Este texto marca a transição de uma era para outra.
Está Consumado?
Seguindo caminhos férreos, o que encontrei senão nada?
No meu contínuo autossacrifício marcial, o que encontrei senão miséria?
O que descobri senão que não sou livre?
Todos os dias acordo, derramo meu sangue sobre o altar da vida e sou recompensado com o mesmo cenário opressor e feio com o qual me deprimo há dezenove anos.
Nada mudou, as coisas continuam exatamente como sempre foram. Tudo o que acontecerá, aconteceu. O que hoje é, foi e será.
Quem sou eu senão um fracasso, não melhor que um mendigo ou uma prostituta?
E cá estou eu: sem deuses, sem amigos, sem posses, sem eu mesmo.
Tento sonhar, mas as forças telúricas me puxam de volta à terra.
O que antes era bom ficou no passado, e tentar reviver o passado me faz ver que ele está morto. Não sou um necromante. Tento reproduzir mihas boas experiências, e elas nunca voltam à vida.
Meus amores, meus amigos, meu ódio, minha guerra e minha alegria estão sepultados pelo tempo. Ah, como eu queria poder desenterrá-los!
Como eu queria que as tumbas do meu passado rebentassem e minhas versões anteriores renascessem, mas nada sobrou.
Eu não me sinto conectado com mais nada, minha alma foi tomada de mim, e agora sou um escravo de olhos vazios.
As correntes da matéria me arrastam ao fosso dos comuns, onde todos os escravos viventes cairão mortos um dia.
Não estou mais em guerra, porque cansei de lutar. Não consigo mais abraçar o destino trágico.
Não há ninguém me esperando, não há nada além do arco-íris — sequer há um arco-íris.
Acordar, assistir a aulas, trabalhar, transporte lotado, estudar, dormir... os tempos de lazer se resumem a mofar nesta favela imunda.
Sinto muito por ter fracassado, por decepcionar quem possa ler este texto daqui a uns anos. Estou doente e tomei circuta, na esperança de Asclépio me curar.
Em verdade, enganei todos aqueles que entretiveram expectativas quanto a mim.
Nem consigo mais chorar, nem consigo mais odiar, estou anestesiado.
Pai, por que não afastou de mim esse cálice?
Até mesmo ler meus textos me deixa deprimido: não sou o escritor que queria ter sido. Não há mais leitores, não haverá leitores no futuro. Meu mestre morreu louco e precisou de uma ditadura mais adiante para ser reconhecido, imagine eu que não sou 1/10 do que ele foi.
Amor fati? Como amar a vida? Como dizer Sim? Como querer retornar? Eu não posso mais tomar nenhuma ação, eu não sou uma ação, eu não quero nada. Eu? Eu não existo.
Está consumado?
Está Consumado.
Mas quem será que é este moço?
Este moço que todos olham
Este moço que toca sua flauta
Há um círculo de pessoas em sua volta
Ó, será que é um santo?
Ou, quem sabe, um sátiro?
Será alguém superior?
A menos é um humano?
Ele resplandece bondade
Mas não parece ser do bem
Ele resplandece alegria
Mas pode trazer sofrimento
Seus pés dançam livremente
Por que ele dança?
Sua flauta toca melodias alegres
Por quê?
Certamente é um forasteiro
Embora pareça ser tão familiar
Será que este moço pode me
Iluminar?
A cidade anseia pelos seus frutos
Ó homem cujas mãos
Apontam para cima e para baixo
Afasto todos, invado o círculo
Perdão, não queria atrapalhar!
Mas não pude resistir-lhe
Seu gênio é de fecundar
Por que não me fecundas?
Por que não fecundas a cidade?
Tamanha tua luz, queremos
Tê-la!
Ó vivente entre todos os que vivem
Está consumado?
Por que lhe pergunto
Se somente eu posso responder?
Está consumado.
