domingo, 14 de dezembro de 2025

Aforismos da primavera

 

    1. A literatura é a comunidade atemporal dos espíritos mais afiados e sensíveis da humanidade. Ali, onde os livros são escritos, cada gênio da literatura universal retém o que já foi produzido e constrói algo novo. Literatura é uma acumulação em que cada mestre passa o bastão para seus sucessores. 


    2. Se considerarmos como humanidade somente as almas elevadas, a literatura é a expressão do espírito humano se acumulando e se superando ao longo da história. 


    3. Ante a voz divina da literatura universal, me sinto pequeno, mas ao meu espírito nunca foi revelado mais do que ele próprio já sabia. Se isso é verdade, não é a minha alma mesma o espírito da humanidade objetivado? A totalidade das emoções e dos conflitos humanos dos diversos tempos ressoam em meu coração como se a história tivesse se desdobrado dentro de mim. Desse modo, não sou mais homem, sou um sismógrafo. 


    4. Há no ar algo menos espesso que o éter, algo que ainda não foi dito, mero conteúdo latente que se expressa no silêncio. O não dito se revela através de olhares, entonações de vozes, ações... Assim, até mesmo os mais sutis cacoetes das pessoas não parecem gestos individuais, mas são os espasmos do espírito do tempo querendo dizer algo. Enquanto sismógrafo, vibro na mesma frequência que a do espírito e recebo sua mensagem.


    5. A escravidão é a forma de produção perfeita. Há, no Brasil, um trauma geral contra a escravidão, dado que o nosso modelo teve um perverso caráter racial. Não é da escravidão à brasileira de que falo, no entanto. Falo de uma mais ancestral, aquela que não se volta para a produção de mercadorias, mas apenas para produção de valores de uso. 


    6. Uma sociedade que se volta para a produção de valores não reconhece limites, porque o valor em si tem o infinito potencial de se reproduzir. Utilidades, entretanto, têm seus limites nas necessidades dos humanos. 


    7. O capitalismo magistralmente revestiu de formalismo jurídico e direito das obrigações seu caráter explorador e, na prática, mais opressor que diversas formas de escravidão. Não digo isso como uma crítica. Pelo contrário, há de se elogiar a dominação do homem pelo homem. 


    8. No começo, era a ação, e a ação pôs em movimento todas as antíteses. Assim, não há de se suspeitar da ideia de que o Bem é o único valor substancial, não o Mal? Ambos, supondo mesmo que exista um bem universal, são irmãos em movimento. O Mal teria, portanto, tanta alma quanto o Bem. Assim sendo, os deuses e os demônios são irmãos. E o que está acima dos deuses e dos demônios, ou o Bem e o Mal? A ação.


    9. O medo é o preço da liberdade.