quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Uma dádiva do meu sofrimento

 

Prefácio

Quem ainda tem olhos para fitar o abismo? Quem pode encarar o vazio por trás do teatro? Aqueles que têm visão aguda o suficiente para desvelar as máscaras dionisíacas e perscrutar a substância negra da realidade – esses, sim, são os meus grandes leitores. Aos poucos que desejam de corpo e alma experimentar todo o fluxo inconstante da realidade e ainda assim são niilistas completos, meus parabéns. Não é nossa alma um recipiente de toda dor, todo ódio, toda ira e toda angústia? Mas também de toda felicidade, de todo amor e de todo bem-querer. Nós abraçamos o eterno retorno e nosso desejo supremo é dançar agarrados com a Realidade. Se a Realidade é uma mulher, não estaria ela interessada apenas nos nobres capazes de encarar todos os demônios que ela tem a oferecer? – Ela é como uma dama de vestido negro, e suas garras escondem mãos suaves e macias.

E não estamos nós entre o céu e o inferno? Nossa natureza guerreira nos obriga a dançar numa corda fina entre a glória terrena e o suicídio. Somente aqueles dispostos a morrer estão preparados para matar, e assim atingiremos a glória de Orestes. Há algo em nós que despreza o conforto, o rufianismo, a paz de rebanho e a felicidade comum – assim, nós desprezamos a humanidade!

Somos os únicos capazes de transmutar nosso sofrimento interno em mel para a vida. Estamos habituados ao frio, à altura das colinas e ao grande demônio do deserto.  O caminho para a verdade e a vida está ali, quando encaramos o próprio diabo.

Após, festejaremos num banquete dionisíaco, regado ao vinho e à carne que provêm dos corpos das ovelhas do rebanho. É no banquete em que as bestas da natureza sorriem e dançam em círculos. Ali o tempo se torna um círculo também! E não importa quantas voltas o tempo dê, as ovelhas continuarão alimentando as feras.

Deixo claro que desprezo qualquer hermenêutica da inocência que possa ser utilizada para interpretar meus textos. Eu não estou especulando ou jogando palavras poéticas ao vento: eu estou dando comandos concretos de guerra. O que eu escrevo deve ser entendido como uma ética de batalha para o hoje e para o agora. Deve-se entender quem são nossos inimigos: acima de tudo, o grande inimigo está dentro de nós; mas, externamente, há ídolos que devem ser esmagados. Toda moral dos escravos que se desdobra em socialismo, cristianismo, feminismo, igualitarismo, liberalismo e democracia deve ser expulsa de nosso grande banquete. Inevitavelmente venceremos, pois a vida necessita se renovar sempre, buscando ares mais elevados ao passo que intensifica a quantidade de escória presente na humanidade.

Canto I

E o que fiz nessa última estação

Senão arriscar tudo, meu orgulho

Meus sonhos e meu coração

Até que eu caí no escuro?

 

Encha-te, meu coração

Aguenta até o céu

Suportaste tua maceração

Então me dê teu mel

 

Tudo ou nada – disse a mim

E o nada conheci

 

Da Ação Política

Acima de tudo, devemos ser extremamente pragmáticos. Não nos apeguemos a palavras e ideias abstratas que há muito perderam sua aplicabilidade. Uma monarquia constitucional pode nos ser útil? Sim, mas devemos nos concentrar no mais conceito de “útil” e “eficaz” antes de “monarquia”, “república”, “teocracia”, entre outros. Nós não somos escravos da vaidade, não será uma palavra enobrecida pela velhice e pelos seus mais sábios apoiadores que guiará nosso caminho. Todo o resto da ação política se desdobra daí.

Da Ética

Eu nego que a moral seja uma invenção meramente espiritual, ou um dado absoluto da natureza, ou comum a todos, ou relativa. A moral sintetiza tanto a liberdade espiritual de um sujeito quanto as necessidades do coletivo. E, aliás, que não se fale mais em “a moral” como um ídolo de todos. Todo grupo ou indivíduo desenvolve esotericamente sua moral, e pode-se medir a nobreza de uma moral à medida que ela busca se isolar dos dedos imundos e do mau-hálito da ralé.

Qual é a base da moral deles? – A preservação da fraqueza como uma virtude.

Qual é a base da nossa moral? – Vencer. Após isso, nossa suprema liberdade individual, verdadeiros leitores, encaminhará cada um às suas próprias conclusões.

Da Paz

            A paz atingida pela identificação da consciência com o Ser é talvez a maior verdade humana; entretanto, a paz letárgica do rebanho, que é toda-moral, toda-amor, toda-bem e toda-pacifismo, é um vício de vontade. Acredito na luta como um verdadeiro instrumento de ascese e elevação espiritual.

Dos Relacionamentos

            A conexão entre os amantes é a grande essência. Daí deve suceder-se o casamento, o sexo, a reprodução e a vida a dois.

Das Amizades

Só há amizade se houver identificação e igualdade. Para além disso, as pessoas são instrumentos.

A sua vontade de potência só conhece seus limites onde começam os limites dos seus amigos, e vice-versa.

Das Inimizades

            A bem da verdade, há inimizades boas o suficiente que merecem ser preservadas e aprofundadas por certo tempo; contudo, esse não é o caso da maioria das inimizades. De todo modo, deve-se vencer seus inimigos.

Da Diversão

            Aqueles que tudo fazem e por tudo passam com um sorriso infantil no fundo de sua alma entenderam como se vive.