GNOMO
gnomo, eu quero o matar
eu quero o matar, gnomo
você subiu em meus ombros, gnomo
enquanto eu subia a colina
gnomo, nosso peso eu aguentei
sem mim, você nunca poderia ir ao alto
gnomo, por quê?
você não tem pernas o suficiente, gnomo
esta colina é alta demais para se subir sem mim
gnomo, estou cansado do seu peso, gnomo.
você não cala a boca
você torna a subida mais difícil
a minha subida, gnomo.
gnomo, é a minha subida.
você é um peso que nunca me pertenceu
uma pedra a mais no caminho
que prometia me previnir dos riscos
mas eu não tenho medo de me perder, gnomo.
gnomo, eu não preciso de seus conselhos.
você sempre precisou de mim, gnomo
gnomo, por quê?
sua respiração é velha
suas palavras estão mofadas
gnomo, você espuma ressentimento pela boca.
eu não quero mais seu veneno em meus ouvidos.
agora eu apenas quero vê-lo morto
gnomo, eu apenas quero vê-lo morto.
estou o estrangulando, gnomo.
gnomo, seus olhos estão se revirando
seu rosto está ficando roxo, gnomo
você luta pela sua pouca vida
gnomo, pouca vida lhe resta.
gnomo, eu vou o matar.
CONTRA OS GURUS
Minha acusação: os gurus são apenas poetas.
O que caracteriza um guru? -- cada um tem um eixo de valores capaz de pôr em plano as mais diversas situações reais. Assim, um guru fornece todas as respostas e julga a vida de cima para baixo. Os gurus brasileiros são vários, e cada um arrebanha uma multidão de ineptos que, acima de tudo, buscam uma identidade sólida e soluções para a vida.
É bem verdade que, no fundo, os aprendizes de gurus são covardes: há neles um pavor de toda escuridão, de todo abismo e de toda incerteza. Mergulhados na instabilidade da modernidade, os aprendizes a todo tempo buscam uma figura solar que os possa definir.
Mas será que a humanidade ainda não entendeu que toda definição é uma impostura diante do real?
Pessoas vazias não deveriam buscar se autocompletar -- é-lhes recomendado que se busque a completa inépcia; pessoas ricas, entretanto, pouco caso fazem de virtudes e conceitos que as possam definir. Assim, não haverá humanos pela metade pisando a terra.
Toda palavra é uma memória coletiva de um passado cujo substrato é econômico, histórico, social e psicológico. As palavras não apontam para o real de modo desinteressado -- há uma carga de intenções prévias em todo conceito. Logo, por que um indivíduo rico e original necessitaria das memórias intergeracionais de milhões de humanos para poder explicar-se ou dar um sentido à vida? Quem procede de modo a buscar nos conceitos uma verdade para si e para vida é, no mínimo, um espírito fraco incapaz de sobrevoar os abismos.
Os gurus oferecem as pontes linguísticas para pôr num quadro maior pessoas vazias. E por que são poetas? Porque poetas pouco entendem da realidade, apenas de recombinações de palavras.
Aos indivíduos ricos em instintos, recomendo que se abandone o peso das verdades ditas por sábios e gurus. Nossos instintos se moldaram à pressão evolutiva de milhões de anos, quase tudo o que precisamos já está em nós. Livrem-se já desses gnomos que só podem subir as colinas do real fazendo peso em nossos ombros.
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