sexta-feira, 18 de julho de 2025

Respostas às correspondências de guerra

Prólogo


    No dia 05 de fevereiro de 2025, publiquei aqui um texto intitulado Correspondências de Guerra. A saber, é um texto de filosofia prática. Nele deixei uma série de comandos que guiassem o leitor em questão. Hoje me proponho a estar do outro lado, como se eu fosse o leitor e destinatário das correspondências de guerra. Nos últimos cinco meses, sofri uma violenta agitação interna, já não me identifico mais com o sujeito que eu era quando escrevi as correspondências, então será interessante ver nosso contraste.

    Cada aforismo será uma resposta ao seu aforismo correspondente no outro texto.


Réplica às correspondências de guerra


    1. "Organizar seus instintos contraditórios é uma tarefa dolorosa [...] Finalizada a organização, o indivíduo torna-se a imagem solar da unidade e da justiça" -- Prezado, bem entendo que há instintos contraditórios em nós, mas, neste momento de cansaço profundo, não me vejo capaz de organizar qualquer instinto que seja. Algumas tendências sufocadas em mim venceram, tomaram o controle e devastaram toda a alma -- as perspectivas de se chegar a uma harmonia interna desapareceram.


    2. "Mas o Universo, antes um mistério repleto de armadilhas, tornar-se-á seu amigo, e todas as coisas, uma hora ou outra, irão dançar ao seu redor e se curvarem em busca de salvação." -- Não concordo que o Universo irá agir a seu favor -- não vai, os ouvidos de Deus são surdos. Nero, não existe pote de ouro no fim do arco-íris, as coisas não caminham para o bem ou a autorrealização. Na verdade, tentei expandir minha luz solar como indivíduo, mas não pude deixar de me sentir um estoico solitário durante todo esse tempo. Meu amigo, você é muito duro comigo. 


    3. "Todo obstáculo externo reflete uma desordem interna sua, mas ambos cederão conforme você age em prol do seu ideal." -- Não cederão, nada existe para construir sua narrativa, porque o Universo mesmo não tem qualquer narrativa. Nero, o caos é a única verdade. Nada faz sentido.


    4. "Cumpra seu dever. Assim, tornar-se-á o próprio Messias [...]" -- Dever? Essa palavra me cansa. Eu não quero me esforçar para melhorar.


    5. "Aquele que foge do dever está condenado a ser uma forma mutável prostrada diante de uma figura solar maior." -- E não somos todos formas mutáveis prostradas diante da desordem?


    6. "Dor é fraqueza sendo expulsa da alma." -- Não. Dor é dor sem mistificações, sem nada mais que isso. Dor dói, isso basta.


    7. " Todo indivíduo em ascensão passará por degraus, mas nunca conheci um degrau que gostasse de ser pisado e passado para trás [...]" -- Todos os degraus pelos quais passei resultaram inúteis, nunca houve uma estrada de verdade. Nunca obtive progresso pessoal, tudo isso é pó. Nero, você não entende? Tudo isso é pó. Todas as benesses conquistadas por cada passo na sua evolução pessoal são banais.


    8. "Quem quiser liberdade de executar uma ação haverá de perder a liberdade de ter inúmeras escolhas, ou seja, só quem perde sua liberdade pode conseguir a liberdade." -- Concordo plenamente.


    9. "Não se importe com as formas externas, elas são passageiras e, no fim, irão se ajoelhar diante de você. [...] O ouro e o sol são imutáveis, mas as trevas se transformam desesperadamente." -- Mas tudo o que até hoje importou para nós foram formas externas. Justamente por serem concretas é que valiam mais, tinham mais apelo aos sentidos. O ouro e o sol são imutáveis, mas tão abstratos e elevados que perderam seu valor.


    10. "Cumprindo o seu dever, você se tornará o centro de gravidade da existência, a flor da Vontade de Vida." -- Não, não existe qualquer propósito para nossa existência.


    11. " A completa autodestruição e ruína podem ocorrer com quem busca a glória. Não existe equação para a vida, nós nunca sabemos o resultado de nada. Portanto, seja responsável." -- Foi o que ocorreu conosco, não foi? A nossa destruição era certa. Você disse essas palavras para nós, mas publicou como se fosse para outros. 


    Nero, você sabia disso, você foi o profeta dessa destruição. Você tinha a plena convicção de que eu seria quebrado, você decidiu ir adiante mesmo assim -- e sou grato por isso! Todo esse seu texto foi a última mascarada antes de mergulhar na vida como ela é -- crua, sem narrativas, assustadora, fria e cruel. Você tentou criar sentido a partir do nada, como eu poderia culpá-lo por isso? Você lutou com todas as suas armas, Nero. Suas palavras foram sua armadura, mas logo a armadura cedeu. 

    Nero, eu não tenho mais uma fração da sua vontade. Eu estou cansado, profundamente cansado. Definitivamente estou no lado dos fracos, dos abatidos e de todo o refugo da existência. Sempre houve em você uma criança vulnerável, uma pena que ela tenha precisado destruir nossa alma para poder vir à tona. 

    Para onde foi nossa estilística grandiosa? Ou a acidez de cada palavra? Nero, pessoas cansadas sequer podem levantar a mão contra alguma coisa. 

    Você era um átomo solar brilhando no máximo, um sujeito solitário na própria missão, mas não foi justamente a vontade de fugir da solidão que o destronou da sua missão? Você não queria mais ser um átomo, Nero, você queria não estar mais sozinho. 

    Cá estou eu, meu amigo, sozinho de novo, só que sem sua luz, seu ímpeto e sua vontade. Apesar de tudo, temos um ao outro, não temos? Você jamais me julgaria, assim como eu não julgo você. Eu te amo. Eu sinto muito por ter fracassado, eu era sua promessa, seu Adão. Você, mesmo com todo medo de lançar-se ao mundo, fez o que fez, eu sou o resultado disso.

    Você nunca conseguiu confiar em quase ninguém, nunca pôde sequer imaginar que as pessoas gostassem genuinamente de você. Agora eu tenho essas pessoas e a certeza do amor delas, mas nada disso preenche meu vazio.

    Você é um ator que esconde uma criança vulnerável, eu sou o resultado d'uma criança vulnerável que tomou o controle do ator.

    Nero, você é um miserável. Eu sou um também. Pelo menos podemos dividir nosso sofrimento juntos. 

Mensagem ao leitor

    Caro leitor, não consigo mais transmutar meus pensamentos em arte. Estou esgotado, profundamente esgotado. Não tenho mais dedos para sutilezas, não tenho mais viço para aforismos grandiloquentes e triunfalistas. Meu antigo estilo perdeu o sentido para mim. Escrevo agora como quem escreve uma mensagem para um amigo, não mais como um autor para seu público. Tudo me provoca nojo, enjoo. Eu ainda tenho que processar uma série de emoções que transpassaram meu espírito nos últimos tempos. Tenho tantas ideias para novos textos, mas tudo parece uma mentira. Seria mais honesto se eu exibisse minha fraqueza e quão ridículo eu sou. 
    Eu não gostaria de ver minha "obra" morrendo, mas não vejo mais perspectivas para ela. Não tenho a mínima vontade de melhorar enquanto escritor e reformar alguns textos. Eu estava preparando um texto gigante analisando todos os textos anteriores como uma forma de acumular toda a experiência desenvolvida até então e passar adiante.
    Infelizmente, este pode ser meu último escrito enquanto Saint Nero. Não quero sujar o que eu fiz até hoje com textos menos elaborados do que já eram antes. 
    A existência está me consumindo, tudo me cansa. Eu era o único responsável por escrever minha obra, aprimorá-la e fazê-la reverberar nos ambientes importantes; não conseguirei, entretanto. Se um dia alguém ler este blog, não encontrará nada mais do que os cadernos de um palhaço. E, se por algum momento houve algum lampejo de valor nestes textos, que a justiça seja feita e eles não morram friamente.  
    Como Goethe conseguiu escrever Werther depois daquilo tudo? Mas não sou como Goethe.