O ilimitado, o indeterminado, a energia forte que congrega o mundo em seu louvor. Não há um ouvido que não o escute, uma boca que não professe seu nome, uma mente que não tenha sido completamente ocupada por ele. Quem é esse demônio? — ou melhor, esse deus. Ele não gerou o tudo, apenas o tomou de assalto. Ninguém mais está infeliz, pois a felicidade de cada um é servi-lo! Já não há mais conflito, nem guerra, nem inveja: Todos são um só, um coro eterno a serviço do líder — o niilismo foi vencido. Finalmente encontraram uma rocha para nela se firmarem.
A voz daquele que lhe serve suspira: "Ah, se houvesse como eu ter negado seu nome... mas não houve! Por quanto tempo eu teria me negado até perceber que somente em seus braços eu possuiria a verdadeira felicidade. Nós, seus súditos, somos um corpo único a lhe agradar — sua eterna esposa."
Agora sim responderei à pergunta inicial: O deus é a criança. Sim! Ele nunca conheceu o não, a limitação — muito pelo contrário. Seus desejos eram quase simultâneos a suas respectivas satisfações. Mas não se enganem. Não, não! As coisas nem sempre foram desse jeito.
A grande verdade é que o mundo estava ao avesso. Repleta de inveja, rancor e ressentimento, a maioria decadente atirava do precipício qualquer um que demonstrasse algum traço de superioridade — A revolta dos escravos foi bem sucedida em todos seus aspectos. Já não havia mais como acessar a beleza, pois essa palavra foi tão esvaziada e relativizada que logo se tornou uma ofensa sequer pronunciá-la.
Contra o que era bom, e nobre, e vivo, e dominante, os inferiores declararam guerra total. A humanidade mergulhou na plena anarquia em seu sentido mais estrito: pensar em hierarquia era o suficiente para algumas cabeças rolarem. Ergueram a bandeira da feiura, da fraqueza, do não ao mundo... O paraíso mais infernal foi estabelecido como forma única de organização social. Improdutivo passou a ser considerado produtivo; apagar-se, nobreza; ódio, amor; inveja, o sentimento mais comum de todos.
Só que eles não puderam prever — em sua arrogância, imaginaram ter purgado a natureza do homem e criado, portanto, um animal dócil — que algumas corrupções em seu meio surgiriam. Não adianta eliminar os mais destacados se até mesmo certos homens acidentais podem desejar formas superiores — que lição dura foi essa que eles ignoraram! Do não ser, surgiu o ser: a ponte da restauração estava construída. Alguns poucos homens se prepararam não para ser os melhores, mas para dar luz ao melhor — verdadeiras nuvens postas para que um grande trovão caísse sobre a terra e a tingisse de vermelho.
Abrem-se os átrios do céu e a estrela da manhã rasga a noite — Nosso anticristo nasceu, e o sangue dos fracos será para a santa expiação dos pecados da humanidade — e, ao verem o mundo ser retomado por tamanha vontade de poder, os fracos temeram e tremeram. O que se sucedeu foi o maior processo de dominação jamais antes visto. A criança colocou seu nome em tudo e criou uma glória romana na sociedade. Os vampiros da terra conheceram a espada, seus filhos foram escravizados — não ficou um único agitador igualitarista na face da terra. O símbolo da cruz, bem como a foice e o martelo, foram banidos para sempre de todo o espírito humano. Os campos voltaram a florescer, as mais belas artes foram produzidas, a ciência voltou a todo vapor, assim como a vida sexual. O mundo encheu-se de prédios, indústrias e filhos! Ah, meu senhor, como eu te amo!
Se há um deus, nosso líder o é! Ajoelhem-se e adorem-no! Nunca se esqueçam de quem somos agora, do que ele é!
