A primeira parte é uma canção, e esta bela canção é dedicada aos bons ouvidos — é falta de educação cantar somente para si. Trata-se de um diálogo entre dois personagens: um prisioneiro e um libertador. A segunda parte foi anexada por mim dias após, e creio que irá completar o sentido do texto. Nada a acrescer.
Parte I
O prisioneiro
Você pode libertar os espíritos das prisões?
Eu prefiro ter asas nas costas
a ter uma cruz, pois meus pés
são inimigos de todo chão
Você poderia descer ao inferno
apenas para perdoar Adão?
e devolver-lhe seu gênio criador
e libertá-lo de seus grilhões
Você promete nunca se cansar de mim?
Temo que meus pés se cansem de dançar
e minhas asas me abandonem
e eu volte a ser uma ovelha do pasto
Você promete redimir o cosmos
e descongelar todos os rios?
Liberte o Universo da necessidade
e devolva-o à contingência.
Você promete esquartejar o homem?
E atirá-lo nos rios descongelados
até que suas partes se reúnam
num novo ser, um super-homem.
O Libertador
Ei, espírito que dorme no presídio
Acorde! Desperte do seu sono!
E, uma vez que acordares,
acordado ficarás para sempre
Quero dar-lhe asas e quebrar grilhões
Que o chão pare de pesar sob seus pés
Mas nada tenho a oferecer-lhe, senão
um deserto frio que ama a solidão
Ei, segure a minha mão!
Que você saia da prisão
E voe depressa ao deserto!
E dance como nunca se dançou antes
Minhas mãos resplandecem luz,
há tábuas quebradas em meus pés
e um anel de diamante em meu dedo,
pois o Universo mesmo é um anel!
Hoje eu sonhei com ela e voei como nunca
Revelou-se-me uma coisa: eu odeio o mundo.
Esta imagem onírica me ocorreu como uma verdade
Meu amigo, eu quero acabar com o mundo!
Parte II
À noite me veio um pequeno ser sorridente, e seu desejo era receber um nome. Não resisti a seu encanto impressionante e ainda agora penso em lhe dar um nome. Que este texto nomeie este pequeno ser; que o transforme, enfim, numa verdade.
Um ídolo monstruoso se assentou sobre o espírito humano por séculos. Este ídolo é a imagem de um dragão, e sua natureza é salina. O nome do dragão é: "o ambiente molda o indivíduo contra a sua vontade". Ele mantém acorrentados todos os espíritos livres encarcerados numa grande torre. Os espíritos, agora oprimidos, mentem a si mesmos dizendo — "Ó, como me seria prazeroso ter tido uma vida diferente, quem sabe eu não seria o que sou hoje" — e então — "em verdade, foi meu meio que me construiu". Mas parem! Estou aqui para libertar todos os espíritos da prisão, vim com uma lira para assassinar o dragão. Será que não entendestes que toda prisão é temporária? Será que não desejais a liberdade?
O canto do dragão entoa uma ideia de escravidão. Ouvi-lo.
Desde cedo somos acostumados a nos enxergarmos como seres passivos, arrastados pelas correntezas da dinâmica do mundo sublunar. Em conformidade, os sábios ousaram dizer que o homem nasce como uma folha em branco, ou que há em nós uma natureza boa, que vem a ser corrompida pela sociedade. É como se fôssemos seres feminilizados, incapazes de realizar o triunfo da vontade, aprisionados num mundo opressivo e subjugados pela tirania do tempo, vítimas de um passado irresistível.
Até hoje, disseram que o humano nasce, é desenvolvido pelo seu meio e morre, sem controle sobre esse processo; porém, eu nego essa tese.
Meu canto lírico entoa uma ideia de liberdade. Ouvi-lo.
O tempo é uma linha reta? Ora, linhas retas mentem! O tempo de um indivíduo livre é semelhante a um anel, que é preenchido pelo conteúdo solar e imutável de sua vontade. O homem livre é a manifestação férrea da natureza solar, mais próximo de um guerreiro do que de um sacerdote.
A ânsia do Sol, que é eterno e imutável, é a vontade de dominar, de subjugar a Lua, que é o caos, as águas que correm e o feminino. O indivíduo livre nasce para a guerra, disposto a dominar a realidade sublunar com sua vontade solar. A fúria marcial impõe rédeas sobre o grande vir-a-ser, que é um escravo na realidade terreste, disposto a escravizar e oprimir homens livres.
Nós, os livres, precisamos dominar a natureza escrava que há em nós, pois ela é semelhante à Lua. Nossos instintos de guerra, pelo contrário, são vontade solar. O primeiro passo é guerrear contra o mundo que nos circunscreve desde cedo, como espartanos em exercício de luta desde a infância. Mas o que é necessário para haver guerra? Oposição. Em verdade, senhores, foi a nossa grande vontade solar que permitiu que as pessoas ao nosso redor fossem tão diferentes de nós, pois estava querendo despertar o guerreiro livre que há em nós mesmos, em concorrência com o nosso escravo interior.
Somente após lutarmos contra o exterior podemos despertar o espírito marcial interior.
A todo momento, quando sentíamos ódio e desejo de destruição contra as pessoas, instituições, condições e costumes que se opunham a nós, tratava-se de artimanha da nossa vontade solar moldando um inimigo para combatermos. Esta é a interpretação dos fatos passados. A vontade de poder do indivíduo livre dominou o passado, não o inverso, como nos quer fazer acreditar o dragão.
Ó, vontade marcial, vontade férrea, vontade de guerra, vontade solar, vontade de poder, que fique claro a todos os espíritos livres que sempre foi você quem agiu por trás dos bastidores! Esta é a redenção dos fatos pretéritos. Que os espíritos livres perdoem o passado; que eles não guardem mais rancor e ressentimento de nada que lhes aconteceu um dia.
Este é o canto lírico de Saint Nero, que assassinou o dragão e libertou os espíritos da prisão. Despertai, despertai o guerreiro que há em vós! Sede livres, vosso dever é ter asas e — voar!
Os espíritos livres agora fogem da prisão e, enfim, contemplam o Sol. Eles não conseguem conter suas lágrimas perante o Astro-Rei, pois perceberam que são seus filhos na forma de ferro. Eles não conseguem conter suas lágrimas perante o passado, pois perceberam que as tribulações foram sempre eles moldando o passado para que despertassem sua supremacia. Esta é a história da vontade na cadeia do eterno-retorno despertando o guerreiro.

