quinta-feira, 30 de abril de 2026

Propeller

  Olá, hoje venho comentar sobre um dos meus vídeos de skate favoritos, o Propeller da Vans.
Bom, aos que me conhecem de perto, sabem que esse vídeo influenciou boa parte da minha maneira de andar de skate, é um vídeo que reúne uma parcela considerável dos caras que mais admiro nessa cultura.
Jeff Grosso (RIP), Tony Alva, Hosoi, Ray Barbee, Caballero, caras que realmente fizeram diferença no rumo da história.
  O vídeo em questão já começa com não apenas os dois pés na porta, mas sim com uma bela voadora no peito, contando a história do skate com Tony Alva descendo as ruas de Dogtown até uma bela piscina, remetendo ao início de tudo, logo após, uma sessão de Half brutal com OS CARAS, Caballero; Hosoi; Grosso; Omar Hassan e depois apresentando o resto do time da Vans, que também de forma alguma deixa a desejar, muito, mas muito pelo contrário. Finalizando a intro com um belo Five-o de front de John Cardiel (All Hail).
    





 O sujeito, que abre o vídeo, de forma magistral ao som de "Tonight" de Iggy Pop é o Chima Ferguson, e é absurdo o quanto esse cara sabe destruir um gap, Inward Hells, Switch 360 Flip, e até um belo ollie feito no lugar certo se torna o que chamam lá fora de "Gnarly". Interessante que este já mostra o quão o time da Vans é diferenciado, não vemos calças exorbitantemente grandes, tênis podrões, e camisetas oversized, cada um tem uma maneira alternativa e estilosa de se portar.
    E então o próximo é um dos caras mais piroquinhas do video, Rowan Zorilla, o mesmo que aparece na capa do vídeo, puta merda, ele já começa sua parte repleta de manobras e linhas de Switch, e super interessante o quanto ele consegue ser criativo em diversas manobras, sempre as executando em lugares improváveis, um olhar puramente skateboard, enxergando possibilidades além. Vale citar o Five-o em cima do caixa de uma bilheteria rs.
    Em sequência, ao som, assim como a parte, pesadíssimo de "Live Undead" do Slayer, Fucking Tony Trujillo (TNT), um dos skatistas mais clássicos do time da Vans, trazendo consigo todo o poder do hardcore skate, cru e brutal. Uma mescla perfeita de Bowl e Street já nos dando um gostinho do que vem a seguir que é, Diretamente de Santa Monica: Elijah Berle, porra, meus amigos que tão lendo, eu nem preciso dizer que esse cara me influencia demais, é perceptível ao bater os olhos em mim. Um estilo simples e poderoso de andar de skate, perfeito exemplo do que seria a adaptação de Dogtown à brutalidade do street skate, estamos falando de 50-50's em canos absurdos, nosegrinds, impossibles e wallrides, e vale ressaltar o ollie absurdo por cima de duas correntes num gap logo no começo da part, uma pitada generosa de bowl também, todos executados em picos de dificuldade elevada, casando perfeitamente com o que não poderia ser diferente, Circle Jerks, o puro suco do Hardcore californiano. 
    Chris Pfanner, mais um do time da Anti-Hero quebrando tudo nesse video ao som de Firework do Siousxie and The Banshees, gaps sinistros onde cada manobra é uma porrada no estomago, detalhes bems legais ao decorrer são as imagens dele com sua filha, e um invert sinistro de Jeff Grosso.
    A seguir temos nosso surf skater favorito, Curren Caples. Uma parte bem divertida que mostra toda a potência e versatilidade dele, um cara verdadeiramente Overall, nenhum terreno é problema pra esse cara, um estilo de andar e se vestir cativantes, a trilha sonora fica por parte de Ray Barbee, infelizmente ela não esta em nenhuma plataforma pra ser ouvida, mas tem o Making Off no DVD e no Youtube, musiquinha bem simpática pra mostrar como o talento de Ray não se limita apenas ao skate, rs.
   Daniel Lutheran, seria meio estranho dizer que esse cara é o Evan Smith da Vans? esse cara tem um estilo bem fora da curva e umas tricks bem cabulosas diga-se de passagem, vendo ele andar podemos ver que faz todo sentido ele fazer parte do time da Toy Machine. (Parte favorita do meu mano Miguel)


Gilbert Crockett, caralho, acho que nunca tinha visto um baixinho com tanto pop, não sei por que mas esse cara me parece um espião russo que virou skatista, ahahaha, brincadeiras a parte, gosto bastante do estilo desse mano também, se reparar bem ele gesticula os braços de uma forma bem parecida com Dylan Rieder.
    a seguir temos um combo que parece sem sentido, mas não é. Andrew Allen e Dustin Dollin. Allen, pode se dizer que tem o estilo mais alterna do time, early grabs to grind e calça pescando são caracteristicos de um bom e velho alternativo, e Dollin, puts não há muito o que falar, esse cara é um dos mais pirocas da face da terra, da pra se contar nos dedos de uma mão quantas vezes esse cara esteve sóbrio em cima do skate, porém estilo irado e manobras muito doideiras, o verdadeiro "Go For It".
  Geoff Rowley. Um dos skatistas mais importantes do time da Vans, sua parte começa de uma maneira não linear as outras, com um pequeno depoimento do mesmo falando o quanto gosta e é importante preservar o skate vandal de rua, onde ele vai procurar e andar no pico mais improvavél nem que isso dure apenas 15 minutos, uma parte clássica de Rowley, Motorhead tocando e manobras incansáveis em esgotos americanos.
  Logo Após, Pedro Barros representando o Brasil nesse video lendário, essa part é muito foda, manobras absurdas num gás elevado, linhas brutais e super difíceis, um skate agressivo que representa bem o que nosso país é.
  Kyle Walker, um dos malucos mais moedores de corrimão que esse planeta já viu, grinds longos em canos bizarros, manobras estonteantes em gaps medonhos, ver esse cara andar causa calafrios a todo momento!
  chegando na ultima part do video, Anthony Van Engelen. Um dos meus skatitas favoritos também, é verdadeiramente impressionante ver um homem em seus 37 anos mandando manobras de swtich com uma destreza absurda, numa velocidade grande, o real Powerful Style da California no seu Dress Code caracteristico: Calça Dickies, Old School e boné aba reta. O Clássico e Poder que deram ao AVE o título de skatista do ano em 2015, o que foi super merecido.
  Enfim o video chega ao final, com seus creditos emocionantes citando cada participante terminando com uma cena bem bonita de Geoff Rowley e seu filho dando tchau ao espectador. A seguir o video mostra no fim se volta ao início, uma sessão de Bowl numa piscina, com os amigos enquanto Steve Van Doren serve hamburguers pra rapaziada, reforçando o unico estigma em que o Skateboard deve se prender, a AMÍzade. Obrigado.











segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Niilismo, propósito e ideologias totalitárias - um ensaio.

Ao longo da minha formação intelectual, tive contato com diversas ideias dos diversos cantos do mundo e das várias épocas. Não me escaparam os alemães, os russos, os italianos, os franceses, os americanos e nem mesmo os japoneses. Para além do que eu li, eu cultivei cada um desses pensamentos dentro de mim, de modo a se tornarem não somente palavras, mas sensações e maneiras de interpretar a realidade. Sou um ateu materialista, ou seja, não acredito em nada transcendental, apenas em arranjos de átomos dispostos por aí. 

Por ter convivido com ideias tão conflitantes em mim, tornei-me cético à grande maioria das metanarrativas. A verdade se tornou um bem de consumo, e, à medida que mercado econômico se desenvolve, mais as pessoas podem comprar suas ideologias nas prateleiras e se fecharem numa bolha. Assim, nas múltiplas verdades destaca-se sempre algum aspecto da realidade, ignoram-se todos os outros e o sujeito pensa que as coisas estão fazendo sentido. 

Se eu acredito em qualquer verdade, é que a realidade das coisas é muito mais fisiopsicológica do que linguística. Não que a língua não desempenhe um papel importante no funcionamento da sociedade, mas ela opera mais como um véu demiúrgico que encampa a objetividade. As coisas parecem ser outras quando passam pelo crivo da linguagem. Elas se recombinam, formam unidades de sentido, ligam-se umas às outras numa teia de significado completa, e assim nasce a metanarrativa. Começo, meio e fim. No melhor dos casos, uma boa religião é uma redação bem-feita. Hoje em dia, as religiões não precisam mais de um ente transcendente tão explícito quanto o é no cristianismo. As pessoas acreditam em política, causas sociais e misticismo com a mesma devoção que um mártir da igreja tem nos assuntos de Deus. 

É com a linguagem que os humanos constroem sistemas morais inteiros, todos eles meramente ideológicos, disfarçando uma condição de opressão, um sistema de produção ou uma neurose qualquer. 

Nietzsche entendia bem esse vazio de sentido, a falta de realidade nessa coisa chamada verdade. Mesmo assim, ele deu um passo artístico no sentido de recompor o quadro da vida. Afinal, o que é a transvaloração de todos os valores senão uma transfiguração artística por meio da linguagem? No fundo, Nietzsche, sendo um imoralista, estava salvando a moral das garras do niilismo. 

Eu, no entanto, sinto em mim impulsos de senhor e de escravo. Essa contradição existia em Napoleão também, então talvez seja por isso que Nietzsche disse que Napoleão era uma síntese de super-homem e último homem. A primeira vez que alguém escreveu sobre o meu tipo psicológico foi Platão, quando descreveu em sua República o arquétipo do timocrata: homem orientado pelo princípio da honra. Honra no sentido de acúmulo de méritos e conquista de glória pública. Diferentemente do aristocrata puro, que é orientado apenas pelo princípio da verdade e, portanto, autossuficiente em suas reflexões, o timocrata avança em qualquer promessa de glória e reconhecimento público. O timocrata é, portanto, um escravo da própria vontade ao mesmo tempo que é senhor. É uma vontade que só pode ser preenchida quando ele tem a validação tanto externa quanto interna de seu valor intrínseco. O timocrata plenamente realizado precisa ser louvado pelo mundo e por si, e a sua plena autossatisfação só é atingida através do sentimento de orgulho. 

Vejo no timocrata a essência do fascismo. Quando indagado sobre a definição de fascismo, Mussolini apenas respondeu "nós somos contra a ascensão fácil". Veja bem, um timocrata pode até ascender, mas só isso não bastaria para sua autorrealização, porque é necessário que o caminho seja de acordo com o que seja mais meritório, ou seja, mais difícil. Para exemplificar, de nada valeria a um timocrata ganhar um milhão na loteria, porque ele precisa conquistar o milhão com as próprias mão. 

Uma clara evolução do timocrata está na obra de Maquiavel, quando ele descreve o tipo da raposa em O Príncipe. Também pode ser identificado o mesmo em personagens da literatura como Raskolnikov e Julien Sorel. Será que conseguem entender isso? A morte de Deus precisa primeiro ocorrer em nossos corações para que possamos estar além do bem e do mal, de modo que não teríamos freios morais para conquistarmos nossa honra. 

Pessoas como eu têm um sentido de grandeza forte, nós queremos ter uma vida da qual possamos nos orgulhar. E, assim como no timocrata, essa sede por algo vem justamente de seu exato oposto. Somente um indivíduo sem nada a se orgulhar busca tanto assim a glória. Há um senhor em nós que quer se distanciar do próprio escravo exterior que somos. Mas ó, não seria isso também um discurso religioso? Enxergar num sujeito pobre e de pouco poder uma "alma" de senhor não é mais uma inversão metafísica da realidade concreta? Mas o que define um senhor e um escravo? Nietzsche dizia que seu homem superior era a soma de uma mente aprimorada com um físico superior, então não é exatamente de uma relação econômica ou social que estamos falando. Mesmo o mais pobre dos indivíduos pode ser um senhor. O poder político e financeiro é uma mera contingência. 

Apesar de toda essa explicação que eu dei, tenho ciência de que é só mais uma metanarrativa. Meu ceticismo atinge até as coisas que eu acredito. Embora alguns encarem isso como uma maneira chique de estar confuso, eu digo que é um jeito de estar sempre aberto à vida. Ela sempre vai se apresentar de diversos modos, sempre colocando à prova qualquer metanarrativa e desmoronando sistemas inteiros, mas é necessário que o filósofo -- sim, neste ponto já atingi o caráter de filósofo -- esteja aberto à dúvida sempre e seja honesto com a própria ignorância.  

Já não somos mais fascistas, ou guerreiros, ou heróis trágicos, ou sacerdotes de dionísio, ou príncipes maquiavélicos. Não somos nada além de filhos de Caim.

domingo, 11 de janeiro de 2026

O Mito do Rei de Thule Moderno

Prefácio do autor

    O que eu publico aqui é uma novela inacabada. Ela está com a estrutura pronta e com três dos quatro atos praticamente completos. Ocorre que, por motivos pessoais, escrever o Ato III se tornou uma tarefa dolorosa. Assim, não o concluí.

    Trata-se de um romance psicológico e quase uma corrupção do gênero romance de formação.  

    Desde já, fiquem com o texto na íntegra.

    St. Nero, 11/01/2026 


      PRÓLOGO - Uma noite na rua

 

      Ao compasso de meu coturno que martela a calçada acidentada, meu pensamento se alinha com a estética de meu entorno. Os muros são irregulares, as casas não obedecem a nenhum padrão matemático, e as pessoas se reúnem em botecos mal distribuídos. O cinza do concreto é a cor predominante daqui. Vindo dos bares, músicas descompassadas entre si se misturam. Elas falam do trivial: bebidas, relacionamento e festas. Os repetitivos nos que eu passei nesta cidade comprovam um fato: este lugar está travado no tempo.

 

    Os livros, músicas e filmes que consumi durante toda a minha vida prometiam um mundo encantado, não necessariamente bom, mas interessante o suficiente para que alguém desejasse sofrer nele, tal qual um ator que interpreta um personagem tão odiável quanto Judas apenas pelo prazer de estar no palco. Essa promessa deixou para trás um aborto, fruto do sexo entre meus ideais estéticos sofisticados e o lugar remendado em que eu vivo. Seria melhor que tais amantes jamais houvessem se conhecido.

 

    Eu não queria estar aqui, é verdade, mas eu faço parte deste lugar, eu sou como este lugar. Eu também sou desarmônico, remendado e travado no tempo, não consegui evoluir. Embora eu tenha plena consciência disso, meu orgulho me sugere que eu deva ser um espectador crítico desta tragédia, não mais um figurante dela, como o são todos esses homens que se entregam às diversões mundanas daqui.

 

    Estou quase no fim da caminhada. Não há muito aonde ir fisicamente aqui, então a verdadeira caminhada sempre se dá no fluxo de meus pensamentos. A saída do trabalho é o ponto inicial deste percurso repleto de reflexões, e meu retorno ao lar é o fim. Tenho ciência disso e fico angustiado. Quanto de vida eu estou perdendo por estar engaiolado neste presídio a céu aberto? A realidade com a qual eu sonho é tão mais complexa, harmônica e interessante. Eis o maior pecado que qualquer lugar ou pessoa pode ter: ser desinteressante. Os gregos tinham noção disso, então em seus mitos a humanidade era interessante o suficiente para despertar a atenção dos deuses, que, por alguns momentos, deixavam de ser os mais elevados para cederem os holofotes a nós. Hoje perdemos isso, e as pessoas se entorpecem com bebidas, religião, sexo casual, roupas e objetos de moda, porque somente a neblina mental que os vícios criam é capaz de mascarar a face torta de um mundo que abandonou o belo.

 

    Eu, por minha vez, me apego a uma garota. Seu nome é Helena. Ela é uma das poucas coisas belas que eu conheço, e não o digo apenas no sentido de aparência física. A imagem dela representa uma redenção para toda a vida subterrânea que eu vivi neste mundo feio até hoje. Nós trocamos mensagens há menos de uma hora enquanto eu estava prestes a sair do trabalho. Sim, ela me alegra. A companhia dela é única, descobri outra dimensão da existência a partir de Helena.

 

    Já os humanos tentaram fugir do sofrimento por milênios, mas isso se deve ao fato de não entenderem que, enquanto estavam sofrendo, ao menos podiam se erguer num bom palco, justificados por um bom drama, que certamente tornaria seu sofrimento interessante. Aquilo que não é visto não existe nem merece existir, mas o que é menos visto do que o desinteressante? Portanto, minha vida e este lugar não existem de verdade -- não há um olho interessado o bastante para testemunhar nossa situação. Há uma história sendo escrita neste exato momento, e sequer estaremos documentados nela.

 

    Bem, eu pelo menos não fujo do sofrimento. Meu coração é intenso e frágil, sei bem que pode arrebentar a qualquer hora por causa de Helena. Mas faz parte, não faz? Devemos nos arriscar para atingir a liberdade. Mas o que é liberdade? Liberdade é sempre liberdade diante da morte, morte no sentido amplo. Tive que vencer inúmeros medos para me aproximar de Helena, porém meu maior medo é o de meu coração se quebrar eventualmente.

 

    Adoraria continuar pensando a respeito disso, mas estou parado diante da porta de minha casa: a caminhada acabou, não há mais espaço para divagar.

 

                        ATO I - Incipit Tragoedia

 

    Ok, preciso fazer um pequeno salto temporal. Que isso não o incomode, leitor. Vou pular diversos meses no tempo até o ponto em que me encontro hoje. Sim, muitos meses voaram desde então. Foram alguns dos tempos mais completos, torturantes, alegres e deprimidos de minha vida.

    Não posso deixar de comentar: Helena foi embora. Não vou explicar isso agora, seria uma impostura lançar luz sobre ela tão cedo, mas saiba que o fantasma dela assombra cada capítulo deste livro. Sua presença (ou ausência?) é absoluta.

    O problema é que você não me conhece o suficiente ainda, leitor, então você entenderá tudo sobre ela quando tivermos mais intimidade.

 

2. Aurora

 

      Also Sprach Zarathustra começa a tocar: é o meu despertador, é o começo de um novo amanhecer. Não o amanhecer de um santo, mas o meu amanhecer. Estou deitado de lado, minha bochecha está comprimida contra meu braço esquerdo. Meu levantar de manhã tem certo tom de heroísmo, um heroísmo trágico: acordar com o mesma certeza de que nada mudou, nada evoluí no dia anterior e que mais um dia me aguarda -- um dia carregado de novas possibilidades, mas eu continuo o mesmo. Estou sem camisa e vestindo uma calça negra, olho para o teto branco enquanto espero a neblina mental abaixar para que eu levante e comece meu dia. O crepúsculo mental de quem acaba de acordar é como um semissonho, nele os primeiros pensamentos do dia se embaralham com uma gama de emoções que se revolveram no seu íntimo durante a noite. E agora eu sou todo emoções, meu coração é todo saudades, é todo sentir-falta, é todo angústia e perda. Não raramente acordo em prantos. Minha cama na aurora é muitas vezes o meu caixão, onde me deito para lamentar meu próprio velório -- o tempo perdido, as pessoas que foram embora, a sensação de que nada mudou e que, até o fim de meus dias, não encontrarei a sonhada felicidade. Se é que existe alguma consistência existencial nos meus dias, é que todos eles são um eterno rolar-as-pedras, até que elas deslizem ladeira abaixo esperando ser empurradas novamente até o topo -- estou sempre tentando acumular novos conhecimentos, novas experiências e vivências ao longo do dia, na esperança de que enriqueçam meu ser e me sejam como ferramentas para utilizá-las no futuro, mas todo esse acúmulo resulta inútil, tudo o que promete preencher meu ser se revela prontamente como aquilo que é: matéria narcísica.

      Essas coisas me cansam, de modo que muitas vezes pego minha alma imersa em lassidão logo nos primeiros minutos da manhã.

      Executo os procedimentos de minha higiene pessoal, então é hora de decidir quais roupas vestir: no geral, todas as minhas roupas são negras. Valorizo roupas que transmitam uma certa estética alternativa à la post-punk inglês, também conto com algumas camisas de bandas de rock, mas hoje resolvi vestir uma camisa estampada com o rosto de Nietzsche. Creio que esse estilo consegue transmitir mais facilmente meus gostos pessoais e o quadro da minha personalidade para as pessoas em minha volta. Afinal de contas, quem não sonha em ser compreendido e verdadeiramente olhado por outras pessoas? Pus meu coturno, alguns colegas até comentaram que notam em mim um certo aumento de poder quando o coloco em meus pés.

      Poder, eu gosto dessa palavra, não é bem verdade que tudo o que existe é vontade de poder? Mas quem sabe exista algo além do poder, penso que o amor esteja além do poder.

 

3. Pais e Filhos

 

      É nos primeiros momentos da manhã que surge o meu primeiro dilema. Meu pai tem um carro e o usa como instrumento de trabalho, ele generosamente me oferece caronas para ir à faculdade, entretanto opto por pegar transporte público diversas vezes. Ir confortavelmente no carro de meu pai ou gastar dinheiro para ir em pé num ônibus? Logicamente a primeira opção é superior, porém não sou um humano lógico, meu coração determina maior parte de minhas ações. Vamos direto ao ponto: eu evito meus pais. Não os detesto tampouco tenho qualquer ressentimento contra eles. Eles são humanos bem amáveis e bem-dispostos comigo. Mas o que me move é uma rejeição interna à imagem deles. Em poucas coisas me identifico com eles. Vivi a vida toda com eles, embora tenha certeza de que nada eles sabem do que se passa em meu íntimo. Parentes e familiares afetam a autoimagem do indivíduo, porque eles são como uma paródia sua, como uma versão cômica que Deus criou só para fazer troça de você. O primeiro medo é o de se parecer com eles. Outra coisa é meu desejo infantil por liberdade -- cresci limitado às paredes de minha pequena casa graças a meus pais e a suas regras morais, então subconscientemente os associei a prisioneiros de meu espírito. Não pegar carona com meu pai é um pequeno passo rumo à liberdade, o sacrifício do conforto e bem-estar inclusive enriquece tal decisão.

 

4. No ônibus

     

      Creio que todo homem superior necessite provocar seus momentos de solidão e introspecção, e o transporte coletivo me parece um tanto propício para cultivar a modalidade de solidão mais sofisticada que existe: a solidão rodeada de muitas pessoas, como uma noite densa habitada por estrelas.

      Um doce sentimento melancólico toma meu coração assim que pego o ônibus, pois nesse momento estou conectado com a vida do trabalhador urbano, estou compartilhando com eles a primeira miséria do dia. O proletariado é uma figura trágica: rostos das diversas cores, pessoas dos diversos sexos, idades e estaturas espremidas como sardinhas e massificadas numa lata de ferro sobre rodas. Junto deles minha melancolia adquire um caráter social e menos fechada em mim mesmo, o que não é exatamente ruim. Quer dizer, o post-punk inglês também não transmitia a miséria da vida massificada e mecânica ao lado de uma profunda angústia subjetiva?

      Vendo as pessoas acabadas indo para seus empregos ruins, sinto-me mais jovem. Quando estou de pé segurando os ferros do ônibus e ostentando minha juventude para aquela turba, sinto-me superior: de repente, alguma coisa mudou, algum progresso fiz ao longo desses anos acumulando conhecimentos e experiências. Não sou como eles, eu sou a promessa de um futuro melhor. Sou até mesmo melhor que eles.

 

5. Ainda no ônibus

 

      Mas eu ainda não contei o resto da experiência no ônibus. Meu caminho para a universidade pode ser desnovelado em diversos aspectos, assim como todo pequeno fato do cotidiano. Aliás, não é essa a beleza narrativa da vida? Tudo é complexo, tem multiníveis e n-dimensões, especialmente os menores acontecimentos. Adquirindo um conhecimento novo hoje, você pode abrir seus olhos para um aspecto de sua realidade que até então não se tinha notado.

      Por muitas vezes gosto de ouvir boa música e ler um livro no transporte público. Ponho a mochila em minha barriga e apoio o livro nela: a mochila me confere uma sensação de aconchego e cobertura, o livro me oferece a sensação de estar conversando com um amigo querido. Sim, livros são grandes amigos, especialmente aquela obra que você leva para todo canto. As pessoas deveriam fazer mais isto: selecionar um único texto específico para ser lido em momentos do dia-a-dia que não deveriam ser de leitura, isso dá ao ato de ler uma certa transgressão, e a conexão com o amigo livro ganha um caráter mais intimista. Estamos todos desesperados por conexão com o outro e para sair de nosso narcisismo. Muitas vezes, nosso amigo impresso ou em formato digital é nossa melhor válvula de escape para sentir o sabor de um laço íntimo. Não existe nada mais íntimo do que abandonar suas ideias para mergulhar nas ideias de outro alguém. Não existe amor sem a vontade infinita de nadar para sempre na consciência do outro. A companhia de um livro -- ou de um alguém especial, seja como for -- dá a seu dia fragmentado uma unidade, pois, não importa quais pequenas contingências se abatam sobre você, o outro sempre estará lá o esperando, e você estará lá para compartilhar seu tempo com ele.

      O ônibus é como a jornada rumo à liberdade, o livro é a sonhada companhia que estará consigo durante os percalços de sua aventura. Confesso que às vezes me pergunto se não é a companhia o mais importante e não a jornada, mas quem ainda hoje tem coração para sentir isso?

 

6. Na universidade

     

      Enfim na universidade. Antes eu costumava a chegar sempre atrasado para as aulas, nunca confiei em pessoas dando aulas, acredito que a via do conhecimento seja quase sempre autodidata. Este costume mudou radicalmente quando conheci Helena, frequentemente sou o primeiro a chegar desde então, e hoje não é diferente. Meu amigo da vez é A Gaia Ciência, então fico sentado numa sala o lendo até que meus colegas apareçam e comecemos a socializar.

      No geral, as pessoas daqui são progressistas. A meu modo, posso ser considerado um conservador em minha vida privada. Prezo bastante pela ideia de família, mas às vezes me julgo meio patético para carregar valores tão nobres -- é como se eu estivesse tornando feia uma causa tão bela. Assim, o progressismo me incomoda profundamente, mas chega um momento na vida em que você tem que abrir mão de seu orgulho e se esforçar para enxergar humanos além de futilidades como opinião política. Esses colegas me consideram seu amigo de verdade, andamos juntos na maior parte do tempo. Eles conhecem mais ou menos meu posicionamento e aceitam-no, embora eu tenha que podar bastante minhas opiniões diante deles. Quando resolvi me aproximar deles há um pouco mais de um ano, foi um passo que eu dei para tentar sair de meu eu-narcísico e me aproximar da normalidade das massas.

      Chegam minhas primeiras colegas e um rapaz.

      -- "Ah, vocês viram o acidente na Brasil?"

      -- "Aposto que essa aí tem um caso com o professor"

      -- "Gente, o novo álbum da Taylor Swift..."

      Em regra, nossos assuntos eram banais e pequenos. Entrementes, eu fazia pequenos gracejos e gestos que arrancavam risadas de quase todos os presentes. Eu sou um palhaço, e as pessoas reconhecem isso.

      Alguns minutos se passam, então chega Helena. Ela costuma a conversar cordialmente comigo nesses momentos e parece se entreter com minhas pilhérias. Isso me surpreendeu de primeira, afinal pensei que ela estivesse decidida a nunca mais se aproximar de mim.

      Ela está de frente para mim, não fito seus olhos e nem lhe dirijo a palavra diretamente, então tudo o que eu falo é para todos os colegas ouvirem, mas no fundo eu sei que todas as minhas palavras são para ela. Se ao menos eu pudesse perguntar-lhe como ela está, como foi sua semana, o que ela tem feito... mas não, meu último gesto de amor foi decidir nunca mais incomodá-la. Qual não é minha felicidade quando ela interage comigo nessas pequenas conversas! Estar com ela ali, na minha frente, é um momento especial.

      Assim se dava até que a primeira aula começasse.

      E se eu revelasse que eu não gosto de nenhum dos assuntos banais? Se por um momento eu abaixasse a máscara de brincalhão, como estranhariam minha profunda melancolia. Mas não se tem coração no Brasil para isso, as pessoas esperam positividade sua o tempo todo, como se a vida não tivesse espaço para a miséria e o desajuste. Se todos ali me dissessem um simples "eu sou infeliz", isso me valeria muito mais do que as centenas de horas gastas conversando sobre futilidades.

      Torço pelo dia em que não precisarei mais me entreter e socializar com as massas. A solidão perfeita exige as companhias perfeitas: Guilherme, meu melhor amigo, é uma dessas companhias. Quis até a última gota de minha alma que Helena também a fosse.

           

 

7. Deus está morto

 

      Hoje é dia de fazer uma disciplina extracurricular inútil no contraturno. O professor da vez era uma figura excêntrica, um daqueles homens que usam ternos coloridos e gravatas estampadas. Ele tem o costume de passar textos e documentários para que respondamos a um questionário uma vez por semana, e eu tenho o costume de não fazer nada disso. Pelo contrário, dedico meu tempo em suas aulas para ler grandes filósofos. No geral, professores não se importam com o que os alunos fazem, considerando que somos adultos, mas este quer sentir que está construindo o conhecimento com os discentes, então constantemente tenta receber feedback da turma e provoca nossa participação.

      Sento-me no fundo da sala, enquanto à minha direita estão meus colegas habituais das manhãs e Helena à minha esquerda. Entra na sala uma mocinha com quem eu comecei a conversar há poucos dias. Seu nome é Clarice, uma jovem branca de baixa estatura e óculos de lentes fumê -- as pessoas a consideram a mulher com o corpo mais atraente de nosso período. Como sempre, só precisei de uma gracinha aqui, outra palhaçadinha ali e abrir o sorriso para ela ficar cativada.

      Ela caminha até mim com o corpo projetado para frente, sendo o gatilho de um abraço e uma pequena conversa até que ela se sentasse em minha frente.

      O excêntrico professor entra alguns momentos depois, ele se senta, apronta a mesa e dá um gole em um copinho de café. Tendo minha conversa com Clarice sido impedida neste momento, retiro de minha mochila um livro e começo a lê-lo.

      -- Você aí, fez a atividade que eu passei na semana passada? -- pergunta ele.

      -- Eu?

      -- Sim, você mesmo.

      -- Fiz.

      -- E qual sua opinião sobre o texto? Fale abertamente.

      -- Mas não li o texto.

      -- Ué, viu o documentário pelo menos?

      -- Também não.

      As risadas da turma sucedem minha fala, o professor se mostra indignado.

      -- Como diabos você fez a atividade então?

      -- É que meu grupo fez. Eles debateram e tudo, eu só te enviei a resposta.

      O professor se levanta pesarosamente e, ao suspirar, me diz:

      -- Pode me dizer por que você não viu nada que eu passei?

      -- Na sua aula passada eu estava lendo um livro -- mostro o texto que está em minha mão -- lembra? Acabou que eu fiquei lendo ele esse tempo todo.

      Agora as risadas dividiam espaço com olhares de espanto. Clarice virava seu rosto para mim com uma expressão de surpresa.

      -- Você vem para minha aula ficar lendo, não faz nenhuma atividade e não presta atenção. Acha bonito isso?

      -- Não -- respondo com ironia.

      O professor que perambulava pela sala enfim estacionou, era hora de fazer valer seus anos de magistério. Ele poderia virar o jogo e conseguir produzir algo a partir daquele atrito. O desafio foi aceito: ele precisava conquistar meu coração para aquela disciplina.

      -- E por que você prefere ler Aristóteles a ler meu conteúdo?

      Tomei um tempo para pensar e ensaiar uma resposta pudesse demonstrar minha desenvoltura retórica para os presentes.

      -- Bem, é difícil explicar. Estudo filosofia sozinho há anos, então continuo fazendo isso espontaneamente. Quanto ao que o senhor nos passou, não me interesso na disciplina. Só estou aqui para completar minhas horas pendentes.

      -- E por que se interessar mais em questões abstratas do que em temas que afetam seu cotidiano, jovem? -- ele não disse isso para que eu retrucasse, apenas usou como gancho para conectar a aula do dia com filosofia.

      Assim começou a operar um enorme solilóquio sobre o desenvolvimento do pensamento ocidental, até que chegou na crise da modernidade.

      -- Na transição da idade média para a modernidade e com a ascensão do positivismo... -- o professor escreve "Deus" na lousa -- um pensador importante surge. É Nietzsche. Você aí, rapaz que gosta de filosofia, sabe o que Nietzsche diz sobre Deus?

      Os olhares se voltam para mim, um leve sorriso se desenha em meu rosto. Digo-lhes:

      -- Deus está morto.

 

8. Clarice

 

      Demorou um bom tempo até que o docente terminasse a aula. Na saída, as pessoas vinham falar comigo e deixavam comentários expressando, de certo modo, admiração pela minha enorme cara de pau. Clarice saiu acompanhada de Helena. Ao me verem, nos cumprimentamos e a jovem de óculos fumê me entrega outro abraço.

      No dia seguinte, sentamo-nos eu, meus colegas, Helena, Clarice e outras pessoas -- falavam da discussão entre mim e o professor. Alguns censuravam minha conduta, mas Helena achava tudo aquilo bem engraçado, enquanto Clarice me dizia:

      -- Menino, e bem que a gente tinha falado sobre isso antes, né?

      -- Sim, é verdade -- e, dirigindo-me para todos, eu disse -- coincidentemente, eu e Clarice estávamos falando sobre a morte de Deus minutos antes de a aula começar.

      -- mano, cuidado que agora o professor vai ficar de olho em você -- disse um dos rapazes que estava conosco.

      -- Não, não me preocupo.

      -- Você tá comprando briga com o cara, isso sim. -- disse outra pessoa.

      -- E vocês pensam que eu provocariam cara que eu nem conheço? -- perguntei com certo sarcasmo.

      -- Sim, você provocaria sim. -- falou Helena com um sorrisinho apertando suas bochechas.

      Mas já era hora de a primeira aula do dia começar. Todos foram na frente, exceto Helena, que ficou para trás conversando comigo.

      -- vamos lá com eles, certo? -- convidei-a para ir embora com todos, eu não aguentava ficar a sós com ela.

      Ela me acompanhou e tivemos uma breve conversa sobre gatos, bebedouros e a falta de higiene no câmpus. Assisti à aula por alguns minutos, quando decidi tomar água e notei que tinha esquecido a garrafa em casa. Resolvi então ir para uma das cantinas comprar alguma bebida.

      O dia estava especialmente ensolarado, e o clima era ameno. Clarice estava do lado de fora também, ela não tinha ido para a sala conosco conforme eu tinha imaginado. Na verdade, estava com suas amigas, umas criaturinhas insuportáveis que sempre rodearam Helena. Eu não teria desviado meu caminho para ir falar com ela se ela não tivesse me acenado a uns trinta metros de distância, no meio de todas, para chamar minha atenção.

      -- e aí, tranquila? -- cumprimentamo-nos novamente com um abraço.

      -- Pensei que você tivesse ido para a aula.

      -- Só vim comprar uma bebida mesmo.

      As garotas estranharam um pouco, nunca tinham visto eu e Clarice juntos. Sucedeu-se uma pequena conversa entre nós todos, e arranquei risadas de todas. Ela aproveitou para contar-lhes o episódio do dia anterior em alguns minutos.

      -- Eu fiquei pensando bastante nas coisas que você me disse ontem. -- confessou-me Clarice.

      -- Sobre Deus?

      -- Não só isso, mas no sentido geral mesmo das coisas, sabe? Eu costumava a ser cristã, mas algumas coisas me afastaram mesmo, como a questão de não poder usar certas roupas para não "induzir homens ao pecado".

      -- Olha só, uma umbandista que foi cristã.

      -- E agora até a umbanda tem ficado difícil para mim. Quer dizer, é exigida de mim uma fé que eu não tenho, não consigo ter. É como se as coisas não tivessem tanto sentido, entende? Às vezes vejo bastante coisa de astronomia, e, cara, a gente é muito pequeno. Se outros universos existissem, será que nós existiríamos? É complicado.

      -- Quem sabe. Teve outros motivos para você largar o cristianismo?

      -- Sim... algo sempre me incomodou nessa religião: a falta de justiça. Deus nunca pune. Vê lá o Guilherme de Pádua, o cara matou a menina jovem, virou pastor e morreu com um infarto. Cadê a justiça? Não suporto pensar nisso.

      -- E por que a umbanda?

      -- Eu preciso disso, eu não quero viver uma vida vazia e sem sentido. Como você consegue? Eu quero que exista alguma coisa por que me mover, do contrário por que estamos aqui? -- ela respondeu com certo desespero.

       Era como se Clarice estivesse segurando um fio de corda para não despencar no abismo. Notando a intensidade da conversa, ela resolveu pisar no freio subitamente perguntando:    

      -- Já viu Interstellar? Tem uma parte que o cara se aproxima do horizonte de eventos e entra em contato com ele mesmo do passado. Fico me perguntando se não existem lugares no nosso universo assim também, com o tempo não sendo linear: sem passado, presente e futuro. Você é bem inteligente, deve saber bastante dessas coisas.

      -- Deve ser louco, me lembra até algo da filosofia.

      -- Mesmo?

      -- Mesmo.

      Um breve silêncio se impôs entre nós, eu não queria perder o assunto anterior para falar de filmes. Ao redor, as meninas já tinham se dispersado.

      -- Olha, Clarice, eu tenho algo a dizer sobre tudo isso que falamos...

      Sentada, Clarice estava completamente atenta ao que eu iria lhe falar, de pé e de costas para ela.

      -- Você entende o contexto histórico de Deus estar morto, entende até as origens filosóficas, mas é necessário ir além e sentir isso existencialmente. Clarice, a vida não tem sentido, nada tem. Estamos abandonados no universo. Somos animais que um dia inventaram o significado através da linguagem, mas parece que o significado morreu antes mesmo das palavras. Não existe justiça no universo porque ela foi construída por nós.

      Ela estava absorta em meu discurso, um tanto encantada.

      -- Passado, presente, futuro... -- prossegui -- Tudo é matéria, o universo está rolando os dados com a matéria limitada que existe. E tudo está fadado a se repetir. Eu e você já tivemos essa conversa infinitas vezes, e a teremos infinitas vezes mais. Não existe um propósito para nada disso, só existe uma ordem. A vida é uma ordem. Tudo o que existe está condenado a se repetir eternamente, nós estamos condenados a viver tudo isso sem nenhuma âncora, nenhum apoio para nossa angústia e ausência de significado. Justiça seria uma petição de igualdade, mas estamos mergulhados numa sopa de desequilíbrio de forças. Enquanto houver vida, vai haver opressão. Será como é e sempre foi, de novo e para sempre.

      Virei-me para ver seu rosto, ela estava atônita.

      -- Já deu a minha hora. Preciso mesmo ir comprar uma bebida.

 

9. O desprezo das massas

 

      É outro dia. Estou na universidade sentado na cantina com A Gaia Ciência em mãos, assim aguardo o tempo passar até que a próxima disciplina se inicie. Nietzsche, meu amigo que tem me acompanhado há anos. As pessoas não o entendem nem em coração, então não o podem compreender em pensamento. E quem ainda sente no peito o desprezo das massas?

      Em todas as instituições que eu noto, sempre há massas. As massas do ônibus, as massas da universidade, as massas das escolas, as massas das igrejas... iguais, todos iguais. Por algum tempo pensei que minha solidão narcísica pudesse encontrar seu remédio no calor das massas, mas logo aprendi uma coisa: as multidões são frias. A leva não pode oferecer acalento ao indivíduo. Vez ou outra me pego imerso de ódio contra as massas, especialmente porque elas são profanas -- não me interprete como um clérigo moralista ou algo assim, para mim profano é rebaixar algo de sua sacralidade, e o coletivo só pode tocar em algo quando este deixa de ser sagrado. As boas artes, o amor e os bons pensadores são sagrados, a horda nunca pode verdadeiramente tocá-los, então ela cria suas versões inferiores. Mozart é substituído por artes decadentes como o funk, trap e sertanejo; o amor cede lugar ao hedonismo e ao consumismo rápido de humanos; os bons pensadores são editados e absorvidos do jeito mais humanista possível para o gosto moderno. No entanto, evito me prender no ódio contra a turba e detenho-me somente no desprezo.

      Não se torna um indivíduo antimassas, nasce-se. Quem não tem o pathos do desprezo jamais o entenderá, tampouco quero ensiná-lo a alguém. Os grandes gênios da humanidade nasceram com isso, a solidão parece ser a tendência dos maiores humanos. Nietzsche, Goethe, Dostoiévski e Dazai foram solitários, eu sou solitário, talvez você o seja também, leitor. Dito isso, não quero santificar a solidão ou fingir que ela é melhor do que realmente é. A solidão pode levar ao narcisismo, o narcisismo é sempre ruim. Almas presas no narcisismo estão com frio o tempo todo. Faço votos para que encontremos o calor.

 

10. Maria Madalena da Universidade

 

      Alguém decide se sentar à minha esquerda, deito meu livro sobre a mesa e noto que é Clara, uma colega de curso. Ela é uma figura carimbada, uma das poucas conservadoras da faculdade, o que gera desconfiança nas outras pessoas. Conversamos algumas vezes, em especial sobre política. Eu não a detesto, mas não consigo lhe tecer tantos elogios. No geral, é uma moça pedante, proselitista e pouco doce.

       É inverno, então não está quente embora o sol esteja especialmente luminoso agora. A luz do sol contrasta com seus cabelos loiros e lhe dão um aspecto sublime. Ela me cumprimenta e prontamente abre seu notebook, diz algo sobre o quão atarefada está com o trabalho e outras chatices de universitários com síndrome de adultinhos maduros. Tivemos uma pequena conversa à la elevadores corporativos, o que é um grande exercício de simpatia para pessoas introvertidas como eu.

      Finda a pequena conversa, abro novamente A Gaia Ciência. Ela, que estava vidrada na tela do notebook, olha de canto e percebe que meu livro é de Nietzsche.

      -- "Nietzsche... esse homem era louco" -- diz com um pequeno riso de deboche 

      -- "É, era sim" -- respondi como quem não queria conversar sobre, e realmente não queria.

      Para meu conforto, o silêncio novamente se estabelece entre nós. Eu bem gosto de conversar com as pessoas sobre filosofia, mas eu não estava a fim de entrar numa dicussão acalorada. Noto que Helena está na mesa imediatamente ao lado da minha.

      -- "Me diz, você concorda com ele?" -- Clara retoma o assunto, mas desta vez continua concentrada na planilha idiota na qual ela estava mexendo esse tempo todo

      -- "Sim, posso dizer que concordo com absolutamente tudo."

      -- "Então você acredita que Deus não existe?"

      Ela me pegou, não saio por aí discutindo meu ateísmo, em especial com pessoas com que eu não desejo tanta proximidade. Curiosamente, já tive a mesma conversa com Helena algumas vezes nesta mesma cantina. Parece ser minha sina debater com mulheres em vez de ter um encontro normal, o que não deixa de ser engraçado.

      -- "Sou sim. E você é protestante, não é?" -- Tentei jogar a bola para ela, não queria me tornar o centro do assunto.

      -- "É claro... mas vem cá, por que você não acredita em Deus? Quer dizer, deve ser bem triste ser niilista."

      Meu estratagema não deu certo, ela voltou a falar sobre mim. Aliás, me incomodou ela ter associado Nietzsche ao niilismo, mas é um erro comum de quem nunca o leu.

      -- "hm, é uma resposta complicada, mas posso dizer que abandonei o cristianismo quando percebi que Deus nunca agiu em minha vida. O ateísmo veio posteriormente com o estudo da filosofia."

      -- "Como pode não enxergar Deus em tudo? Seu ateísmo foi influenciado por um homem que escrevia enquanto louco." -- era de fato uma falácia, porém eu não estava disposto a desfazê-la.

      -- "É, acho que sim... mas por que você é cristã?"

      Nessa hora eu percebo que estávamos chamando atenção, algumas pessoas prestavam atenção na expectativa de assistirem a um bom debate. A hipótese de Helena estar ouvindo me atravessou também.

      Clara então começou a me citar uma dezena de fatos sobre a história da igreja, mencionou as diversas seitas heréticas que se assemelhavam às minhas ideias, fez algumas alusões a C. S. Lewis e assim tomou curso um longo debate sobre fé. Ao fim do debate, as pessoas em volta nem disfarçavam mais que estavam ouvindo e assimilando cada palavra dita ali. Foi uma conversa chata e incômoda, não quis fazer nenhum ataque às crenças dela. Eu não sou o tipo de homem que rouba o deus dos outros, não quero impor minhas ideias a ninguém. Por seu turno, ela parecia bem disposta a me destruir a cada frase.

      Talvez eu estivesse ali enquanto um humano buscando conexão, enquanto ela estava como um predador ansiando por massacrar sua presa. Ela venceu.

      Quando eu tinha essas conversas com Helena, ela nunca tentava me vencer ou algo assim. Sinto saudades de ouvir seus pontos e ser escutado por ela. Se é que ela ouviu o debate, espero que tenha sido com certa nostalgia.

 

11. Beatriz

      Apanhei meu livro e levantei-me da mesa.

      -- mas já? Fique mais um pouco -- protestou Clara.

      -- não é nada, é só que deu meu tempo.

      -- a aula começa daqui a alguns minutos, nós ainda podemos...

      -- desculpe, eu realmente preciso ir.

      -- Bem, no final é tudo sobre escolher crer ou não crer, não é?

      -- E quem tem o poder de escolher alguma coisa, Clara?

      Assim me dirigi para a sala de aula. Era um lugar úmido num pavilhão velho e mal-iluminado da universidade, alguns alunos já estavam dispondo as cadeiras em formato de círculo, na maior moda freireana de círculos de cultura.

      No momento em que passei pela porta, vi uma série de rostos conhecidos dos mais variados períodos do curso. Dentre eles estava o de Beatriz, que logo recebeu meu olhar com um gentil sorriso e sinalizou para mim com um aceno efusivo. Beatriz era uma daquelas moças que realmente têm estima por você, a tal ponto que qualquer possibilidade romântica fora prontamente desbancada por uma amizade quase fraterna. De pele clara e cabelos loiros ondulados, era dramaticamente menor que eu, e estava dois períodos na minha frente. Ela adorava ser prestativa com os amigos, também gostava de joguinhos como Genshin Impact.

 

      -- Chegou cedo, filha -- disse eu cumprimentando-a e tomando lugar à sua esquerda.

      -- então, já pensou no que vamos fazer no seu aniversário?

      -- hm, mais ou menos, quero consultar o pessoal antes.

      -- amigo, é seu aniversário, vamos para onde você quiser.

      -- eu queria algo mais agitado, só que o perfil de vocês é, hm, meio...

      -- meio...?

      -- ...quadradinho, eu acho. Quer dizer, o pessoal é meio corporativo e tudo, não quero levar vocês pr'um lugar doidão.

      -- às vezes você pensa demais, sabia?

 

      Passados alguns minutos, o relógio marcou 13:00h, e a professora pontualmente chegou. O lero-lero da vez era sobre o histórico de formação de milícias no estado. Era uma daquelas aulas para que as pessoas só vão para bater a carga horária do curso, poucos alunos não abandonavam a sala após a professora computar nossa presença.

      Depois de quase uma hora, Beatriz me sussurrou:

      -- ei, vamos chamar o uber logo.

      Abaixei A Gaia Ciência, que eu tinha tornado a ler desde o início da aula, e respondi:

      -- vamos, não quero me atrasar. 

      A professora estava silente prestando atenção na apresentação de alguns alunos que debatiam o tema do dia. Clara, que se atrasara alguns minutos, criticava duramente as leis que podavam o poder de a polícia intervir severamente na situação. Ao levantar, aproximei-me do ouvido da professora e lhe disse:

      -- professora, preciso sair mais cedo hoje, tenho que fazer a prova da autoescola.

      -- certo.

      -- a senhora se importa de registrar nossa presença mesmo assim? Beatriz vem comigo.

      -- Não se preocupe, boa prova.

      Sinalizei para Beatriz, que logo deixou seu assento e me acompanhou.

      Não levou muito tempo até que chegássemos no local de prova. Beatriz ficaria me esperando até que eu terminasse a prova.

      -- mas faça com calma, ok? Não precisa ter pressa, vou ficar vendo algums roupas e maquiagens enquanto isso.

      -- eu tô sempre tranquilo.

      Sim, eu estava me sentindo seguro para a prova, não porque eu tivesse qualquer conhecimento sobre trânsito ou algo assim. Na verdade, eu nunca prestei atenção nem por um instante nas aulas da autoescola, eu passava o tempo todo lendo algo de meu interesse durante as lições. Meu trunfo era meu celular, eu iria usá-lo para consultar as respostas da prova.

      Durante a prova, minhas mãos começaram a suar em bicas e tremer levemente. A bem da verdade, sou mais frouxo do que gosto de aparentar. Esses pequenos desvios me deixam nervoso, não gosto de andar fora da linha. Mas não importava, a cola tinha sido um sucesso, fui aprovado com a pontuação máxima do exame.

      Na saída, Beatriz estava com duas sacolas de roupa. Havia itens como uma máscara de olho, uma capa amarela, um collant vermelho e uma camisa verde.

      -- como foi?

      -- Bem. Gabaritei a prova.

      -- pô, aí sim! Sua inteligência me impressiona -- ingenuamente disse Beatriz enquanto batia palmas.

      -- Então, já comprou o que queria?

      -- Preciso de cosméticos ainda, vamos lá, seja educado e me ajude a carregar estas bolsas.

 

12. Na loja de cosméticos

 

      Era um ambiente bastante iluminado, o chão era de mármore, e o lugar exalava um cheiro bem doce. Eu nunca tinha entrado numa loja de maquiagens antes, embora sempre tivesse tido curiosidade para saber como funciona.

      Beatriz estava agachada testando alguns pequenos pincéis no punho.

      -- Que é isso, Beatriz?

      -- é um corretivo, oras.

      -- serve para quê?

      -- é para camuflar algumas imperfeições e contornar o rosto.

      Passei os olhos pelas prateleiras e fui tomando nota mentalmente de cada um daqueles produtos, e sempre questionava a Beatriz a utilidade deles.

      -- e isso, Beatriz?

      -- isso é um selador, serve para manter a maquiagem no rosto por mais tempo.

      -- e aqueles ali? -- apontava para uma fileira de frascos cheios de líquidos padronizados por cores de pele.

      -- são bases, elas servem para uniformizar a pele. Mas, cá entre nós, por que você quer tanto saber essas coisas? Daqui a pouco você deve estar usando também.

      Feitas as compras, tomamos o caminho para o ponto de ônibus. Durante a caminhada, não pude deixar de lhe perguntar:

      -- Eu quero saber algo. Se você fosse presentear alguém com uns cosméticos, você teria comprado nessa loja? Quer dizer, os produtos dela são decentes?

      -- Bem, se eu recebesse esses cosméticos, teria ficado feliz. São de boa qualidade, não são vagabundos, não. Acho que agora estou começando a entender, você quer presentear alguma mulher, não quer?

      -- Não, não é isso -- acanhei-me um pouco -- você sabe que não.

      -- amigo -- tomou uma pausa para puxar o ar -- é sobre ela ainda?

      Retribuí com o silêncio, meu olhar se perdia no piso. Os pesnamentos assaltavam minha mente e paralisavam minhas respostas.

      -- mas não fica com essa cara -- disse Beatriz, com certa exultação me dando um tapa nas costas -- se você não estiver com pressa, vou te mostrar outras boas lojas, tá bom?

      A gentileza dela me resgatou, meu ânimo foi devolvido e saímos da rota original para irmos conhecer outras lojas de cosméticos mais.

      -- são para o halloween. -- disse Beatriz.

      -- ahn, o quê? -- indaguei um tanto perdido.

      -- as roupas que eu comprei. Já que você não me perguntou, vou usar elas no halloween. Vou de Robin, você deveria ir de Batman.

      É verdade, eu não tinha comentado nada sobre as roupas. Eu estava tão imerso em meus próprios assuntos que eu não me dispus a questionar o motivo daquelas peças tão estranhas.

 

13. A Ópera de Dionísio contra O Crucificado.

 

      Dentro do ônibus de volta para casa, tomei meu assento no banco da roda esquerda. Estava prestes a reabrir A Gaia Ciência quando senti uma vibração no bolso de minha calça: era Guilherme, melhor que qualquer livro, me mandando mensagem.

      -- E aí, mano, foi bem na prova?

      -- Lógico. Foi easy demais, todas as respostas estavam na internet.

      -- Divino.

      O suor de outrora já secara sobre a palma de minhas mãos, meus dedos deslizavam habilmente pela tela do aparelho.

      -- mano, como vai ser teu aniversário?

      -- sei lá, velho, faço a menor ideia. Tipo, eu nem tava querendo fazer nada, só decidi organizar porque meus colegas deram a sugestão.

      No instante que eu enviei a mensagem, um pregador protestante passou pela catraca do veículo. Seu objetivo era fazer uma breve pregação e angariar fundos dos passageiros para sua igreja. Ele vestia uma camisa social branca por dentro das calças pretas, sob o braço direito havia uma bíblia grande com capa de couro.

      -- Eles gostam de mim, sei disso. Tenho que ser recíproco, né? Se não fosse por isso, eu não iria comemorar nada.

      -- Você tem que fazer o que você quer. O que você quer de verdade?

      -- Eu gostaria de extravasar o abismo que estou vivendo, mas com certeza eles iriam se assustar e não iriam gostar. Eu queria fazer algo bem doidão.

      -- Uma orgia dionisíaca.

      Nesse momento, o pastor, suado, anuncia sua pregação. A voz do pastor e as mensagens de Guilherme se cruzavam em minha cabeça.

 

      PASTOR:

            Meus pequenos amados em Cristo irmãos.

            Tende tempo para a palavra de Deus

            E doações que venham a minhas mãos?

 

      GUILHERME:

            Não se preocupe, meu amigo

            Você mesmo me fez aprender

            Que absolutamente tudo aquilo

            Que existe, merece perecer.

 

      PASTOR:

            Sede vós com os outros amáveis

            É o principal mandamento

            Torna as coisas mais fáceis

            E evita o eterno tormento.

 

      GUILHERME:

            Toda firmeza de caráter irá ceder

            Às primeiras tentações da carne

            Como noite diante do alvorecer   

            Portanto, da orgia toma parte.

 

            Irmão, faze-os conhecer a tua dor

            Que o álcool encha suas bocas

            Que os corpos se agitem em calor

            Enche de gozo suas almas ocas

 

      PASTOR:

            Negai a voz do diabo, o tentador

            Sede vós maiores que vossa corrupta vontade

            É pior conhecer do inferno o calor

            Do que no céu entrar vossa alma pela metade

 

      GUILHERME:

            Seus colegas atuais são folhas de verão

            Você os conquistou, é verdade

            Mas, quando vier o outono, eles sumirão

            Portanto, imponha sua vontade.

     

            O conflito da Vontade de poder contra o amor

            Da vida vivemos só uma parte

            Vive melhor quem aceita seu demônio interior

            Faça da vida uma obra de arte.

 

      PASTOR:

 

            Para o jovem, criança ou senhora

            Aceitem Jesus enquanto há tempo

            Pois a morte vem a qualquer hora

            A vida é poeira soprada ao vento

           

      GUILHERME:

           

            Abandona a melancolia e a depressão

            Teu isolamento me dá o indício,

            Em uma miserável e mesquinha visão,

            De que flertaste com suicídio.

 

            Helena, uma Julieta que deixou Romeu

            Em mim nunca houve engano

            Foi o egoísmo dela, assim penso eu

            Que provocou teu abandono

 

            A ideia de você tirar a própria vida --

            Tal imagem me assombra de verdade

            Sua solidão testemunha sua descida.

           

      PASTOR:

            Fazei vós também obras de caridade

            É por seu dinheiro que anseio

            Para aos trabalhos dar continuidade          

            Só saio daqui de bolso cheio

 

      Assim o pastor pega uns trocados e vai-se embora. Essa ópera bagunçou minha cabeça, sinto-me atordoado. O ônibus chega em meu ponto, então me levanto e puxo a corda de apito do ônibus. Droga, o que fazer? Nada importa, não há mais tempo para lamentos. Passei semanas chorando amargamente de raiva e saudades. Já estou no inferno, eu devo ir até o fim dele.

 

14. Em casa

      Estou sentado na poltrona da sala, preciso planejar meu aniversário. O mais seguro é reunir todos os colegas numa pizzaria, nada alucinante acontece nesses lugares, e as pessoas se sentem mais aclimatadas como se estivessem em família, mas eu ainda posso arriscar. Todos os aniversários que comemorei até hoje foram um fracasso -- sempre punha neles a expectativa de ser o meu dia, de a minha vontade ser feita e ficar demonstrado que, por pelo menos num dia do ano, eu era incondicionalmente amado; entretanto, as coisas nunca se sucederam de tal modo. Os convidados sempre costumavam a atropelar minha vontade e a fazer do meu dia um banquete no qual minha alma era o prato principal.

      E um bar? Nesse lugar eu poderia levar as pessoas para o meu mundo. Todos estariam atordoados pela música alta, completamente embriagados e com a visão obscurecida pela baixa luminosidade do local. Por uma vez na vida, os convidados seriam os pratos de minha ceia, eu e Guilherme seríamos como Dionísio ante as bacantes. Só que isso seria arriscado, os convidados poderiam se espantar e me abandonar no meu dia.

      E se eu consultasse a opinião dos convidados? Poderíamos acertar o local, mas seria uma demonstração pessoal de abaixar a cabeça, o que me traz desonra. Não, que seja, não vai ferir minha dignidade consultá-los -- afinal de contas, foram eles que me sugeriram reiteradas vezes que eu marcasse algo com eles. Num grupo online, mando uma mensagem.

      -- Galera, tô pensando em fazer algo na pizzaria, quem sabe passar num barzinho próximo depois. Ocorrerá à noite.

      Uma longa discussão se desdobrou. Por um lado, alguns colegas queriam ir à tarde, outros queriam que fosse apenas na pizzaria, outros queriam o bar. Pressenti o terror de ver minha vontade ser menosprezada novamente, após anos sem comemorar meu aniversário. Um rapaz até insinuou que não iria porque queria ver um reles jogo de futebol.

      É Beatriz quem manda uma sequência de mensagens pondo fim à discussão:

      -- A festa é não é nossa, é ele quem decide; meu amigo, o que você quer fazer de verdade?

      Não pude deixar de me sentir espantado ao ver que alguém, sem que eu precisasse lutar, me colocando em primeiro lugar. A essa altura, eu estava resoluto em levar todos ao bar, mas a doçura de Beatriz balançou minha escolha. O amor fraternal de Beatriz conteve parte de meu espírito marcial e dionisíaco. 

      -- Vamos para os dois. Primeiro comeremos na pizzaria, então ficaremos até de madrugada num bar próximo, o "Diretório". -- decidi enfim.

 

                  ATO II - Que as festas dionisíacas comecem!

 

      Você já quer saber sobre a história de Helena? É verdade que você já conhece bastante meus pensamentos e temos certa intimidade. Mas não, ainda não é hora. Você vai descer para o inferno comigo. Chega de reflexões, vamos à destruição.

 

XX. Revolução Francesa

 

      A lâmpada giratória projetava cristais multicoloridos nas paredes pretas. Eu tomava um copo vermelho de plástico das mãos de uma mulher raquítica: adeus, enjoada, estou mandando mais uma dose para dentro. Está difícil me manter equilibrado, sinto um forte gosto de fumaça na boca, e minha camisa social branca está parte dentro da calça, parte fora dela.

      A moça de quem eu pegava a bebida estava fantasiada de Maria Antonieta, mas era minha cabeça estava fora do lugar naquela noite. Seu rosto tingido por uma maquiagem pálida assumia contornos estranhos e era rabiscado pelas luzes projetadas do alto.

      Um bobo da corte carmesim, sujeito alto e esguio, me fitava e gargalhava. Seu rosto era sombrio e seus olhos pareciam emitir uma luz vermelha. As paredes se ampliavam mais.

      -- Seu nome?

      -- Que te interessa meu nome? Eu sou deus.

      Sentia que estava virando uma curva a cento e vinte por hora, um rapaz vestido de caipira e de sorriso gentil mexia no telefone ao meu lado, e aquele maldito bufão não parava de rir. A batida da música crescia, parecia que eu já tinha escutado umas cem músicas diferentes enquanto virava a curva. Na verdade, estava afundando no sofá, e a rainha da França estava com a cabeça no chão. Os aristocratas para os postes, os aristocratas que enforcaremos. O som da festa entrou em seu clímax, era hora de levantar e inquirir aquele palhaço folgazão.

      -- Bobo imbecil, do que está rindo?

      -- Você não é deus, por acaso?

      -- Besteira, vamos fazer revolução. -- apertei bem os olhos, um feixe azul me cegara.

      -- Não vê que Maria Antonieta já perdeu a cabeça?!

      O miserável não entendia mesmo, penso que aquelas roupas rubras serviriam mais em mim do que nele. Meu estômago começava a se revirar, minha boca se ensopava de água. Cobri os lábios com a mão direita, mas logo a barragem cedeu diante da correnteza de vômito que corria como um tsunami em minha boca.

      -- Doente, vê só o que fizeste com meu traje!

      Eu tinha que sair dali, não é bom irritar bobos da corte por aí. Que belas paredes essas, sim. As pessoas carregavam Maria Antonieta enquanto meu adversário ralhava comigo. No sofá, prontamente encaixei meus fones intra-auriculares nas orelhas -- não precisava de mais nada além de Jigsaw Falling Into Place. O rapaz com roupas de caipira tinha me ajudado a destravar meu celular. A esse ponto, minha camisa já estava encharcada por uma mistura ácida e quente de álcool com outras porcarias no meio.

      Minha boca estava escancarada, meu olhar distante se perdia nas figuras projetadas nas paredes.

      -- Meu amigo, eu não devia estar aqui, isso é um erro.

      -- Relaxa aí, rapaz -- tranquilizava-me o gentil caipira.

      -- Me escuta, eu acho que vou ligar para ela. Eu deveria estar em call com ela agora, talvez jogando um jogo. Nós gostamos muito de jogos indies.

      -- Você está mal.

      Os versos "she looks back, you look back" me ancoravam em doces memórias.

      -- Quer dizer, ela gosta mais do que eu. Eu não gosto de jogos eletrônicos.

      Novamente um raio de luz da lâmpada giratória me cortava as vistas, meus olhos estavam vidrados naquele globo tão epilético.

      O bobo estava de volta, dessa vez eu podia ver melhor seu rosto. Era um homem de pele clara, queixo curto e boca larga. Ele dizia:

      -- Muito bem, a festa acabou. Saiam depressa.

      -- Me deixa aqui, bufão.

      -- Não entendeu? -- ele me agarra pelo colarinho da camisa.

      -- Meus fones... você fez meus fones caírem.

      -- Tome seus fones -- ele os enrolava com presteza e os enfiava em meu bolso -- suma!

      Quando acordei, notei que estava na casa de Beatriz, deitado em seu sofá e coberto com uma manta verde. Notei que eu vestia uma camisa com estampa feminina. Peguei meu celular para ver as horas, era quase meio-dia, Jigsaw Falling Into Place continuava sendo tocada.

 

XX. São João

 

      Confesso que não estava caracterizado para a festa de São João, pus um boné branco, roupas negras e um tênis sem marca. Fiquei por um tempo passeando pela paróquia e conhecendo cada barraquinha. A primeira que me chamou a atenção era uma que vendia caipirinha. Outra vendia petiscos bem gordurosos, e a fila para o milho estava lotada. Não havia nada como uma barraca do beijo, talvez esse costume esteja longe dos padrões éticos, ou mesmo higiênicos, de hoje em dia. Atrás das barracas, havia um enorme espaço circulado por algumas mesas. Os fiéis se acomodavam nelas para aguardar a dança que ocorreria em breve. Havia diversas crianças correndo, e seus pais reclamavam para que se comportassem.

      Álcool, é isso o que falta para essa festa valer a pena. Pedi três caipirinhas fortes. No último copo, até o cheiro da bebida me causava náuseas. Vi diversos casais passeando de mãos dadas, e o que mais me chamou atenção foi o de dois jovens. A garota, que não devia ter mais que dezenove anos, estava caracterizada de noiva, e o rapaz contava com uma camisa xadrez e um bigode postiço. Ela tomava seu par pela mão e o apressava.

      -- "Depressa, a quadrilha já vai começar!"

      Ele, que segurava uma lata de cerveja na mão, quase derramou o líquido no vestido da noiva quando algumas crianças esbarraram nele. Minha vista se embaralhou naquela hora, a caipirinha estava fazendo seu efeito.

      Não demoro até puxar alguns cigarros do bolso. Eram cigarros artesanais de tabaco puro, bem melhores do que porcarias industrializadas.

      Os casais, as crianças e até mesmo alguns idosos estavam se dirigindo ao espaço onde ocorreria a quadrilha. Quando notei, havia uma fogueira acesa ali. O fumo derrubou minha pressão, eu tinha vontade de sentar no chão e descansar por mil anos.

      Os participantes fechavam um círculo em volta da fogueira. As chamas crepitavam quando a brasa se desprendia da lenha, até que alguns instrumentistas iniciaram uma levada de sanfona com batidas intercaladas num triângulo. As pessoas deram as mãos para fechar uma roda em volta da fogueira, então começaram a girar de acordo com a velocidade da música. Todos se divertiam bastante e não escondiam a alegria de estar ali. Aquela conexão humana tão cálida, mas tão simples e até mesmo ridícula abrandava meu humor. Após algumas voltas, desfizeram o círculo e cada um tomou seu par.

      Lá estava a garota fantasiada de noiva com seu parceiro, reconheci nele certa inexperiência para dançar, mas ela não parecia se importar com isso, e às vezes pisava nos pés dele. Tive a impressão de que as chamas da fogueira estavam se intensificando um pouco. Mas isso não importava para o casal, havia neles uma expressão de realização que só se atinge quando a felicidade é compartilhada com alguém. Não pude conter em mim um sorriso bobo.

      Debruçado sobre a barraca, contemplando aquela cena, dei mais uma tragada no cigarro. Olhando para a fogueira novamente, vi que ela estava com um tamanho enorme, muito além do normal. A música estava se dessaranjando. Achei aquilo estranho e resolvi comentar com o vendedor de caipirinha. Por mais que eu falasse com ele, ele não me respondia, apenas ria. Ele ria cada vez mais, quando me disse:

      -- "Que tal mais um copo?"

      -- "Não, já bebi o suficiente por hoje. Aí, você não me ouviu? O que está acontecendo aqui?"

      A música estava completamente corrompida. Já não havia nenhuma nota, apenas batidas frenéticas de percussões. Os participantes já não eram mais pessoas felizes, mas sim bruxas nuas soltando gargalhadas estridentes. O medo me paralisou completamente. Ao voltar minha atenção para o vendedor, seu semblante era como o de um demônio.

      -- "Que diabos é isso?" -- disse a ele gaguejando.

      -- "É tempo, é mais que tempo." -- respondeu-me ele

      -- "Tempo de quê?" -- perguntei em vão.     

      Eu não conseguia me mexer, mas minha vontade era de sair correndo. Algumas bruxas se lançavam na fogueira. Uma delas gritou:

      -- "Saturno, senhor do tempo, vem devorar seus filhos!"

      O vendedor com cara de diabo então me falou:

      -- "Você não vai escapar. Ninguém nunca vai escapar. Já chegou seu tempo."

      Comecei a chorar como uma criança, fiquei completamente desesperado e amedrontado.

      -- "Por que você não desaparece logo? Que direito você tem de ter a mesma felicidade dos outros? Você ainda não entendeu, é tempo, é mais que tempo."

      Senti meu corpo balançar, o vendedor estava com as mãos em meu ombro e seu rosto voltou a ser o de um humano. Ele me disse:

      -- "Tá tudo bem? Você tá aí parado há um tempão. Que coisa estranha."

      A fogueira estava normal, a quadrilha chegava ao fim e três copos vazios se empilhavam em minha frente. Eu não sabia como reagir, fiquei atônito e saí disparado sem dizer uma palavra.

 

                  ATO III - A história de Helena

      Oh, eu preciso cumprir a promessa que lhe fiz no primeiro ato. As festas foram intensas, não foram? Pois eu fiquei devastado.

      Você finalmente vai saber como tudo começou e quem é Helena, o fantasma precisa ganhar corpo. Vamos recuar diversos meses antes de tudo o que ocorreu até agora. E, se por um momento você se comover, saberei que não estou sozinho neste mundo.

 

XX. O Gatsby

 

XX. A conversa a sós

      Eu precisava me aproximar dela de algum jeito, mas como? Eu podia continuar interagindo com ela enquanto ela estivesse entre minhas amigas, mas isso não criaria nenhum vínculo específico. Mas o medo de abordá-la individualmente me paralisava. Ela poderia ser grossa, poderia agir de modo cínico. E se ela me rejeitasse? Isso sim seria motivo de vergonha, todos poderiam descobrir tal opróbrio. Não, eu não podia ser covarde. Eu já não lhes disse que liberdade é liberdade diante da morte? Era hora da ação, portanto.

      Naquele dia eu decidi: devo falar com Helena a sós. Uma longa conversa individual poderia ser o gatilho para criar conexão maior. A primeira aula acabara há pouco, estávamos esperando a prova do dia começar. Helena dirigiu-se para fora da sala com um copo na mão, seu destino era o bebedouro que ficava no mesmo corredor que a sala. Aquela era minha oportunidade, eu só precisava me levantar da cadeira e seguir a mesma direção para

nos encontrarmos em algum momento.

      Em minha mente, as inúmeras leituras sobre heroísmo contrastavam com minha covardia pessoal. É difícil ir falar com uma mulher quando você tem sentimentos por ela, porque você começa a nervoso e com medo de suar, gaguejar e tudo.

      Venci o medo: abandonei meu assento, peguei meu copo e fui atrás dela. Ela havia deixado seu copo em cima do bebedouro para ir ao banheiro. Foi em sua saída do banheiro que eu a encontrei. Nossos olhos se cruzaram, não tive muito tempo para pensar e rapidamente lhe disse:

      - e aí, preparada para a prova?

      Ao que ela me respondeu

      - acho que sim, não falta mais nada para estudar, mas a professora pesa a mão, não é?

      - hm, é... Só que, sabe, acho que eu fiquei de estudar a parte de Letra de Câmbio.

      Até aquele momento, eu nunca tinha notado quão pequena ela era perto de mim. Começamos a abastecer nossos copos.

      - não precisa se preocupar com essa parte, vai ser o tema só da segunda prova

ainda. -- ela disse, me tirando o peso da falta de ideias de assunto na qual prontamente me encontrei.

      - então vai ser só nota promissória, duplicata e cheque, né? - adicionei o cheque estrategicamente, eu sabia que não iria cair na prova.

      -hm, não, cheque não.

      Abastecidos os copos, saí do bebedouro e me apoiei nas grades. Ela fez o mesmo,

num gesto de quem iria permanecer para conversar. Eu consegui a almejada conversa a sós, sim, esta é uma pequena vitória.

      Passamos por um tempo falando sobre o curso, até que o assunto fluiu para gostos

pessoais.

      - armas, eu tenho interesse por armas. Quer dizer, já atirei com uma e tudo. -- disse eu, prontamente me arrependendo. Ese ela pensasse que eu sou um perigo?

      - Armas? Hm, minha família tem uma em casa. Quer dizer, é de chumbinho, e a gente usa para matar pombos. – ela sorriu no momento, estava achando a conversa engraçada.

      - ah, mas eu nunca atirei em animal não -- disse eu em tom de censura -- e por que

vocês têm isso em casa?

      - é do meu pai. – quando ela disse isso, notei que seus olhos se embaralhavam um

pouco.

      – seu pai é policial, é?

      - Bem, ele trabalha em algo a ver com segurança, não sei exatamente no quê. -- mentiu ela. Que tipo de filho não sabe onde o pai trabalha?

      Nesse momento, nossa conversa é interrompida por uma amiga dela. Sua amiga brevemente trocou palavras conosco e convidou Helena para retirar-se com ela, ao que Helena educadamente recusou.

      Isso me deixou contente, Helena não abandonou minha companhia para ir com a amiga.

      - bem, eu gosto de algumas músicas - também. -– disse Helena, seu rosto estava radiante.

      - Quais gêneros, tipos de música e tal você mais gosta de ouvir? - então estiquei minha coluna nas grades a fim de ostentar minha altura, quem sabe isso a impressionasse.

      Ali eu descobri que ela só ouvia gospel, о que me deixou um tanto impressionado. Eu tomava nota mental de cada pequeno detalhe, pois poderia utilizá-los como ganchos em futuras conversas. E assim prosseguiu nosso diálogo até que a prova iniciasse.

      Neste dia, eu saí vitorioso. Triunfei sobre o medo, consegui um retorno positivo. Meu coração se aquecia cada vez mais na companhia dela, e eu deveria conseguir mais conversas assim.

 

XX. Rei de Thule

 

      No sonho, uma torre negra se erguia no centro de um vale na ilha lendária de Thule. Nele havia muitos escravos construindo um cálice de ouro gigante em frente à torre. Todos os dias despencava uma tempestade que assolava os trabalhadores, os raios acertavam suas cabeças e a chuva os adoecia. Eu expedia as mais diversas ordens de cima da torre.

      - fogo! - e assim prisioneiros na masmorra eram executados.

      - sede vós uma só carne! - e assim unia casais ao meu bel prazer.

      Eu tinha a chave da morte e da geração de vida.

      - queimem os quadros! É hora de revivermos a arte superior.

      Os trabalhos prosseguiam incessantes, o cálice precisava ser erguido a qualquer custo. Certa vez, durante uma crise geral de fome durante dureza do inverno, disse-me um oficial:

      - majestade, os escravos estão cada vez mais improdutivos devido à escassez de

alimentos. Inúmeros estão morrendo, nossa produção está despencando.

      - Alimentemo-los já, por favor - dizia Guilherme, meu conselheiro real.

      - sem mais suprimentos! - ordenei.

      A corte real não entendia por que eu não alimentava a massa de escravos e por que gastar tantos recursos num cálice. Quer dizer, isso seria danoso para o Estado longo prazo, nosso reino iria à falência nesse ritmo. Debatiam-se muito os motivos para tal, entretanto não encontravam respostas.

      Nos mercados, a escumalha lamentava minha ascensão. Desde que eu e minha aristocracia entramos no poder, a infelicidade geral se tornou a regra em

nome da felicidade dos poucos. A boca do cálice estava quase completa, e a água da chuva o preenchia. Alguns corpos caíam no cálice, que adquiria um líquido avermelhado de sangue misturado com água de chuva e lágrimas dos escravos.

      Com o passar o tempo, as massas foram assoladas pela fome e tivemos uma perda

econômica avassaladora - até mesmo meus aristocratas estavam insatisfeitos com a situação.

Não durou muito até que eles operassem um golpe de Estado. Guilherme ascenderia ao meu trono. "É o mais sensato" -- concordavam os aristocratas revolucionários.

      Os rebeldes montaram um tribunal de exceção e me julgaram publicamente. O

povo famélico e oprimido se agitava e se manifestava contra mim em meio à tempestade.

      - tirano! Maldito tirano!

      - perdi meus pais, meu filho está com fome! É culpa desse desgraçado.

      - retirem o corpo de meus pais do fundo do cálice!

      Eu me calava, meus lábios ensaiavam um sorriso cínico. Estava claro que eu seria

condenado à pena capital.

      - mas nós ainda não entendemos, por que você executou tantas pessoas, privou

seus trabalhadores de alimento, abandonou-os na dureza do inverno, escravizou uma nação inteira?... -- perguntou-me o juiz

      - e tudo isso a troco de nada. Na verdade, até mesmo às custas de nosso bem-estar -

diziam os aristocratas revoltosos.

      Guilherme me questionava acerca do cálice de ouro.

      Calei-me por um tempo, fechei os olhos, meditei brevemente.

      - como não entenderam? - indaguei - será possível que ainda não aprenderam

que tudo o que existe merece perecer?

      Todos me olharam com espanto, e as nuvens negras despejavam raios no topo da torre.

      - Seria melhor que nada mais existisse! - prossegui - não veem que eu sou o rei de Thule que de sua amada não recebeu o cálice? O mundo pagou por isso. Que seja vossa destruição a expiação pela minha dor!

      Todos se horrorizaram. Nunca foi minha finalidade cuidar do Estado, apenas vingar meu sofrimento. Thule virou um moedor de carne em meu reinado, eu nunca me importei com outra coisa que não fosse destruir o que então existia e retribuir a dor de nunca ter recebido um cálice de ouro das mãos de Helena.

 

      Enforcaram-me na manhã seguinte, enfim a tempestade cessou.

 

                  ATO IV - Destroços

 

XX. O inventário de um homem

 

      Na minha gaveta há uma cópia de Fausto, Assim Falou Zaratustra, Os Sofrimentos do Jovem Werther e O Declínio de um Homem. Não há espaço para a Bíblia.

      Na minha playlist, Radiohead, Joy Division e Os Mutantes. Há também o bom e velho Mozart, que coroou um dos momentos mais delicados e humanos de minha vida.

      Com raiva e saudades chorei amargamente. 

 

XX. Miséria em casa

 

      -- Você precisa comer, você só quer ficar trancado no quarto o tempo todo!

      Era assim que minha mãe protestava contra mim.

      -- Não quero comer nada. Estou de saco cheio já, não suporto mais. Comida, comida, só sabe falar disso! Não estou passando fome, não preciso comer.

      -- Desse jeito vai ficar pior ainda! O que houve com você, garoto?

      -- Os estudos, mãe, os estudos me estressam. Tudo aqui me estressa. A cidade nojenta, as pessoas frias, a monotonia. Não aguento, não aguento.

      -- Vou te levar no médico desse jeito!

      -- Também não aguento mais ouvir reclamações. Por favor, me deixa quieto.

 

XX. E agora, José?

 

      Eu me lancei ao mundo com todo atrevimento possível. Minhas mãos tremeram, minha voz falhou, por muitas vezes meus olhos se encheram de lágrimas. Em meu coração, um aperto nunca antes sentido.

      Quantos conselhos já não me deram antes para que fosse sempre ponderado e colocasse a mim mesmo acima de tudo? Eu sempre quis ser perfeito, tirar as melhores notas, ser visto como alguém brilhante e triunfante. Para me apaixonar por Helena, tive que me livrar de tudo isso, toda essa capa fútil de vaidades. Toda essa dor sempre andou de mãos dadas com um raio de sol que se abria quando eu estava com ela. Por alguns momentos, eu vislumbrei o que era a felicidade genuína: ignorar meu eu para mergulhar no outro.

      Mas eu fracassei profundamente, fui destruído até que sobrassem apenas destroços.

 

XX. O tordo

 

      Estava de bruços na cama quando ouvi um pedido de socorro -- era um piado desesperado. Meu cansaço ofereceu certa resistência, mas lutei para caminhar até o barulho. Em meu quintal caíra um pequeno pássaro. Tomei-o nas mãos e identifiquei um frágil filhote de tordo. Ofegante, ele se contorcia dolorosamente.

      -- Não, não, isso não vai acontecer. Você vai ficar bem, você precisa ficar bem.

      Mas o filhote não parecia melhorar, eu sentia suas penas caindo em minhas mãos durante seu movimento agitado. Tentei pô-lo de pé, mas ele mal conseguia se equilibrar. Após algumas tentativas, ele se apoiou nas duas asas e assim ficou enquanto lutava para respirar. Só aí que eu notei que sua asinha direita estava quebrada.

      Abri mais ainda os dedos das mãos, de modo que elas ficassem completamente planas. Era a base para que o pássaro ensaisasse um voo e voltasse para seu ninho. Ele, ferido e amedrontado, bateu as asas e operou um impulso que o fez voar. O voo não durou nada, entretanto. Tão logo ele decolou, despencou no duro chão de concreto. Desta vez, o inocente tordo não sobreviveu.

       Certamente o pássaro, cansado da vida monótona e encacerada no ninho, havia tentado se libertar e, pela primeira vez, viver de verdade -- os planos da natureza eram outros, no entanto. O mundo resolveu puni-lo por sua ousadia. Com a alma desejando plenitude e a asa arrebentada, foi morto por este mundo vil.

      Ajoelhei-me perante seu corpo morto e chorei copiosamente, eu havia desmoronado.

 

XX. As Lágrimas do Rei de Thule

 

      Diante de toda profusão de sentimentos, aquele que prevalece é o da saudade. Eu nasci para ser quebrado por ela.

      Um sonho de criança - o amor à liberdade, não a liberdade que se confunde com a solidão, mas a liberdade de encontrar seu lugar. Não mais um sonho, porém -- agora, uma reminiscência cheia de ressentimento.

      A perda, a perda da pessoa amada. Aquela doçura, aquele raio de sol -- não mais iluminará o campo. Fora, fora, vela breve: resta escuridão!

      Deus, Deus, se no mais alto céu reinais sobre vossos filhos, por que não vos comovem minhas lágrimas? Sou vosso Adão mais completo, tenho memórias de um Éden onde jamais habitei. Pai, sou vosso Adão superior, e o Senhor permitiu que minha Eva me abandonasse. Senhor, o fogo de Prometeu incendeia meu peito, por que deixastes que a chama do Olimpo abrasasse meu peito? Pai, sou vosso filho mais frágil. Tende misericórdia! 

      Helena, Helena! Que nunca minha dor aperte seu peito, que seus dias sejam repletos de leveza, que o Altíssimo a quem tanto amas lhe conceda vida eterna.

 

XX. Carta para Guilherme

 

      É ruim não ter mais a companhia de Helena, especialmente nas noites de sábado -- nós passávamos a noite toda conversando nesses momentos. Para sempre vou guardar com gratidão essas lembranças, elas são a coroa de minha vida.

      Guilherme, você se assustou com minha condição. Você elencou minhas conquistas ao longo da vida, meus talentos e minhas capacidades, como se elas fossem o fundamento de minha existência. Meu irmão, aquilo que é exclusivamente nosso é pó. Sem o outro, estamos sempre rodando atrás de nossas caudas.

      Conforta-me ouvir de você que o sol sempre vai brilhar e que, quando a lua rouba seu lugar ou as nuvens o encobrem, é a hora certa de encontrarmos a luz do astro-rei em nosso profundo ser. Mas, Guilherme, não é a lua mais real que o sol? Antes de o universo existir, tudo era trevas. Da noite primordial, surgiu uma pequena perturbação chamada vida.

      A vida, essa síntese entre o que é e o que não é, nunca vai descansar, nunca vai parar de doer. E nossos corações não irão parar de bater. O que é mais humano do que aceitar isso?

      Mas chega de divagações, devo lhe contar que estou estudando para o concurso, também estou finalizando a autoescola e pretendo entrar na Procuradoria ano que vem. Sinto que necessito fazer mais atividades físicas também, sua sugestão de que eu deveria frequentar a academia é boa. Quer dizer, podemos acordar cedo e ir juntos, não é?

 

XX. Carta para Beatriz

     

      Você me disse que eu não precisava atrelar minha identidade ao amor intenso e não correspondido por Helena. Tenho medo, Beatriz, de que essa tenha sido a única coisa realmente importante em minha vida. Sem isso, eu sou mais um humano ordinário -- com alguns dons, mas supérfluo -- só que você me deixou bastante pensativo.

      Ó Céus, mas será que realmente vale a pena não aceitar ser alguém comum? Às vezes me pergunto se tudo o que fiz até hoje não foi uma luta contra o tédio de viver uma vida medíocre.

     

XX. Jigsaw Falling Into Place

 

      Estava sentado na cantina com Clara -- algumas coisas retornam eternamente. Ela tomou assento ao meu lado. Eu, por minha vez, estava com o rosto virado para uma mesa à frente.

      -- Já sabe o que fazer nas férias?

      -- Descansar, pô, não suporto mais. Esse período foi tenso -- Clara respondia com certo alívio.

      -- É, é bom não encarar mais esses professores por algumas semanas.

      -- Nem me diga. 'Cê tinha que ver a prova de hoje, tinha uma questão muito ridícula sobre direitos de famílias poligâmicas. A professora não para. -- seu tom de deboche era evidente.

      -- Tsc, essa galera quer mesmo emplacar essas coisas.

      Nesse momento, Helena sentou-se justamente na mesa a que eu mirava. Ela sentou-se desleixadamente, quase deitada sobre o espaldar da cadeira.

      -- É satanismo, isso sim. É parte de um projeto maior para destruir o Ocidente e nossos valores, não é? O pior é ver como as pessoas compram essas ideias sem nem questionar. Já vi algo parecido ocorrer em Sodoma e Gomorra -- Clara não pausava nem para respirar -- e sabe o que aconteceu depois, né? Ah, esqueci que você é ateu.

      -- O engraçado é que...

      -- Que bom que você não concorda com esses trapos ideológicos -- cortou-me Clara -- valorizo muito mesmo a família, é meu sonho ser mãe e tudo. Quero cuidar de meus filhos, nem penso em trabalhar. Meu marido que sustente. Não fez? Tem que bancar! Vou fazer pilates de manhã, servir o almoço meio-dia, levá-los para as compras no shopping e à noite ir p'ra igreja com eles.

      Um rapaz se aproxima lentamente de Helena. É um homem de cabelo crespo, pele achocolatada, camisa do Flamengo e calças baggy. Ele suspende a mão no ar enquanto fita seus olhos.

      -- E como você quer que seja seu marido? -- perguntei para Clara.

      -- Ah, primeiramente tem que ser um homem de Deus e...

      Eu não estava prestando atenção. Clara que continuasse seu longo solilóquio sobre como homens deveriam ser. Naquele momento, éramos só eu, o rapaz e Helena. A mão dele logo envolveu a bochecha esquerda de Helena, servindo de apoio para que deixasse um beijo no lado direito do rosto dela.

      Helena permanecia estática. Aquele homem a profanou, ousou encostar seus lábios nela sem mais nem menos. Sequer pediu permissão, apenas estabeleceu contato visual e cometeu tal injustiça. Eu precisava, eu precisava levantar. Meu sangue começou a esquentar, meu coração disparou violentamente. Nunca em toda a minha vida adquiri ódio tão prontamente de alguém que eu acabara de ver pela primeira vez. Eu poderia destroçá-lo como um animal. Sim, eu era um César na arquibancada do coliseu; ele, no melhor dos casos, um servo, um babaca com calças de mulher. Que importa? Jesus faria o mesmo com os mercadores que violavam o templo.

      -- ...mas você é ateu, não é? Quer dizer, eu me casaria com um ateu desde que ele deixasse eu criar meus filhos na fé e tal. -- Clara cortou meu transe, devolvendo-me à realidade.

      Virei o rosto para ela, meu rosto ainda estava ensombrecido e meus olhos ainda expressavam certo ânimo de predador. Em milissegundos desfiz o semblante, e um sorriso involuntário abriu-se em meu rosto. Não pude deixar de rir um pouco.

       -- E eu me casaria com uma cristã também!

      -- Você não iria se incomodar com sua esposa levando seus filhos para a igreja?

      -- Quer dizer, que opção eu tenho? Levar os meninos para o templo de Charles Darwin?

      Clara gargalhou bastante. O flamenguista foi embora, Helena ainda permanecia sentada esperando que seu pai viesse para buscá-la.

      -- Clara, existem coisas mais urgentes num relacionamento, como pagar contas de luz.

      -- Bem, não é seu filósofo que diz que aquilo que é feito por amor tem seu lugar além do bem e do mal? Talvez faça sentido, mas abro só essa concessão, viu?

      -- Quanto romantismo.


 XX. Esquecimento e eternidade

 

      Guilherme, parece-me que a finalidade da vida é a perpetuação. A maior angústia que nós temos é a de sermos devorados por Saturno, então construímos uma rede de significados em que possamos viver para sempre. A eternidade é uma mistificação de algo muito mais simples: a vontade de não ser esquecido. Meu amigo, sinto que durante a vida toda eu fui alguém supérfluo. Quando eu morrer, tenho certeza de que a minha lembrança nunca apertará o coração de alguém, meu fim nunca será motivo de desamparo e perda de sentido. Não, eu não ocupo essa posição importante para ninguém.

      Eu sou uma conversa interessante, uma personalidade curiosa, um amigo exótico e, no melhor dos casos, um símbolo de inteligência -- não mais. Estou lutando contra a morte todos os dias, mas quem se importa quando só mais um desaparece?

      Não olhe para trás, Orfeu contemporâneo, porque sua Eurídice sequer existiu, o inferno é todo seu. Não é o Hades que incomoda, é a solidão.


XX. As cortinas caem

     

      Enfim entrei de férias, hoje resolvi acordar mais cedo que o de costume. Preparei meu café-da-manhã do melhor jeito: dois ovos mexidos, três pães de forma e uma xícara grande de café com leite. Minha mãe acordou enquanto eu comia minha refeição, era seu dia de ir para a igreja. Ela sempre achou que eu fazia muita bagunça na cozinha.

      -- Jesus! E essa frigideira em cima da mesa? -- indagou-me enquanto enchia de água o canecão que eu usara para aquecer o leite.

      -- mãe, hoje vou sair mais cedo, vou para o Cristo Redentor. Não se espante quando não me ver em casa.

      Seu semblante desanuviou-se, prontamente ficou mais feliz. Era a primeira vez em semanas que ela me via sair de casa.

      -- isso mesmo, menino! Vá lá conhecer o Cristo, vá.

      -- quem sabe, se eu tiver dinheiro e disposição.

      -- tire bastante foto e mande p'ra mamãe, viu?

      Pus minha camisa social, um par de tênis e uma calça, no maior estilo all black. Uma anel negro envolvia meu indicador esquerdo. Na minha mochila, uma cópia de Os Sofrimentos do Jovem Werther.

      Quando espetei a chave no portão, minha mãe me perguntou:

      -- Você vai com alguém? Não é querendo me intrometer na sua vid-

      -- não, não vou. É bom sair sozinho às vezes.

      E assim peguei o ônibus para fazer uma pequena viagem ao Parque Lage, que fica aos pés do Corcovado. O veículo produzia alguns ruídos estranhos, e o ar-condicionado só gelava quando o motorista pisava no acelerador. Pus cantos gregorianos nos fones enquanto lia o livro. Werther é um santo, creio que ele morreu em nosso lugar para que pessoas como ele jamais fizessem o mesmo.

      Em vários momentos me rendi à paisagem retirando os olhos da leitura. O verde e o mar em harmonia com as pistas e os prédios, sendo o palco para a vida cotidiana de milhares de pessoas, eram impressionantes.

      Desci em frente ao parque. Logo na entrada eu notava a presença de algumas famílias mesmo que fosse tão cedo, e ali se destacava uma mulher negra vestida de noiva. Um homem de meia-idade vestindo camisa polo carregava equipamento fotográfico. A família dela estava radiante, e ela mais ainda. Vi também alguns pais tomando seus pequenos pelas mãos durante o passeio. Havia alguns casais de jovens, e um rapaz sozinho tirando uma foto panorâmica do palácio, a principal construção do parque.

      Eu não sabia muito bem como funcionava a rota para o Corcovado e, com preguiça de ler as placas, me orientei segundo as trilhas. Encontrei-me perdido na mata algumas vezes, mas fui recompensado por uma bela vista de peixes nadando sob uma queda d'água. Não demorou até que eu encontrasse a trilha que me levaria ao Cristo Redentor e, diante dela, notei que eu não queria subir aquilo nem viver uma aventura. O que eu queria mesmo era estar onde as pessoas estavam, onde o fotógrafo capturava as colunas do palácio, os pais se sentavam com seus filhos em frente a uma fonte e a contente noiva se preparava para seu ensaio fotográfico.

      Ontem tinha ocorrido uma chuva de primavera, que tinha deixado toda a vegetação úmida. Eu podia sentir meu tênis apertando a grama molhada a cada passo.

      Sentei-me num banco em frente ao palácio. Toda aquela visão preencheu meus olhos e, por um momento, minha mente se calou. A vida continuava.