domingo, 23 de março de 2025

Contra os Gurus, os malditos gnomos.

GNOMO


gnomo, eu quero o matar

eu quero o matar, gnomo

você subiu em meus ombros, gnomo

enquanto eu subia a colina

gnomo, nosso peso eu aguentei


sem mim, você nunca poderia ir ao alto

gnomo, por quê?

você não tem pernas o suficiente, gnomo

esta colina é alta demais para se subir sem mim


gnomo, estou cansado do seu peso, gnomo.

você não cala a boca

você torna a subida mais difícil

a minha subida, gnomo.

gnomo, é a minha subida.


você é um peso que nunca me pertenceu

uma pedra a mais no caminho

que prometia me previnir dos riscos

mas eu não tenho medo de me perder, gnomo.

gnomo, eu não preciso de seus conselhos.


você sempre precisou de mim, gnomo

gnomo, por quê?

sua respiração é velha

suas palavras estão mofadas

gnomo, você espuma ressentimento pela boca.


eu não quero mais seu veneno em meus ouvidos.

agora eu apenas quero vê-lo morto

gnomo, eu apenas quero vê-lo morto.


estou o estrangulando, gnomo.

gnomo, seus olhos estão se revirando

seu rosto está ficando roxo, gnomo

você luta pela sua pouca vida

gnomo, pouca vida lhe resta.


gnomo, eu vou o matar.


CONTRA OS GURUS


Minha acusação: os gurus são apenas poetas.

O que caracteriza um guru? -- cada um tem um eixo de valores capaz de pôr em plano as mais diversas situações reais. Assim, um guru fornece todas as respostas e julga a vida de cima para baixo. Os gurus brasileiros são vários, e cada um arrebanha uma multidão de ineptos que, acima de tudo, buscam uma identidade sólida e soluções para a vida.  

É bem verdade que, no fundo, os aprendizes de gurus são covardes: há neles um pavor de toda escuridão, de todo abismo e de toda incerteza. Mergulhados na instabilidade da modernidade, os aprendizes a todo tempo buscam uma figura solar que os possa definir. 

Mas será que a humanidade ainda não entendeu que toda definição é uma impostura diante do real? 

Pessoas vazias não deveriam buscar se autocompletar -- é-lhes recomendado que se busque a completa inépcia; pessoas ricas, entretanto, pouco caso fazem de virtudes e conceitos que as possam definir. Assim, não haverá humanos pela metade pisando a terra.

Toda palavra é uma memória coletiva de um passado cujo substrato é econômico, histórico, social e psicológico. As palavras não apontam para o real de modo desinteressado -- há uma carga de intenções prévias em todo conceito. Logo, por que um indivíduo rico e original necessitaria das memórias intergeracionais de milhões de humanos para poder explicar-se ou dar um sentido à vida? Quem procede de modo a buscar nos conceitos uma verdade para si e para vida é, no mínimo, um espírito fraco incapaz de sobrevoar os abismos.

Os gurus oferecem as pontes linguísticas para pôr num quadro maior pessoas vazias. E por que são poetas? Porque poetas pouco entendem da realidade, apenas de recombinações de palavras. 

Aos indivíduos ricos em instintos, recomendo que se abandone o peso das verdades ditas por sábios e gurus. Nossos instintos se moldaram à pressão evolutiva de milhões de anos, quase tudo o que precisamos já está em nós.  Livrem-se já desses gnomos que só podem subir as colinas do real fazendo peso em nossos ombros.


terça-feira, 4 de março de 2025

José e Jesus

Prólogo

        Esta é a terceira ou quarta vez que publico uma ficção neste blog. Na verdade, escrevi algumas há bastante tempo, mas nunca quis publicar muito coisas assim. Este texto nasceu com a ideia de dois amigos, futuros grandes artistas. Tentei fazer em formato de peça de teatro, mas meus instintos falaram mais alto e minha profusão de sentimentos só pôde encontrar representação num conto. Assim foi necessário para que eu pudesse pôr em plano crítico o que estava ocorrendo no coração de José. Eu sou o narrador do texto. 

        Nota-se que alguns trechos foram extraídos diretamente da literatura clássica, como a frase "tudo o que existe merece perecer". José é a síntese de Shylock, Rei Lear e, certamente, St. Nero. Há a profunda inspiração de ideias nietzscheanas e schopenhauerianas no texto.  Não houve, entretanto, inspiração maior do que os poemas de José Régio -- é em homenagem a ele que eu nomeei o protagonista.

        Como não poderia deixar de ser um texto meu, o caráter é polêmico e iconoclasta.  Eu não escrevo, eu desmonto e recrio a realidade. 

José e Jesus 

  José, o mendigo, ficou parado ali, em meio àquela massa de fiéis, observando a imagem arrebatadora de Jesus Cristo que se erguia na multidão. O filho de Deus era, de fato, um judeu magérrimo, com um semblante que, embora triste e abatido, transmitia certa paz e um sentimento de comiseração, como se fosse a humanidade a verdadeira vítima que necessitasse de salvação. Seus traços eram finos e seus cabelos, ondulados, que pendiam até a altura de seus ombros, eram adornados por uma coroa de espinhos. José não sabia bem explicar o porquê, mas aquele Cristo lhe gerava um profundo sentimento de identificação. Como poderia um miserável louco ter alguma parte com o próprio Filho de Deus? A resposta estava em seu coração. Havia algo em José que havia em Jesus, e a imagem de Deus sangrando na cruz lhe arrebatava a mente. "Talvez, só talvez aquele homem na cruz não fosse Deus" -- essa intuição pairava no coração de José, mas quem se atreveria a tamanha blasfêmia? Logo a sociedade lhe poderia censurar tal intuição, digna de hereges que merecem o completo ostracismo. Naquela procissão, o Nazareno estava sendo glorificado por milhares de pessoas que o chamavam de Senhor, Salvador e Redentor, mas por que aquela estátua tinha um olhar tão solitário e tão decepcionado? "Cristo está no topo da existência, mas completamente sozinho nela" -- assim pensou José. "Ó Jesus, tua graciosidade emana tanto amor, mas um amor não correspondido, um amor unilateral, um amor que corre de cima para baixo! Seria este o motivo de sua angústia? Se assim for, que pecado cometemos contra este judeu! O maior pecado contra um ser humano é não reconhecê-lo como humano -- as pessoas preferem pintar heróis e vilões, deuses e demônios, superiores e inferiores a simplesmente dar ao outro a compreensão de sua natureza humana -- humano completo, de carne e osso, com tantos sentidos, dimensões, dores e afetos quanto se possa imaginar".

O coração de José estava se desprendendo e, não obstante a névoa do álcool estivesse embaralhando seus pensamentos, sua consciência estava produzindo mais verdades do que todos os trabalhos produzidos por teólogos, sacerdotes, filósofos e outros acadêmicos juntos, pois havia um componente não racional naquelas palavras, algo que só pode vir do coração de um homem solitário. 

"E não sou eu como Jesus? Será que não sabem que eu já rasguei com ira o ventre de minha mãe, andei pela primeira vez e logo caí, já me diverti com a primeira bola que eu ganhei na infância -- e tantas vezes me diverti com ela, sem ao menos saber quando seria a última vez em que correria no campinho com os meus amigos! --, já amei e não fui amado, já tive sonhos e esperanças que foram destruídos pelos obstáculos da existência. Acima de tudo, eu sonhei com o calor humano, com a igualdade perfeita e o fim da fria solidão que sempre me acompanhou desde as minhas primeiras lágrimas -- e nisso, Ó Senhor, nós somos exatamente iguais. O que eles fizeram contigo foi colocar-te na posição de Deus, um Deus completamente misterioso que diz muitas coisas incompreensíveis, assim puderam livrar-se da tarefa de compreender-te! Colocando-te no alto, fizeram-te incapaz de ser tocado e receber amor humano; comigo, Senhor, optaram por me taxar de marginal, mendigo, louco, bêbado... tão logo se esqueceram de que eu era um ser humano, ficou mais fácil de passar por mim e virar o rosto, e ignorar que eu tenho potenciais ocultos, talentos que nunca se manifestaram... Ficou mais fácil não saberem que eu tenho um nome. Tanto aí em cima como aqui em baixo, Jesus, sabemos quão frio é, quão distante estamos do calor da humanidade."

José, mais uma vez, entornou um gole daquela garrafa garganta a baixo. Os fiéis passavam pelo mendigo como se ele fizesse parte do cenário, assim como um poste ou uma árvore plantada na calçada, os mesmos fiéis que ouviram da boca de seu Salvador: "ama o teu próximo como a ti mesmo". Quantos outros Cristos passariam pela terra, enxugariam os pés dos discípulos e perdoariam setenta vezes sete até que a humanidade entendesse por fim o verdadeiro sentido da palavra amor? Ali estava Jesus, de braços abertos não por causa do martírio, mas por esperar o abraço de quem ele sempre amou. 

"Mas já disse, amei e não fui amado" -- continuou José -- "assim como Jesus. Este Nazareno, este ingênuo Nazareno, pensou que iria redimir a humanidade de seu profundo egoísmo. Pensou que finalmente iria remover Deus dos céus e pô-lo ali onde se reúnem duas ou mais pessoas. Jesus, profundamente necessitado de ser amado, quis que o amor não fosse mais vertical, aquele de baixo para cima ou de cima para baixo, mas horizontal e recíproco entre seres humanos."

Nessa hora, José, que era um convicto ateu, teve a mais plena certeza de que Jesus foi o primeiro grande ateu da humanidade. Jesus foi o primeiro a ignorar a transcendência e devolver o sentido da existência ao mundo material como ele é.

José, que não mais conseguiria ficar quieto, proferiu: "Trágico, trágico! Como pôde a humanidade cometer tamanho equívoco? Como puderam ignorar Jesus em seus corações e devolver Deus ao Reino dos Céus, em vez de deixá-lo nascer no amor que há entre nós? Seu sacrifício não foi o suficiente para que ele fosse amado de volta, tampouco para que os humanos amassem uns aos outros. No fim, o povo que ele resolveu salvar foi o mesmo povo que escolheu a dedo quem merecia e quem não merecia o amor. Assim, seus fiéis passaram a detestar seus irmãos e então entenderam a si mesmos como a luz deste mundo isolada das trevas. Esses fiéis puros e intocados que jamais se assentarão com quem é diferente..."

        Dizendo essas palavras, alguns olhares de estranheza foram dirigidos ao mendigo. Ninguém, no entanto, reagiu ou sequer discutiu com José. Era como se ele não existisse. Não importava o que ele fizesse. Mesmo que ele rasgasse uma Bíblia na frente dos fiéis, jamais conseguiria chamar para si qualquer atenção. Ele era como um animal, não merecia nem mesmo o ódio das massas. "Desprezado" -- pensou José -- "novamente desprezado!".

O coração de José foi tomado por um profundo sentimento de ódio e vingança. O miserável queria passar na cara de todos os fiéis que eles estavam completamente errados. Essas pessoas egoístas e insensíveis estavam utilizando a mais profunda mensagem de amor que já existiu para pregar a separação, a distância e o desprezo. Se José pudesse, destruiria ali mesmo tudo o que existia. 

"Sim, tudo o que existe merece perecer" -- pensou José -- "o sacrifício desse homem deu errado, completamente errado! Na busca pelo amor, entregou a si próprio em vida para depois ser enxotado para o trono de Deus. Eu não quero cometer esse erro, eu não quero mais que esse rebanho exista. Perdão? Não há perdão! Eu deveria estar bem agora, com uma mesa cheia de comida e repleta de filhos e netos. Deveria compartilhar uma casa com a pessoa amada. E vejam só onde eu estou agora! Finalmente entendo que o único erro que cometi até agora foi ter esperanças de ser amado um dia, eu deveria ter sido mais duro, mais cruel, mais insensível. Eu deveria ter sido exatamente o diabo na terra, não um Jesus compassivo! De nada adiantou tamanho esforço teu, Ó Jesus. Eu não sei ainda o que irei fazer, mas prometo que será o terror do Universo!"

Mas José não faria nada. Em sua loucura poética, talvez ele tenha se esquecido de que, no fim, era apenas um louco esfarrapado que sequer conseguiria garantir o sustento de amanhã. José bem tinha um espírito forte e era sensível, mas socialmente era um fraco. O destino o condenara a ser um eterno amante daquilo que nunca se teria de volta. Seus talentos ocultos até poderiam ter sido desenvolvidos para que ele, quem sabe, conquistasse o afeto que ele sempre desejou, porém desde jovem foi mais fraco do que a dor. José não suportara olhar para o abismo, e assim afogou seus sonhos em doses e mais doses de vícios. Como uma criança mimada que tem parte de seu castelo de areia derrubada pela brisa marinha, esbravejara e derrubara tudo o que havia construído até então. José tinha certa noção disso, só que já estava farto de dias, cansado do peso do tempo e cicatrizado demais para arriscar abrir novas feridas. Acima de tudo, José estava se identificando havia anos com o papel de vítima. Não havia mais esperanças.

José estava afogado no ressentimento. No fim, seu ódio era apenas um recurso desesperado de sua vontade para conseguir, nem que por uns instantes, um pouco de calor humano. Naquela procissão calorosa, Jesus e José estavam morrendo de frio. 

        O ódio de José arrefecera, e, passadas umas boas horas, as nuvens abriram uma terrível tempestade. Molhado pela chuva, José estava agora de pé numa ponte sobre um rio, ensaiando um pulo rumo ao abismo. E por que não pulou logo? Seu corpo ainda tinha esperanças de que algum humano interviria. Mas não, ninguém veio. Assim, seu coração entendeu seu destino trágico. Ninguém viria ao seu socorro, ninguém se importaria. Mas por que alguém teria que se importar? De que valem as formas externas? José estava a poucos passos de acreditar que a vida pode, sim, valer por si mesma, independentemente dos obstáculos que se impõem à nossa vontade. Vendo aquele fluxo de água, as mães protegendo seus filhos da chuva com guarda-chuvas, os homens apressados em pegar o táxi para não molhar seus ternos e os ratos saindo dos bueiros inundados, o mendigo teve um momento de paz. "Sim, isso é vida. A vida não para. A vida segue seu fluxo inexorável em direção à expansão. A vida não guarda passado, também não guarda expectativas do futuro, ela apenas é, e isso é o suficiente. Se nem a vida guarda mágoas do passado, por que eu deveria? Eu posso recomeçar, eu posso não ser mais um louco, não mais um bêbado, não mais um humano solitário. Eu posso ser simplesmente eu. O que passou, passou. Está na hora de perdoar tudo o que existe. Tudo o que existe merece existir." -- disse em seu coração. Teve um momento de plenitude, um daqueles que as pessoas têm quando dormem bem, estão chegando no orgasmo ou tomam um bom copo gelado de água. 

José chegou a um ponto tão baixo na vida que teve que aprender a amar a única coisa que existe: o presente. O presente como ele é, sem julgamentos, sem formas, sem distinções. É verdade, José não alcançaria qualquer glória, e qualquer indivíduo bem-sucedido diria que o amor ao presente é um anestésico genérico para a dor. Mas quem poderia culpar um homem doente por querer buscar um alívio?

Finalmente José encontrou certa paz, coisa tão pequena e simples, mas simultaneamente inabalável e superior a todos os sentimentos e pensamentos. A vida valia por si mesma agora. José estava no mesmo patamar de tudo aquilo que vive, sem distinções.

Não sabia, no entanto, o que o destino lhe reservara. A chuva se intensifica cada vez mais, os homens, de ternos enfim molhados, estão todos dentro de um táxi agora, os contínuos esforços das mães para manterem seus filhos secos fazem-se inúteis, os ratos se afogam na água e uma pujante corrente de água arrasta os pés de José e o faz escorregar. Tentando desesperadamente se erguer, desequilibra-se e cai direto no agitado rio. 

No dia seguinte, a vida continuava a todo vapor na cidade. As mães haviam deixado seus filhos na escola, os homens estavam colocando um novo terno para irem ao trabalho, os táxis estavam fazendo suas primeiras viagens do dia. O rio havia abaixado o nível e voltado a ser um pacífico espelho de água que entretinha quem passava pela ponte. Nos jornais, nenhuma notícia sobre qualquer desaparecido. As coisas estavam completamente normais, o mundo era o mesmo de sempre. As nuvens, antes carregadas, dissiparam-se e abriram espaço para a luz do sol alimentar novas vidas. José era como as nuvens, ou melhor, não era mais nada. 
        
        Esse átomo desvairado sem família, sem amigos, sem amor, sem trabalho e sem calor, esse grande aborto da natureza, voltou àquilo que ele sempre mereceu: o nada. A humanidade vai continuar existindo e cortando fora todas as aberrações que ela gerou. O destino seguirá sua marcha desprezando quaisquer considerações subjetivas. A vida não é um poema, antes, é uma criatura fria sem demais mistificações. Não importa como, não fizeram diferença alguma a nobreza de seu espírito, sua profunda necessidade de amar, suas bebedeiras, seus primeiros passos ou seu último momento de redenção e aceitação da vida como ela é. José morreu como ele sempre viveu: sozinho.  

Epílogo


        Questionam-se o livre-arbítrio, a ascese, o cristianismo, o transcendental, o ódio e o ressentimento; o destino, entretanto, é a única coisa certa nessa história. José segue perfeitamente o arquétipo do homem melancólico. Aqui não importa o que está se passando nele. Que José viva miseravelmente e amargurado ou em paz não importa. José é só uma folha na árvore do destino. E quantos Josés não há por aí no mundo? A pouquíssimas pessoas a vida reservou o direito divino da felicidade superior. A vida é um deus sádico que não enjoa de rolar dados. Tudo o que aconteceu com José, o próprio José, é o destino.

        A depender do ponto de vista do leitor (e de seu grau de budismo), este é um conto trágico, mas também pode ser um conto cômico. José completou o percurso schopenhaueriano de intensa dor sucedida por uma intensa conexão com o Ser.  Se a vida é dor, como haveria maior paz senão a de deixar de existir? Pode-se pensar que José, enfim, encontrou a grande paz: o fim da vida.