa que as coisas estão fazendo sentido. 

Se eu acredito em qualquer verdade, é que a realidade das coisas é muito mais fisiopsicológica do que linguística. Não que a língua não desempenhe um papel importante no funcionamento da sociedade, mas ela opera mais como um véu demiúrgico que encampa a objetividade. As coisas parecem ser outras quando passam pelo crivo da linguagem. Elas se recombinam, formam unidades de sentido, ligam-se umas às outras numa teia de significado completa, e assim nasce a metanarrativa. Começo, meio e fim. No melhor dos casos, uma boa religião é uma redação bem-feita. Hoje em dia, as religiões não precisam mais de um ente transcendente tão explícito quanto o é no cristianismo. As pessoas acreditam em política, causas sociais e misticismo com a mesma devoção que um mártir da igreja tem nos assuntos de Deus. 

É com a linguagem que os humanos constroem sistemas morais inteiros, todos eles meramente ideológicos, disfarçando uma condição de opressão, um sistema de produção ou uma neurose qualquer. 

Nietzsche entendia bem esse vazio de sentido, a falta de realidade nessa coisa chamada verdade. Mesmo assim, ele deu um passo artístico no sentido de recompor o quadro da vida. Afinal, o que é a transvaloração de todos os valores senão uma transfiguração artística por meio da linguagem? No fundo, Nietzsche, sendo um imoralista, estava salvando a moral das garras do niilismo. 

Eu, no entanto, sinto em mim impulsos de senhor e de escravo. Essa contradição existia em Napoleão também, então talvez seja por isso que Nietzsche disse que Napoleão era uma síntese de super-homem e último homem. A primeira vez que alguém escreveu sobre o meu tipo psicológico foi Platão, quando descreveu em sua República o arquétipo do timocrata: homem orientado pelo princípio da honra. Honra no sentido de acúmulo de méritos e conquista de glória pública. Diferentemente do aristocrata puro, que é orientado apenas pelo princípio da verdade e, portanto, autossuficiente em suas reflexões, o timocrata avança em qualquer promessa de glória e reconhecimento público. O timocrata é, portanto, um escravo da própria vontade ao mesmo tempo que é senhor. É uma vontade que só pode ser preenchida quando ele tem a validação tanto externa quanto interna de seu valor intrínseco. O timocrata plenamente realizado precisa ser louvado pelo mundo e por si, e a sua plena autossatisfação só é atingida através do sentimento de orgulho. 

Vejo no timocrata a essência do fascismo. Quando indagado sobre a definição de fascismo, Mussolini apenas respondeu "nós somos contra a ascensão fácil". Veja bem, um timocrata pode até ascender, mas só isso não bastaria para sua autorrealização, porque é necessário que o caminho seja de acordo com o que seja mais meritório, ou seja, mais difícil. Para exemplificar, de nada valeria a um timocrata ganhar um milhão na loteria, porque ele precisa conquistar o milhão com as próprias mão. 

Uma clara evolução do timocrata está na obra de Maquiavel, quando ele descreve o tipo da raposa em O Príncipe. Também pode ser identificado o mesmo em personagens da literatura como Raskolnikov e Julien Sorel. Será que conseguem entender isso? A morte de Deus precisa primeiro ocorrer em nossos corações para que possamos estar além do bem e do mal, de modo que não teríamos freios morais para conquistarmos nossa honra. 

Pessoas como eu têm um sentido de grandeza forte, nós queremos ter uma vida da qual possamos nos orgulhar. E, assim como no timocrata, essa sede por algo vem justamente de seu exato oposto. Somente um indivíduo sem nada a se orgulhar busca tanto assim a glória. Há um senhor em nós que quer se distanciar do próprio escravo exterior que somos. Mas ó, não seria isso também um discurso religioso? Enxergar num sujeito pobre e de pouco poder uma "alma" de senhor não é mais uma inversão metafísica da realidade concreta? Mas o que define um senhor e um escravo? Nietzsche dizia que seu homem superior era a soma de uma mente aprimorada com um físico superior, então não é exatamente de uma relação econômica ou social que estamos falando. Mesmo o mais pobre dos indivíduos pode ser um senhor. O poder político e financeiro é uma mera contingência. 

Apesar de toda essa explicação que eu dei, tenho ciência de que é só mais uma metanarrativa. Meu ceticismo atinge até as coisas que eu acredito. Embora alguns encarem isso como uma maneira chique de estar confuso, eu digo que é um jeito de estar sempre aberto à vida. Ela sempre vai se apresentar de diversos modos, sempre colocando à prova qualquer metanarrativa e desmoronando sistemas inteiros, mas é necessário que o filósofo -- sim, neste ponto já atingi o caráter de filósofo -- esteja aberto à dúvida sempre e seja honesto com a própria ignorância.  

Já não somos mais fascistas, ou guerreiros, ou heróis trágicos, ou sacerdotes de dionísio, ou príncipes maquiavélicos. Não somos nada além de filhos de Caim.