Prefácio
Quem ainda tem olhos para fitar o abismo? Quem pode encarar o
vazio por trás do teatro? Aqueles que têm visão aguda o suficiente para desvelar
as máscaras dionisíacas e perscrutar a substância negra da realidade – esses,
sim, são os meus grandes leitores. Aos poucos que desejam de corpo e alma
experimentar todo o fluxo inconstante da realidade e ainda assim são niilistas
completos, meus parabéns. Não é nossa alma um recipiente de toda dor, todo
ódio, toda ira e toda angústia? Mas também de toda felicidade, de todo amor e
de todo bem-querer. Nós abraçamos o eterno retorno e nosso desejo supremo é
dançar agarrados com a Realidade. Se a Realidade é uma mulher, não estaria ela
interessada apenas nos nobres capazes de encarar todos os demônios que ela tem
a oferecer? – Ela é como uma dama de vestido negro, e suas garras escondem mãos
suaves e macias.
E não estamos nós entre o céu e o inferno? Nossa natureza
guerreira nos obriga a dançar numa corda fina entre a glória terrena e o
suicídio. Somente aqueles dispostos a morrer estão preparados para matar, e
assim atingiremos a glória de Orestes. Há algo em nós que despreza o conforto, o
rufianismo, a paz de rebanho e a felicidade comum – assim, nós desprezamos a
humanidade!
Somos os únicos capazes de transmutar nosso sofrimento interno
em mel para a vida. Estamos habituados ao frio, à altura das colinas e ao
grande demônio do deserto. O caminho
para a verdade e a vida está ali, quando encaramos o próprio diabo.
Após, festejaremos num banquete dionisíaco, regado ao vinho e
à carne que provêm dos corpos das ovelhas do rebanho. É no banquete em que as
bestas da natureza sorriem e dançam em círculos. Ali o tempo se torna um
círculo também! E não importa quantas voltas o tempo dê, as ovelhas continuarão
alimentando as feras.
Deixo claro que desprezo qualquer hermenêutica da inocência que
possa ser utilizada para interpretar meus textos. Eu não estou especulando ou
jogando palavras poéticas ao vento: eu estou dando comandos concretos de guerra.
O que eu escrevo deve ser entendido como uma ética de batalha para o hoje e
para o agora. Deve-se entender quem são nossos inimigos: acima de tudo, o
grande inimigo está dentro de nós; mas, externamente, há ídolos que devem ser
esmagados. Toda moral dos escravos que se desdobra em socialismo, cristianismo,
feminismo, igualitarismo, liberalismo e democracia deve ser expulsa de nosso
grande banquete. Inevitavelmente venceremos, pois a vida necessita se renovar
sempre, buscando ares mais elevados ao passo que intensifica a quantidade de escória
presente na humanidade.
Canto I
E o que fiz nessa última estação
Senão arriscar tudo, meu orgulho
Meus sonhos e meu coração
Até que eu caí no escuro?
Encha-te, meu coração
Aguenta até o céu
Suportaste tua maceração
Então me dê teu mel
Tudo ou nada – disse a mim
E o nada conheci
Da Ação Política
Acima de tudo, devemos ser extremamente pragmáticos. Não nos
apeguemos a palavras e ideias abstratas que há muito perderam sua
aplicabilidade. Uma monarquia constitucional pode nos ser útil? Sim, mas
devemos nos concentrar no mais conceito de “útil” e “eficaz” antes de “monarquia”,
“república”, “teocracia”, entre outros. Nós não somos escravos da vaidade, não
será uma palavra enobrecida pela velhice e pelos seus mais sábios apoiadores
que guiará nosso caminho. Todo o resto da ação política se desdobra daí.
Da Ética
Eu nego que a moral seja uma invenção meramente espiritual,
ou um dado absoluto da natureza, ou comum a todos, ou relativa. A moral sintetiza
tanto a liberdade espiritual de um sujeito quanto as necessidades do coletivo. E,
aliás, que não se fale mais em “a moral” como um ídolo de todos. Todo grupo ou
indivíduo desenvolve esotericamente sua moral, e pode-se medir a nobreza de uma
moral à medida que ela busca se isolar dos dedos imundos e do mau-hálito da
ralé.
Qual é a base da moral deles? – A preservação da fraqueza
como uma virtude.
Qual é a base da nossa moral? – Vencer. Após isso, nossa
suprema liberdade individual, verdadeiros leitores, encaminhará cada um às suas
próprias conclusões.
Da Paz
A paz atingida pela identificação da consciência com o
Ser é talvez a maior verdade humana; entretanto, a paz letárgica do rebanho, que
é toda-moral, toda-amor, toda-bem e toda-pacifismo, é um vício de vontade. Acredito
na luta como um verdadeiro instrumento de ascese e elevação espiritual.
Dos Relacionamentos
A conexão entre os amantes é a grande
essência. Daí deve suceder-se o casamento, o sexo, a reprodução e a vida a
dois.
Das Amizades
Só há amizade se houver identificação e igualdade. Para além
disso, as pessoas são instrumentos.
A sua vontade de potência só conhece seus limites onde
começam os limites dos seus amigos, e vice-versa.
Das Inimizades
A bem da verdade, há inimizades boas o suficiente que
merecem ser preservadas e aprofundadas por certo tempo; contudo, esse não é o
caso da maioria das inimizades. De todo modo, deve-se vencer seus inimigos.
Da Diversão
Aqueles que tudo fazem e por tudo passam com um
sorriso infantil no fundo de sua alma entenderam como se vive.