domingo, 17 de março de 2024

O que eu fiz?

Este texto marca a transição de uma era para outra.


Está Consumado?


    Seguindo caminhos férreos, o que encontrei senão nada?

    No meu contínuo autossacrifício marcial, o que encontrei senão miséria?

    O que descobri senão que não sou livre?

    Todos os dias acordo, derramo meu sangue sobre o altar da vida e sou recompensado com o mesmo cenário opressor e feio com o qual me deprimo há dezenove anos. 

    Nada mudou, as coisas continuam exatamente como sempre foram. Tudo o que acontecerá, aconteceu. O que hoje é, foi e será. 

    Quem sou eu senão um fracasso, não melhor que um mendigo ou uma prostituta? 

    E cá estou eu: sem deuses, sem amigos, sem posses, sem eu mesmo. 

    Tento sonhar, mas as forças telúricas me puxam de volta à terra. 

    O que antes era bom ficou no passado, e tentar reviver o passado me faz ver que ele está morto. Não sou um necromante. Tento reproduzir mihas boas experiências, e elas nunca voltam à vida. 

    Meus amores, meus amigos, meu ódio, minha guerra e minha alegria estão sepultados pelo tempo. Ah, como eu queria poder desenterrá-los!

    Como eu queria que as tumbas do meu passado rebentassem e minhas versões anteriores renascessem, mas nada sobrou. 

    Eu não me sinto conectado com mais nada, minha alma foi tomada de mim, e agora sou um escravo de olhos vazios. 

    As correntes da matéria me arrastam ao fosso dos comuns, onde todos os escravos viventes cairão mortos um dia. 

    Não estou mais em guerra, porque cansei de lutar. Não consigo mais abraçar o destino trágico. 

    Não há ninguém me esperando, não há nada além do arco-íris — sequer há um arco-íris. 

    Acordar, assistir a aulas, trabalhar, transporte lotado, estudar, dormir... os tempos de lazer se resumem a mofar nesta favela imunda. 

    Sinto muito por ter fracassado, por decepcionar quem possa ler este texto daqui a uns anos. Estou doente e tomei circuta, na esperança de Asclépio me curar. 

    Em verdade, enganei todos aqueles que entretiveram expectativas quanto a mim. 

    Nem consigo mais chorar, nem consigo mais odiar, estou anestesiado. 

    Pai, por que não afastou de mim esse cálice?

    Até mesmo ler meus textos me deixa deprimido: não sou o escritor que queria ter sido. Não há mais leitores, não haverá leitores no futuro. Meu mestre morreu louco e precisou de uma ditadura mais adiante para ser reconhecido, imagine eu que não sou 1/10 do que ele foi. 

    Amor fati? Como amar a vida? Como dizer Sim? Como querer retornar? Eu não posso mais tomar nenhuma ação, eu não sou uma ação, eu não quero nada. Eu? Eu não existo. 


    Está consumado?


Está Consumado.


Mas quem será que é este moço?

Este moço que todos olham

Este moço que toca sua flauta

Há um círculo de pessoas em sua volta


Ó, será que é um santo?

Ou, quem sabe, um sátiro?

Será alguém superior?

A menos é um humano?


Ele resplandece bondade

Mas não parece ser do bem

Ele resplandece alegria

Mas pode trazer sofrimento


Seus pés dançam livremente

Por que ele dança?

Sua flauta toca melodias alegres

Por quê?


Certamente é um forasteiro

Embora pareça ser tão familiar

Será que este moço pode me

Iluminar? 


A cidade anseia pelos seus frutos

Ó homem cujas mãos 

Apontam para cima e para baixo


Afasto todos, invado o círculo

Perdão, não queria atrapalhar!

Mas não pude resistir-lhe

Seu gênio é de fecundar


Por que não me fecundas?

Por que não fecundas a cidade?

Tamanha tua luz, queremos

Tê-la!


Ó vivente entre todos os que vivem

Está consumado?

Por que lhe pergunto

Se somente eu posso responder?


Está consumado.



sábado, 16 de março de 2024

Meio-dia e eternidade



Introdução e Interlúdio


Esta é a hora do grande meio-dia,

o passado e o futuro fazem aliança,

os ídolos ocos são derrubados

e a moral é alvejada


As grandes potestades se assentam

Eu sou vários e todos os príncipes tenho

Eu já aconteci e acontecerei de novo

pois não há passado sem futuro anterior


Meus príncipes arrastam estátuas,

e meu vento revive todos os mortos

e mata todos os sem-vida


Um leão ruge: não quero, não devo

Todos os lagartos se espantam,

e agora o deserto é somente do leão


Meu vento liberta todos os cativos

Todas as correntes são estouradas

Todo o meu veneno se tornou mel


Meio-dia: O Dia do Leão


Ó meio-dia

Perdoa meu verso

Minha falta de metro


Ó meu dia

Dia do leão

Ouve minha canção


Ó vida

És tu? 

Mais uma vez, portanto!


Ó vida

És minha esperança

Por ti espero, mas tanto!..

... em forma de aliança


Como o homem abandonou seu povo e matou um dragão


Por escuras cavernas andei

Em busca de mim,

Meu povo abandonei

Quem achei por fim?


A ti achei, dragão

Em verdade, pairaste sobre meu povo

E tua sombra sempre vi

Agora te vejo de novo


Olha! Vê o que trago em minha cinta

Olha! Vê se não é uma lâmina

Olha! Vê se não é tua morte 

Olha! Olha bem para teu assassino


A ti achei, dragão

Tu que cintilas ídolos em tuas escamas

Tu que tornas o mel em veneno

Tu que puseste meu povo de joelhos


Olha! Olha bem para teu assassino

Não me confundas com um vingador

Não trago vingança, senão amor

A quem? À vida é meu amor!


O crime sem castigo


Ó meio-dia

Que sacrifício diabólico eu fiz!

Deixei um cadáver na caverna

Que sacrifício cainita eu fiz!


Mas não há mais tempo

Em meu louvor não há lamento

Apenas rugidos

Pois não devo, não quero


Porque Deus morreu,

É hora de o super-homem viver. 

quinta-feira, 7 de março de 2024

A Estrada

 A estrada é longa demais assim como o vazio em meu coração 

O destino final ainda longe porém creio ser recompensador como o dia de minha morte será 

Divago olhando agora os montes, a grama, a terra, a imensidão que este mundo tem a oferecer apesar de vivermos tão pouco nele e termos tão pouco tempo pra apreciá-lo, o esforço que fazemos ao se concentramos em nós mesmos e em nada mais, somente numa atitude egoísta e simplista, momentos como esse me lembram de que a vida não é isso, o vento forte no meu rosto me dá alívio, por meros segundos eu lembro que estou vivo, por meros segundos estou feliz de novo e assim é na estrada, a estrada da vida


By John Smith