O Que Sobrou de O Arquétipo do Fantasma?
No dia 28 de outubro de 2022, publicava meu primeiro texto neste blog. O Arquétipo do Fantasma foi meu inicial grande suspiro, foi nele que comecei a expressar meu caos interno. Na época, a ideia que mais fervilhava na minha cabeça era o existencialismo — acabara de ler Sartre e Dostoiévski.
Meu objetivo foi aplicar uma hermenêutica em minha própria existência. Utilizei, para tal, como grande fio condutor, a obra Memórias do Subsolo (Dostoiévski) aliada a elementos da psicanálise.
Relendo-o hoje, noto que eu era completamente niilista — embora as pessoas glamourizem o niilismo como algo próprio das almas profundas, quem realmente é niilista sabe o inferno que isso é. Meu anticlericalismo e imoralismo — nunca socialista, entretanto — eram acompanhados de uma postura de fraqueza e impotência perante o mundo. Influenciado por teses anarcocapitalistas, neguei as ideias de Estado, leis e ordem. Este era eu: um jovem de dezoito anos, anarquista, vazio e sem expectativas de melhora. E como poderia ter sido diferente? Tentara por anos traçar as pegadas do sentido da vida através de uma excessiva caça racional, misturara-me com a ralé da sociedade durante toda a minha vida, correra atrás dos falsos ídolos...
Numa perspectiva biográfica, fracassara no curso de Engenharia, estava num lugar onde não queria estar e tinha visto todo o meu único esforço ser jogado fora diante dos meus olhos. Um rapaz de dezoito que dera seu máximo por um ideal de autolibertação, agora encarcerado num porão escuro devido a forças externas. Tentara superá-las, ser melhor que as minhas condições financeiras, minhas virtudes intelectuais e aparência física, mas perdera a luta.
Foi então que FunkyIsPunky apareceu a mim e me ofereceu uma proposta de escrever aqui — sou grato até hoje por esse nobre gesto. No começo, fiquei receoso, porque estava prestes a mudar totalmente o tom das postagens — era como um Midas reverso, que tudo aquilo que toca vira lixo — mas tão logo cedi ao instinto de me revelar aos olhos de todos, percebi que eu deveria escrever inúmeras vezes mais.
Passado mais de um ano, posso dizer que minha vida melhorou e que o Fantasma evoluiu a algo mais material, mais vivo. 2022 foi um ano dual: em seu primeiro semestre, tinha vivido os melhores tempos de minha vida; no segundo, vivera numa caverna repleta de dúvidas e assombrações. Mas em 2023 tive uma nova chance, reconstruí minha vida a partir dos destroços remanescentes — há pouco vivi os três melhores dias da minha vida.
O Fantasma ficou para trás, encontrou a morte para que houvesse vida. Olhando em retrospecto, posso dizer que minha maior vitória foi ter abandonado o niilismo e as muletas que eu utilizava para não cair morto no abismo. A passos tortos e incertos talvez, ando com estas pernas além do limbo. Minhas atuais crenças são: nacionalismo, a vontade de vida, pragmatismo e, embora mais cético do que deveria, acredito que haja uma ordem sobrenatural nos bastidores da existência. Acredito também na vida, na beleza intrínseca das coisas, na minha pujante força interna.
Saint Nero, O Santo dos Santos
Saint Nero foi e sempre será minha postura crítica e irreverente, ao mesmo tempo amorosa, para com e contra o mundo. O Arquétipo do Fantasma foi um texto ousado — colocara meus pés para fora da minha torre de marfim, isto é, meu talento para as ciências exatas e Física — arrisquei nele minha imagem, fui completamente honesto e genuíno em cada linha sua. Sem medo de julgamentos, não dominando o básico de nossa gramática normativa e com uma redação equiparável a de ENEM, despejei minhas verdades sem qualquer rigor lógico. Retirei, portanto, de mim um peso enorme e abri-me aos olhos do Universo — o resultado dessa empreitada está descrito em meu texto predileto, a saber, Ah! Que Susto!. Não houve uma palavra nesses dois textos que não fosse regada a lágrimas acompanhadas de palpitações no meu coração.
Se tomei a decisão de escrever, foi por não existirem tantos ouvidos que quisessem me escutar. Saint Nero existe enquanto solidão, enquanto espírito que transborda e quer emitir sua luz às pessoas, e há poucos que a aceitam. Não são meus leitores que me fazem escrever, mas a ausência deles! Se eu, Saint Nero, desaparecer um dia, será por ter finalmente completado minha missão, então poderei descansar em paz e levar uma vida gloriosa de advogado — quiçá juiz de direito ou analista fiscal, se Deus quiser.
Algumas Máximas
1. Faça tuas ações guiarem-te rumo ao que desejas ser. Que elas te elevem aos teus mais gloriosos momentos; que teus dias de glória, marcados em tua memória, coroem tua vida e inspirem tuas ideologias e ações.
2. Onde se encontra o veneno para a alma? Nos costumes dos comuns, no hedonismo.
3. E, se um obstáculo se opuser a ti, analisa se ele é de alto nível ou não. Se for de baixo nível, envergonha-te e aprimora-te. Caso não, orgulha-te; contudo, em qualquer caso, destrói-lo.
4. Quem é meu maior obstáculo? — São dois: o meio externo fraco e a fraqueza do exterior que tu internalizaste em ti mesmo.
5. Nós carregamos a verdadeira bondade em nosso íntimo. Antes de tudo, fomos verdadeiros cristãos — hoje somos leões; amanhã, crianças.
6. Como os sem-amor de si, oprimidos, promíscuos e fracos poderiam, em sua fonte, ter o princípio do verdadeiro bem? O objetivo deles é arrastar todo o resto do mundo a seus níveis.
7. Não tema a dor. Ela te santifica e torna-te capaz de absorver a beleza e glória da vida.
8. Os verdadeiros heróis deste mundo são lembrados como os piores demônios — que tremenda inversão! A história há de ser revista.
9. Os grandes homens deste país têm extremo valor e somente uma desvantagem — eles não são eu.
10. A vida toda eu senti que as pessoas eram indiferentes comigo, que pouca estima tinham por mim. Qual não foi minha surpresa quando descobri que minha válvula de escape se tornou algo marcado na lembrança delas!
11. Por não haver nenhuma outra opção além ser um pária ou uma deidade, conformei-me em sê-la. E qual a semelhança entre ambos? — tanto a águia quanto o rato são condenados à solidão e ao inverno.
12. Ratos são desprezivelmente pisoteados, vítimas de uma ação não planejada de seus executores. Já águias são sistematicamente assassinadas pelas mais bem-elaboradas estratégias: envenenam-se suas asas de diversas formas até que ela não possa mais voar.
13. É mais fácil lhe falarem da vez em que você caiu de bicicleta do que de quando você pilotou um avião. É mais fácil o bufão empurrar o homem do meio-dia abismo abaixo do que ajudá-lo em seu delicado equilíbrio pela corda.
14. Irmãos, caminhem lentamente para não tropeçarem e caírem no chão. Sejamos mais dóceis conosco, saibamos respeitar e entender nossos limites. Do contrário, será pior — ou até mesmo impossível — recuperarmo-nos do dano da queda.
Ode À Vida, No Vale do Sol Radiante
Montado a cavalo, além do abismo, no qual fui deixando sepultura dos meus anjos, aponto em direção à luz radiante do sol. Tomai as rédeas de vossos próprios seres, abandonai vossas cruzes e sigai ao meu lado no sentido de vós mesmos! Nosso fogo é santo: chama que devora e purifica. E, se vossas vontades não forem grandes o suficiente para a magnitude de nossos propósitos, estarei sempre ao lado para vos impulsionar.
Agradecimentos a Aqueles que Me Ergueram em Seus Ombros
A FunkyIsPunky por ter me cedido este espaço e divulgado meus textos; a Lucas por ter sido o primeiro leitor e apoiador, por ter me dado autoestima para que eu continuasse escrevendo; a Espião por ter me ajudado na correção gramatical nos primeiros textos, sempre fazendo críticas incômodas, mas nunca desnecessárias; a Brivi por ter sido, sem sombra de dúvidas, um grandíssimo apoiador e caminhado ao meu lado na arte da escrita por um bom tempo; a meus futuros leitores, que são meu alvo, cujas ausências me impulsionam; e, por último e mais importante, a meu melhor amigo, que vaga comigo no outro lado do abismo, onde ninguém além de nós caminha — as descobertas que fazemos no outro lado viram conteúdo para meus textos.




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