O que fazer?
Há em nós múltiplas pessoas, vozes dissonantes que, a seu modo, apontam em direções contraditórias.
Então, o que fazer?
Quando se segue um impulso, as consequências podem ser nefastas
mas, se é o medo que o impede de fazer algo, o medo é uma voz a ser seguida?
Então, o que fazer?
E se o dever for apenas um jogo de palavras?
Não há escolha, livre-arbítrio não existe
a vida é um comando frio, nada mais.
Mas chega de palavrório
Agora devo começar a ação
Nada importa -- é a única verdade objetiva.
Do Perdão a Si
Eu nunca fiz algo de errado na vida.
Uma vez que eu entendi a fonte de minha natureza,
notei que sempre esteve lá, o impulso oculto que governa minha vida.
Mas quem pode perdoar a si sem inevitavelmente perdoar a todos?
Somos animais tocados pelo destino.
E se o destino for guardar rancor?
Quem poderia optar pelo perdão assim?
Aforismos
1. Nesta cidade, o caldeirão da cultura estava efervescendo na juventude. De certo modo, eu me sentia parte disso, mas como um lobo solitário no processo. Tenho certa resistência natural para me agregar aos meus pares. Não é uma resistência motivada por orgulho ou falta de autoestima, as coisas só são assim mesmo.
2. Os jovens daqui estão amadurecendo com um gênio artístico especial que só as condições daqui poderiam criar. Aqueles rapazes eram comunistas, mais uns entre tantos outros. Outros rapazes, entretanto, tinham influências da extrema-direita europeia -- mais uns entre tantos outros. Confesso que era de se espantar que houvesse tantas pessoas interessadas por esses assuntos aqui. Eu particularmente não me importo tanto assim com política, embora entenda bastante da coisa. As pessoas tendem a suspender a gentileza umas com as outras quando a política vem à tona nas rodas de amigos, e eu não acho que eu possa ganhar algo brigando com as pessoas por ideias que eu nunca poderei pôr em prática. Mas não julgo quem o faça.
3. Como um bom jovem daqui, tenho um senso de superioridade elevado. Essa vontade de se afirmar perante o mundo é talvez nossa melhor característica: se temos um dever, julgamo-nos os únicos capazes de cumpri-lo. Essa autoconfiança vem direto do coração, não por um motivo exterior qualquer. Antigamente, eu atribuía meu senso de superioridade às constantes bajulações que eu recebi na infância -- mas eu estava enganado. Os jovens excepcionais daqui, bajulados ou ignorados ao longo da vida, têm naturalmente essa brasa ardendo no peito.
4. A meu modo, posso ser considerado um conservador em minha vida privada. Prezo bastante pela ideia de família, mas às vezes me julgo meio patético para carregar valores tão nobres -- é como se eu estivesse tornando feia uma causa tão bela. Politicamente, identifico-me com a posição de radicalista aristocrático.
5. É onde está a comunhão entre pessoas superiores que está Deus. Nós, os espíritos livres, somos a encarnação e superação da consciência coletiva.
6. Bastava um sorriso seu para que meu coração queimasse pelo resto do dia. A imagem que eu tinha dela era como a de uma santa intocada, que está lá mas nunca está de verdade. Ela se apresenta ao mundo de modo que ninguém pode retirar os olhos dela, mas tampouco alguém poderá tocá-la. Chega a ser provocativo de sua parte. O adjetivo que a melhor descreveria seria inacessível. Sua inacessibilidade me castiga o coração: é como saber que há ouro do outro lado da ponte, só que você nunca pode cruzar a ponte. Ela, sim, seria uma companhia ideal, daquelas que permitem que você realize mais ainda suas potências silenciosas. Sem a companhia perfeita é impossível atingir a solidão perfeita, certo?
6.1. Disse o medroso: o homem forte deve andar repleto de armaduras, de modo a nunca vacilar e se encantar pelos feitiços da vida. Mas eu tenho um recado para vós: não sois de modo algum pontes para o super-homem. Todo aquele que não desenvolve a vida já está morto.
6.2. Como? Disseram-me que eu perderia a luta, mas eu digo: já perdi.
6.3. E quem continuaria vivendo se não fosse pela esperança infinita no futuro?
7. Em nossos tempos, alguns homens, aparentemente masculiníssimos, mimetizam uma espécie de herói estoico: o homem ideal e inabalável que, indiferente às intempéries da vida, se mantém estático e plácido. Tais "heróis" de nosso tempo julgam que tudo o que ocorre de ruim em sua vida é responsabilidade sua -- nada se deve protestar contra o externo, pois esta seria uma atitude feminina e infantil. À primeira vista, isso poderia soar como um tipo superior de homem, se não fosse por outro fator: esses atores da superioridade têm medo de se sujar, ao passo que mentem para si mesmos dizendo que tudo está sob o próprio controle, bastando mudar a conduta, frequentar uma academia, comer saudável, acordar às cinco da manhã, obter uma religião e etc. para que as coisas fiquem bem. Ora, que atitude é mais covarde que, diante de uma guerra real, cruzar os braços e vestir uma couraça pesada, com um aparente ar frio que apenas esconde o medo de -- sentir dor? Quem tem medo da vida não consegue triunfar sobre ela. No máximo, poder-se-á triunfar sobre uma massa de esquisitões de caráter fraco que querem buscar sua figura paterna num homem fingidamente masculino, mas que, no fundo, é um grande fujão. Meu movimento é o contrário: todo aquele que quer buscar a superioridade deve dançar com a vida.
8. É claro que não podemos prever os resultados de nossas condutas. Seguimos, entretanto, confiando na bússola de nossos corações.
9. Quando estou na companhia de meus pares, sinto que está tudo bem e as coisas ficarão bem.
10. Há dois polos na vida humana que ocupamos em diferentes momentos: o polo interno e o polo externo. O primeiro dirige o movimento para nós mesmos; o segundo, para o que está fora de nós. É em nosso polo interno que está nosso ser oculto, repleto de afetos, desejos, valores e egoísmos. Aqueles que mergulham no interno sem precaução podem cair em armadilhas muito perigosas dos pensamentos, além de estarem fadados a pouco progredirem na vida real; as pessoas que, por sua vez, estão polarizadas no externo tendem a uma certa cegueira interior, mas produzem muito mais impacto na realidade; contudo, em regra, pessoas que se movem meramente no exterior e ignoram seu desenvolvimento interno, tendem a se tornar idiotas, máquinas ou parte da grande massa cega. Bem, não há jeito certo de viver, nem um polo é superior a outro, tampouco estão isolados um do outro -- eles sempre dialogam entre si e se movem reciprocamente. Um grande descompasso em minha vida foi tentar me mover internamente sem, paralelamente, me mover no exterior; A verdadeira excelência humana é caminhar tanto com a perna da interioridade quanto com a perna da exterioridade.
11. Há anos entretenho a ideia de compor ficções, mas não sei quem leria. Que é um autor sem um público? Um cego. Algumas pessoas poderiam até me dar o simples conselho: "escreva para si mesmo"; só que eu próprio sou muito julgador e criterioso, então eu teria que lidar com o pior público de todos: eu mesmo.
12. Meus escritos são belos porque conseguem espiritualizar tudo o que em mim é pequeno e banal. Com o auxílio de minhas palavras, até o trivial -- se torna glorioso. Sendo assim, que é um poeta senão um mentiroso?
13. Dar ouvidos a um conservador que não constituiu uma família e detesta trabalho é como querer aprender a nadar com alguém que nunca tocou a água.
14. Corre em nós, brasileiros, o sangue dos navegadores portugueses e dos exploradores bandeirantes. Se esse sangue ainda conversa conosco, então somos os únicos capazes de entender o amor à liberdade. O que é liberdade? É quando a terra firme desaparece e abraçamos o desconhecido.
15. É necessário ter coragem para ser quem se é de verdade. Há algo em mim que sobreviveu à dureza exterior, mas sua maior conquista foi ter sobrevivido às minhas múltiplas tentativas de assassiná-lo. Tentei afogá-lo no ácido do maquiavelismo e da indiferença; todavia, esse algo continua brilhando como antes: essa criança interior que quer tocar o mundo, senti-lo, abraçá-lo, tê-lo, moldá-lo como argila... o que eu estou fazendo há anos senão construindo um castelo para que essa criança possa nele habitar? Essa é minha única vontade, e todo o resto é um mero apêndice, ou uma representação.
16. A ideologia do "curta-se a si mesmo" está destruindo qualquer possibilidade de alguém atingir a própria natureza um dia.
17. Os heróis da idade do Ouro se lançavam em campos de batalha; os autoproclamados heróis do século XXI, por seu turno, dizem a seus seguidores: pela sua segurança, jamais vá ao campo de batalha -- a chave da indiferença e autodesenvolvimento vulgar.
18. O elemento cristão no Brasil nunca pôde competir com o elemento sexual. Nós, brasileiros, fomos forjados nos chãos revestidos de palha dos colonos europeus, não em camas macias abençoadas por padres. Se o brasileiro comum conseguisse espiritualizar a libido, seríamos um país culturalmente prolífico -- não é o que ocorreu, de fato. O elemento sexual no sangue do brasileiro se tornou uma coroa de espinhos que humilha e rebaixa ao nível de animal quem a usa.
19. Poucos brasileiros são dotados da capacidade de fidelidade. O casamento é a última muleta que restou para manter as coisas no lugar, mas esta instituição está a cada dia se tornando um ídolo mais e mais frágil.
20. Como? O poder é imoral por natureza ou a moral é antipoder por causa dos fracos? -- primeira questão a se pensar.
21. Deve-se se apegar à vida ou dela fugir? -- segunda questão a se pensar.
22. As coisas são como são independentemente dos humanos, e assim devemos amá-las, ou tudo o que existe merece ser humanizado por nós? -- terceira questão a se pensar.
23. E, se por um instante, tomarmos consciência do crepúsculo de conceitos que faz cair todos os edifícios à nossa volta, devemos criar novos conceitos, readotar os antigos ou aceitar o concreto? -- quarta questão a se pensar.
24. O ridículo é até os dias de hoje uma das refutações mais incontestáveis na mente humana. Tudo o que é ridículo não merece crédito; tudo o que é verdadeiro é necessariamente sério.
