Das grandes decepções que tive em vida, a filosofia foi uma das maiores -- senão a maior. Pouco ela teve a me ensinar; na verdade, estudá-la me serviu, no melhor dos casos, para notar seus erros e sua falibilidade ante suas pretensões universais. A filosofia é um grande eco da teologia -- e nada mais.
Na filosofia, as palavras se reificam e tudo o que era um processo e uma ação sofre hipóstase. Assim, a gramática é a verdadeira metafísica quando despida de todo palavrório filosófico. Melhor seria que a humanidade abolisse toda cultura que sucedeu a Sócrates, de modo que as palavras Ser, Alma, Deus e livre-arbítrio se tornassem piadas, ou mesmo insultos.
A filosofia não é um exercício racional interessado apenas na verdade, tampouco um eruditismo separado do concreto; pelo contrário, a filosofia confirma um interesse vivo e humano de preservar determinados tipos -- a saber, tipos degenerados de ser humano. Não existe filosofia sem um código moral que a anteceda, e não existe moral sem instintos humanos a constituindo.
A solução para as questões filosóficas não está nos métodos próprios da filosofia, mas em ações políticas destinadas a destruir ou conservar determinados tipos. O material é o verdadeiro campo de disputas a partir do qual se edificam todos os sistemas filosóficos. Não os livros, a reflexão ou os infindáveis debates: a dureza, a hierarquia, o aprofundamento das desigualdades e a separação entre os diferentes são as únicas vias reais para superar os discursos propagados pelos filósofos.
Os conceitos mais elevados da filosofia, como Ser e Alma, não são mais do que uma síntese superficial de diversos recortes do real. Portanto, é superior na filosofia aquilo que é menos concreto, real ou vivo e tanto mais fantasmagórico. Devemos inverter a pirâmide de valores e perceber que o real não pode ser aprisionado nas cadeias da reflexão filosófica -- o real se sente, o real se expressa no aqui e no agora, o real se vive. As formas culturais que mais se aproximam do real são aquelas artísticas, como a poesia, a literatura e a música, e jamais tratados ou dissertações eruditas.
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