sexta-feira, 26 de abril de 2024

O Prisioneiro e o Libertador — Contemplai o Sol, irmãos!

    A primeira parte é uma canção, e esta bela canção é dedicada aos bons ouvidos — é falta de educação cantar somente para si. Trata-se de um diálogo entre dois personagens: um prisioneiro e um libertador. A segunda parte foi anexada por mim dias após, e creio que irá completar o sentido do texto. Nada a acrescer.


 Parte I


O prisioneiro


Você pode libertar os espíritos das prisões?

Eu prefiro ter asas nas costas

a ter uma cruz, pois meus pés

são inimigos de todo chão

 

Você poderia descer ao inferno

apenas para perdoar Adão?

e devolver-lhe seu gênio criador

e libertá-lo de seus grilhões

 

Você promete nunca se cansar de mim?

Temo que meus pés se cansem de dançar

e minhas asas me abandonem

e eu volte a ser uma ovelha do pasto

 

Você promete redimir o cosmos

e descongelar todos os rios?

Liberte o Universo da necessidade

e devolva-o à contingência.

 

Você promete esquartejar o homem?

E atirá-lo nos rios descongelados

até que suas partes se reúnam

num novo ser, um super-homem.

 

O Libertador

 

Ei, espírito que dorme no presídio

Acorde! Desperte do seu sono!

E, uma vez que acordares,

acordado ficarás para sempre

 

Quero dar-lhe asas e quebrar grilhões

Que o chão pare de pesar sob seus pés

Mas nada tenho a oferecer-lhe, senão

um deserto frio que ama a solidão

 

Ei, segure a minha mão!

Que você saia da prisão

E voe depressa ao deserto!

E dance como nunca se dançou antes

 

Minhas mãos resplandecem luz,

há tábuas quebradas em meus pés

e um anel de diamante em meu dedo,

pois o Universo mesmo é um anel!


Hoje eu sonhei com ela e voei como nunca

Revelou-se-me uma coisa: eu odeio o mundo.

    Esta imagem onírica me ocorreu como uma verdade

Meu amigo, eu quero acabar com o mundo!

Parte II

"Oh, I've walked on water, run through fire
Can't seem to feel it anymore
It was me, waiting for me"
— New Dawn Fades, Joy Division

    À noite me veio um pequeno ser sorridente, e seu desejo era receber um nome. Não resisti a seu encanto impressionante e ainda agora penso em lhe dar um nome. Que este texto nomeie este pequeno ser; que o transforme, enfim, numa verdade.
    Um ídolo monstruoso se assentou sobre o espírito humano por séculos. Este ídolo é a imagem de um dragão, e sua natureza é salina. O nome do dragão é: "o ambiente molda o indivíduo contra a sua vontade".        Ele mantém acorrentados todos os espíritos livres encarcerados numa grande torre. Os espíritos, agora oprimidos, mentem a si mesmos dizendo — "Ó, como me seria prazeroso ter tido uma vida diferente, quem sabe eu não seria o que sou hoje" — e então — "em verdade, foi meu meio que me construiu". Mas parem! Estou aqui para libertar todos os espíritos da prisão, vim com uma lira para assassinar o dragão. Será que não entendestes que toda prisão é temporária? Será que não desejais a liberdade?
    O canto do dragão entoa uma ideia de escravidão. Ouvi-lo.
    Desde cedo somos acostumados a nos enxergarmos como seres passivos, arrastados pelas correntezas da dinâmica do mundo sublunar. Em conformidade, os sábios ousaram dizer que o homem nasce como uma folha em branco, ou que há em nós uma natureza boa, que vem a ser corrompida pela sociedade. É como se fôssemos seres feminilizados, incapazes de realizar o triunfo da vontade, aprisionados num mundo opressivo e subjugados pela tirania do tempo, vítimas de um passado irresistível.
    Até hoje, disseram que o humano nasce, é desenvolvido pelo seu meio e morre, sem controle sobre esse processo; porém, eu nego essa tese.
    Meu canto lírico entoa uma ideia de liberdade. Ouvi-lo.
    O tempo é uma linha reta? Ora, linhas retas mentem! O tempo de um indivíduo livre é semelhante a um anel, que é preenchido pelo conteúdo solar e imutável de sua vontade. O homem livre é a manifestação férrea da natureza solar, mais próximo de um guerreiro do que de um sacerdote.
    A ânsia do Sol, que é eterno e imutável, é a vontade de dominar, de subjugar a Lua, que é o caos, as águas que correm e o feminino. O indivíduo livre nasce para a guerra, disposto a dominar a realidade sublunar com sua vontade solar. A fúria marcial impõe rédeas sobre o grande vir-a-ser, que é um escravo na realidade terreste, disposto a escravizar e oprimir homens livres.
    Nós, os livres, precisamos dominar a natureza escrava que há em nós, pois ela é semelhante à Lua. Nossos instintos de guerra, pelo contrário, são vontade solar. O primeiro passo é guerrear contra o mundo que nos circunscreve desde cedo, como espartanos em exercício de luta desde a infância. Mas o que é necessário para haver guerra? Oposição. Em verdade, senhores, foi a nossa grande vontade solar que permitiu que as pessoas ao nosso redor fossem tão diferentes de nós, pois estava querendo despertar o guerreiro livre que há em nós mesmos, em concorrência com o nosso escravo interior.
    Somente após lutarmos contra o exterior podemos despertar o espírito marcial interior.
    A todo momento, quando sentíamos ódio e desejo de destruição contra as pessoas, instituições, condições e costumes que se opunham a nós, tratava-se de artimanha da nossa vontade solar moldando um inimigo para combatermos. Esta é a interpretação dos fatos passados. A vontade de poder do indivíduo livre dominou o passado, não o inverso, como nos quer fazer acreditar o dragão.
    Ó, vontade marcial, vontade férrea, vontade de guerra, vontade solar, vontade de poder, que fique claro a todos os espíritos livres que sempre foi você quem agiu por trás dos bastidores! Esta é a redenção dos fatos pretéritos. Que os espíritos livres perdoem o passado; que eles não guardem mais rancor e ressentimento de nada que lhes aconteceu um dia.
    Este é o canto lírico de Saint Nero, que assassinou o dragão e libertou os espíritos da prisão. Despertai, despertai o guerreiro que há em vós! Sede livres, vosso dever é ter asas e — voar!
    Os espíritos livres agora fogem da prisão e, enfim, contemplam o Sol. Eles não conseguem conter suas lágrimas perante o Astro-Rei, pois perceberam que são seus filhos na forma de ferro. Eles não conseguem conter suas lágrimas perante o passado, pois perceberam que as tribulações foram sempre eles moldando o passado para que despertassem sua supremacia. Esta é a história da vontade na cadeia do eterno-retorno despertando o guerreiro. 

domingo, 7 de abril de 2024

Armadilha de Hefesto - O Delírio Poético da Eterna Oposição e Complementação Dialética entre Marte e Vênus

Preâmbulo - estilhaços de ideias 

    A tendência dos materialistas é pregar o indivíduo como um fraco arrastado pelas correntezas da evolução, da luta de classes ou do inconsciente, sem qualquer poder de reação. Na verdade, há uma única reação que eles permitem ao indivíduo: a angústia diante de sua pequenez em relação ao Universo.

     A espiritualidade não é ruim per se — vê-se que ela foi um elemento marcante nas civilizações mais nobres. O problema se dá quando os servos ditam os comandos religiosos, isto é, criam valores que regirão a própria vida. Aliás, o que é o cristianismo hoje senão o elemento espiritual nas mãos do rebanho? — em casos mais graves, o cristianismo se manifesta como protestantismo, que nada mais é que o abandono da tradição e hierarquia aliado com a distribuição dos meios de produção do sagrado. 

    É uma falha de intelecto perceber camadas como meras contradições. O comunismo nega o liberalismo tanto quanto uma planta nega sua semente. 

    E se eu olhar em seus olhos e disser que o problema nunca foi você? Você de mim riria, me odiaria ou choraria? — ou, quem sabe, as três coisas ao mesmo tempo. Uma quarta opção: tornar-se-ia meu aliado...

    Não fazemos o mal porque queremos destruir a vida, o fazemos para destruir um inimigo que há em nós. 

    Muito sofrimento é necessário para se atingir a gentileza. 

    Quando se vê um homem se comportando como uma criança diante da felicidade, nota-se que se trata de um sofredor de mais alto nível. 

    Há um quê de infantilidade nos melhores homens. 

    Eu não deprecio a matéria, haja vista que eu não sou muito próximo da metafísica, mas as filosofias materialistas como foram feitas até hoje estiveram contaminadas com a doença do servo.

    O niilismo triunfou sobre a humanidade, e nosso dever mais elevado é triunfar sobre o niilismo e a humanidade. 

    Por muito tempo depreciei a paixão romântica, mas me arrependo. O problema é quando a paixão cai nas garras da indústria cultural e se torna um instrumento de dominação de massas, rebaixando o homem a um escravo de mulher. — a ser desenvolvido num Eros III...

    Encontre alguém com inclinações nobres para se apaixonar, tenha uma família e ame seus filhos. 

    Não sou uma alma num corpo, não sou guiado por um inconsciente, não sou um trabalhador no capitalismo tardio, não sou um primata civilizado. Eu sou vontade de poder. 

    Solidão não é algo que se escolhe, é uma condição inata de algumas pessoas. 

    Meu subsolo interno se revolve todos os dias, de modo que eu nunca me abro com ninguém a respeito desses terremotos. Eu sou dinamite. 

    Crescer? Mas eu nunca deixei de ser uma criança! Tudo o que se chama de amadurecimento em mim é, na verdade, um guarda-costas da minha criança interior. Há milhares de armadilhas em mim — e mesmo armadilhas dentro de armadilhas — com o único propósito de preservar o santo riso de minha criança.

    Você quer que eles vejam o que você vê, mas como? Seus olhos são míopes: não conseguem avistar o que está longe — seja aquilo que está distante no tempo, seja a profundeza de uma alma.

    Eu não quero enfrentar o mundo, quero vencer o escravo que há em mim. 

    Devo muito a F. Nietzsche, J. Peterson, F. Dostoiévski e J. Evola. 


Marte - Instruções de Guerra


"Para que tamanha resignação?
É pelos teus amigos e irmãos?
Eles se defrontam contigo
Tua terra gerou o inimigo."

    1. Liberdade não é um direito, é um dever.

    2. Quase tudo e todos são nossos inimigos, mas o maior inimigo é o escravo que mora dentro de nós. Devemos assassiná-lo.

    3. Sofrer é bom. 

    4. Deve-se usar a ascese para superar as paixões mais baixas. 

    5. Embora não nos conheçamos e talvez nem sejamos contemporâneos, somos membros de um grupo esotérico cuja unidade maior é de caráter espiritual, independentemente do lugar e da época. 

    6. Não me sigam, não somos coletivistas, não tenhamos pensamento de rebanho. Sigam a si mesmos, e quem sabe nossos caminhos se cruzem. 

    7. A iconoclastia é o primeiro passo. Devemos derrubar todos os ídolos da modernidade, rasgar o véu da família, da igreja, do Estado, do relacionamento e da amizade. Após, devemos perdoar e esquecer, para enfim construirmos algo novo no lugar dos destroços. 

    8. Liberdade é o maior valor que eu construí, mas não se limitem e façam seus próprios valores. 

    9. Guerra é o que fazemos, a paz é para o rebanho. 

    10. Todos nós nascemos numa sociedade niilista, devemos superar o niilismo em nós mesmos. 

    11. Eu não defendo ditaduras totalitárias, muito menos um Estado tirânico e paternalista. Eu defendo um Estado orgânico que vai gerar em seu seio indivíduos unidos pelo profundo senso de nacionalidade.

    12. Ateu? — somente o sou a nível filosófico — mas eu nunca deixei de ser protestante. Ora, protestantismo não é uma corrente religiosa, mas sim uma posição social. Nós, especialmente os neopentecostais e assembleanos, nascemos para ocupar o baixo clero espiritual e cultural. A mídia nos odeia, a cultura nos deu o papel de imbecis fanáticos e os católicos sequer nos veem como irmãos. Nós temos o selo de Chandala em nossas testas. Somos vistos como uma ofensa à cristandade europeia.

    13. Agora, num sentido interno do protestantismo, eu sou ateu de todas as formas. Meus pares protestantes detestam pessoas como eu, além de eu enxergá-los como pequeno-burgueses alçando sua vidinha econômica ao status de Verdade ou como ignorantes fisgados por pastores espertos. 

    14. Os aforismos 12 e 13 não se excluem, embora se contradigam. Deve-se interpretá-los em duas camadas: externa e interna, respectivamente


Para Vênus


"Estou com saudades de alguém que eu sequer conheci. No ciclo do eterno retorno, o passado, presente e futuro se comunicam e se confundem, de modo que experiências futuras podem ser pressentidas no presente."


    Nesta noite estrelada, os astros do céu, os grandes arcontes, giram em torno de nós. Nosso céu é selado como bronze — "Não irás mais além." — assim dizem os arcontes. 

    Nesta noite estrelada, mais uma vez, um arconte emana uma centelha. Ó, quem é esse astro? 

    Nesta noite estrelada, a centelha me sobrevém como um raio. Mais uma vez, sou tomado por um impulso dos deuses. Meu peito está cheio de fogo, e quero declamar poemas. A irracionalidade das Musas toma conta de mim, e estou proferindo ditirambos. Ó dádiva dos deuses! Ó impulso dionisíaco! Quero cantar, cantar, cantar!

    Nesta noite estrelada, minha alma leve voa à liberdade, encantada pelo deus Eros. Minha alma leve ascende aos céus em busca daquela que amo. A quem é meu amor? À Beleza é meu amor! A ti, Afrodite, que fulguras para além da Terra. Quero pôr meu rosto para fora da abóboda celeste e contemplar tua face, tua face, tua face!

    Rompe-se o céu estrelado — minha alma leve voa para além dos arcontes, e o bronze celeste é pesado demais para suportar a leveza de minha alma. Agora meu rosto está acima da abóboda celeste, onde habitam todos os deuses imortais. Eis que contemplo teu rosto, Vênus, e a mim dizes muitas coisas. Em verdade, bem-aventurado é Saint Nero, porque a face da Beleza a ele se revelou e lhe contou muitas verdades. Em verdade, bem-aventurados são os ouvidos de Saint Nero, porque foram agraciados por belas melodias tímidas de uma deusa que é como luz na matéria para as vistas mais aguçadas.

     Tu, Vênus, que constituis unidade entre diferentes! Tu, que, de manhã cedo, estás nas músicas; tu, que, ao meio-dia, estás nos corpos humanos e na natureza; tu, que, à meia-noite, encantas o conhecimento. 

    A mim se revelou que estas são as manifestações do Belo no mundo sensível. Mas, Ó, outro segredo me vem! Em verdade, os sábios até hoje mentiram sobre ti, Vênus. Eis que St. Nero se faz cordeiro de expiação e redime todos os pecados desses sábios, que até hoje mentiram sobre ti, Vênus. Recebe minha poesia, pois sou como um herói solar que não morre antes de sua luz derramar.

    O Belo foi mal-interpretado por toda sorte de niilistas, esta raça de víboras que difama a vida e transpõe seu valor a um mundo acima do meu. Se meu mundo está feio, foi porque dele removeram a Beleza! Em verdade, a Beleza nunca difamou a ordem natural nem quis se assentar acima dela. Sempre foste afirmação da própria vida — apenas aqueles que, por meios marciais, se aprimoraram puderam conquistá-la. Os niilistas, porém, pensaram na Beleza como fuga do mundo terreno, pois eles sempre foram da casta de rebanho, e seu caráter pacifista jamais lhes permitiria acesso integral às belas formas. Em algum momento, a Beleza segundo os niilistas foi tão esvaziada que se tornou negação dos impulsos sensuais! Na Beleza, buscaram ascese antivida. Hoje, porém, os niilistas blasfemam com suas palavras: "A Beleza é relativa!", "A Beleza é opressão!" ou "A Beleza não existe!". 

    Contudo, aquele que busca os caminhos de Ares no seu próprio ser e faz guerra total, lhes responde: "A Beleza não é relativa; tal impressão deve ser verdade em pseudo-humanos que não se ergueram acima do estado primitivo e animalesco! E, em verdade, não mentem quando dizem que a Beleza é opressão, pois ela invade e rasga tudo o que é feio — inclusive os niilistas — e submete-os a seu chicote. Como? A Beleza não existe? — não existe em vocês, raça de víboras! Pois há beleza na refinação e unidade de todos os meus instintos! A vida deve ser embelezada ela mesma!"

    Nesta noite estrelada, o espírito de gravidade me puxa de volta. Ó espírito de gravidade, que puxa pelo calcanhar todos os anjos que querem — voar! Ó você que é inimigo de toda leveza. Seu caráter não é de raio, mas sim de ímã! Bem sabe que minhas asas são fracas demais para lhe — resistir. 

     Nesta noite estrelada, minha alma pesada cai. Minha leveza me abandonou, e já não há mais raios divinos rompendo o céu senão para se desviarem de mim. De ti sinto saudades, Afrodite, porque, em verdade, contemplei tua face. Ora, a saudade ata um nó no presente, passado e futuro — tornam-se emaranhados. Algum dia vi teu rosto e, seja ontem, hoje ou amanhã, de ti sentirei saudades para sempre, para sempre, para sempre...

    Finda a saudade, finda o amor, findam os olhos voltados à beleza, e Saint Nero está sentado em sua cadeira, atônito e emocionado. "Estou aqui novamente" — assim diz Saint Nero — "neste lugar deplorável, rodeado de pessoas barulhentas de cabeças tão silenciosas; neste lugar deplorável, tão feio que talvez seja o grande nêmesis da Beleza. Aqui, não só a arquitetura e decoração são feias, mas também os rostos, as palavras, as músicas, as mulheres, a cultura, a economia...".