Prefácio do autor
O que eu publico aqui é uma novela inacabada. Ela está com a estrutura pronta e com três dos quatro atos praticamente completos. Ocorre que, por motivos pessoais, escrever o Ato III se tornou uma tarefa dolorosa. Assim, não o concluí.
Trata-se de um romance psicológico e quase uma corrupção do gênero romance de formação.
Desde já, fiquem com o texto na íntegra.
St. Nero, 11/01/2026
PRÓLOGO - Uma noite na rua
Ao compasso de meu coturno que martela a
calçada acidentada, meu pensamento se alinha com a estética de meu entorno. Os
muros são irregulares, as casas não obedecem a nenhum padrão matemático, e as
pessoas se reúnem em botecos mal distribuídos. O cinza do concreto é a cor
predominante daqui. Vindo dos bares, músicas descompassadas entre si se
misturam. Elas falam do trivial: bebidas, relacionamento e festas. Os
repetitivos nos que eu passei nesta cidade comprovam um fato: este lugar está
travado no tempo.
Os livros, músicas e filmes que consumi
durante toda a minha vida prometiam um mundo encantado, não necessariamente
bom, mas interessante o suficiente para que alguém desejasse sofrer nele, tal
qual um ator que interpreta um personagem tão odiável quanto Judas apenas pelo
prazer de estar no palco. Essa promessa deixou para trás um aborto, fruto do
sexo entre meus ideais estéticos sofisticados e o lugar remendado em que eu
vivo. Seria melhor que tais amantes jamais houvessem se conhecido.
Eu não queria estar aqui, é verdade, mas eu
faço parte deste lugar, eu sou como este lugar. Eu também sou desarmônico,
remendado e travado no tempo, não consegui evoluir. Embora eu tenha plena
consciência disso, meu orgulho me sugere que eu deva ser um espectador crítico
desta tragédia, não mais um figurante dela, como o são todos esses homens que
se entregam às diversões mundanas daqui.
Estou quase no fim da caminhada. Não há
muito aonde ir fisicamente aqui, então a verdadeira caminhada sempre se dá no
fluxo de meus pensamentos. A saída do trabalho é o ponto inicial deste percurso
repleto de reflexões, e meu retorno ao lar é o fim. Tenho ciência disso e fico
angustiado. Quanto de vida eu estou perdendo por estar engaiolado neste
presídio a céu aberto? A realidade com a qual eu sonho é tão mais complexa,
harmônica e interessante. Eis o maior pecado que qualquer lugar ou pessoa pode
ter: ser desinteressante. Os gregos tinham noção disso, então em seus mitos a
humanidade era interessante o suficiente para despertar a atenção dos deuses,
que, por alguns momentos, deixavam de ser os mais elevados para cederem os
holofotes a nós. Hoje perdemos isso, e as pessoas se entorpecem com bebidas,
religião, sexo casual, roupas e objetos de moda, porque somente a neblina
mental que os vícios criam é capaz de mascarar a face torta de um mundo que
abandonou o belo.
Eu, por minha vez, me apego a uma garota.
Seu nome é Helena. Ela é uma das poucas coisas belas que eu conheço, e não o
digo apenas no sentido de aparência física. A imagem dela representa uma
redenção para toda a vida subterrânea que eu vivi neste mundo feio até hoje.
Nós trocamos mensagens há menos de uma hora enquanto eu estava prestes a sair
do trabalho. Sim, ela me alegra. A companhia dela é única, descobri outra
dimensão da existência a partir de Helena.
Já os humanos tentaram fugir do sofrimento
por milênios, mas isso se deve ao fato de não entenderem que, enquanto estavam
sofrendo, ao menos podiam se erguer num bom palco, justificados por um bom
drama, que certamente tornaria seu sofrimento interessante. Aquilo que não é
visto não existe nem merece existir, mas o que é menos visto do que o
desinteressante? Portanto, minha vida e este lugar não existem de verdade --
não há um olho interessado o bastante para testemunhar nossa situação. Há uma
história sendo escrita neste exato momento, e sequer estaremos documentados
nela.
Bem, eu pelo menos não fujo do sofrimento.
Meu coração é intenso e frágil, sei bem que pode arrebentar a qualquer hora por
causa de Helena. Mas faz parte, não faz? Devemos nos arriscar para atingir a
liberdade. Mas o que é liberdade? Liberdade é sempre liberdade diante da morte,
morte no sentido amplo. Tive que vencer inúmeros medos para me aproximar de
Helena, porém meu maior medo é o de meu coração se quebrar eventualmente.
Adoraria continuar pensando a respeito
disso, mas estou parado diante da porta de minha casa: a caminhada acabou, não
há mais espaço para divagar.
ATO I - Incipit
Tragoedia
Ok, preciso fazer um pequeno salto
temporal. Que isso não o incomode, leitor. Vou pular diversos meses no tempo
até o ponto em que me encontro hoje. Sim, muitos meses voaram desde então.
Foram alguns dos tempos mais completos, torturantes, alegres e deprimidos de
minha vida.
Não posso deixar de comentar: Helena foi
embora. Não vou explicar isso agora, seria uma impostura lançar luz sobre ela
tão cedo, mas saiba que o fantasma dela assombra cada capítulo deste livro. Sua
presença (ou ausência?) é absoluta.
O problema é que você não me conhece o
suficiente ainda, leitor, então você entenderá tudo sobre ela quando tivermos
mais intimidade.
2. Aurora
Also Sprach Zarathustra começa a tocar: é
o meu despertador, é o começo de um novo amanhecer. Não o amanhecer de um
santo, mas o meu amanhecer. Estou deitado de lado, minha bochecha está
comprimida contra meu braço esquerdo. Meu levantar de manhã tem certo tom de
heroísmo, um heroísmo trágico: acordar com o mesma certeza de que nada mudou,
nada evoluí no dia anterior e que mais um dia me aguarda -- um dia carregado de
novas possibilidades, mas eu continuo o mesmo. Estou sem camisa e vestindo uma
calça negra, olho para o teto branco enquanto espero a neblina mental abaixar
para que eu levante e comece meu dia. O crepúsculo mental de quem acaba de
acordar é como um semissonho, nele os primeiros pensamentos do dia se
embaralham com uma gama de emoções que se revolveram no seu íntimo durante a
noite. E agora eu sou todo emoções, meu coração é todo saudades, é todo
sentir-falta, é todo angústia e perda. Não raramente acordo em prantos. Minha
cama na aurora é muitas vezes o meu caixão, onde me deito para lamentar meu
próprio velório -- o tempo perdido, as pessoas que foram embora, a sensação de
que nada mudou e que, até o fim de meus dias, não encontrarei a sonhada
felicidade. Se é que existe alguma consistência existencial nos meus dias, é
que todos eles são um eterno rolar-as-pedras, até que elas deslizem ladeira
abaixo esperando ser empurradas novamente até o topo -- estou sempre tentando
acumular novos conhecimentos, novas experiências e vivências ao longo do dia,
na esperança de que enriqueçam meu ser e me sejam como ferramentas para
utilizá-las no futuro, mas todo esse acúmulo resulta inútil, tudo o que promete
preencher meu ser se revela prontamente como aquilo que é: matéria narcísica.
Essas coisas me cansam, de modo que muitas
vezes pego minha alma imersa em lassidão logo nos primeiros minutos da manhã.
Executo os procedimentos de minha higiene
pessoal, então é hora de decidir quais roupas vestir: no geral, todas as minhas
roupas são negras. Valorizo roupas que transmitam uma certa estética
alternativa à la post-punk inglês, também conto com algumas camisas de bandas
de rock, mas hoje resolvi vestir uma camisa estampada com o rosto de Nietzsche.
Creio que esse estilo consegue transmitir mais facilmente meus gostos pessoais
e o quadro da minha personalidade para as pessoas em minha volta. Afinal de
contas, quem não sonha em ser compreendido e verdadeiramente olhado por outras
pessoas? Pus meu coturno, alguns colegas até comentaram que notam em mim um
certo aumento de poder quando o coloco em meus pés.
Poder, eu gosto dessa palavra, não é bem
verdade que tudo o que existe é vontade de poder? Mas quem sabe exista algo
além do poder, penso que o amor esteja além do poder.
3. Pais e Filhos
É nos primeiros momentos da manhã que
surge o meu primeiro dilema. Meu pai tem um carro e o usa como instrumento de
trabalho, ele generosamente me oferece caronas para ir à faculdade, entretanto
opto por pegar transporte público diversas vezes. Ir confortavelmente no carro
de meu pai ou gastar dinheiro para ir em pé num ônibus? Logicamente a primeira
opção é superior, porém não sou um humano lógico, meu coração determina maior
parte de minhas ações. Vamos direto ao ponto: eu evito meus pais. Não os
detesto tampouco tenho qualquer ressentimento contra eles. Eles são humanos bem
amáveis e bem-dispostos comigo. Mas o que me move é uma rejeição interna à
imagem deles. Em poucas coisas me identifico com eles. Vivi a vida toda com
eles, embora tenha certeza de que nada eles sabem do que se passa em meu
íntimo. Parentes e familiares afetam a autoimagem do indivíduo, porque eles são
como uma paródia sua, como uma versão cômica que Deus criou só para fazer troça
de você. O primeiro medo é o de se parecer com eles. Outra coisa é meu desejo
infantil por liberdade -- cresci limitado às paredes de minha pequena casa
graças a meus pais e a suas regras morais, então subconscientemente os associei
a prisioneiros de meu espírito. Não pegar carona com meu pai é um pequeno passo
rumo à liberdade, o sacrifício do conforto e bem-estar inclusive enriquece tal
decisão.
4. No ônibus
Creio que todo homem superior necessite
provocar seus momentos de solidão e introspecção, e o transporte coletivo me
parece um tanto propício para cultivar a modalidade de solidão mais sofisticada
que existe: a solidão rodeada de muitas pessoas, como uma noite densa habitada
por estrelas.
Um doce sentimento melancólico toma meu
coração assim que pego o ônibus, pois nesse momento estou conectado com a vida
do trabalhador urbano, estou compartilhando com eles a primeira miséria do dia.
O proletariado é uma figura trágica: rostos das diversas cores, pessoas dos
diversos sexos, idades e estaturas espremidas como sardinhas e massificadas
numa lata de ferro sobre rodas. Junto deles minha melancolia adquire um caráter
social e menos fechada em mim mesmo, o que não é exatamente ruim. Quer dizer, o
post-punk inglês também não transmitia a miséria da vida massificada e mecânica
ao lado de uma profunda angústia subjetiva?
Vendo as pessoas acabadas indo para seus
empregos ruins, sinto-me mais jovem. Quando estou de pé segurando os ferros do
ônibus e ostentando minha juventude para aquela turba, sinto-me superior: de
repente, alguma coisa mudou, algum progresso fiz ao longo desses anos
acumulando conhecimentos e experiências. Não sou como eles, eu sou a promessa
de um futuro melhor. Sou até mesmo melhor que eles.
5. Ainda no
ônibus
Mas eu ainda não contei o resto da
experiência no ônibus. Meu caminho para a universidade pode ser desnovelado em
diversos aspectos, assim como todo pequeno fato do cotidiano. Aliás, não é essa
a beleza narrativa da vida? Tudo é complexo, tem multiníveis e n-dimensões,
especialmente os menores acontecimentos. Adquirindo um conhecimento novo hoje,
você pode abrir seus olhos para um aspecto de sua realidade que até então não
se tinha notado.
Por muitas vezes gosto de ouvir boa música
e ler um livro no transporte público. Ponho a mochila em minha barriga e apoio
o livro nela: a mochila me confere uma sensação de aconchego e cobertura, o
livro me oferece a sensação de estar conversando com um amigo querido. Sim,
livros são grandes amigos, especialmente aquela obra que você leva para todo
canto. As pessoas deveriam fazer mais isto: selecionar um único texto
específico para ser lido em momentos do dia-a-dia que não deveriam ser de
leitura, isso dá ao ato de ler uma certa transgressão, e a conexão com o amigo
livro ganha um caráter mais intimista. Estamos todos desesperados por conexão
com o outro e para sair de nosso narcisismo. Muitas vezes, nosso amigo impresso
ou em formato digital é nossa melhor válvula de escape para sentir o sabor de
um laço íntimo. Não existe nada mais íntimo do que abandonar suas ideias para
mergulhar nas ideias de outro alguém. Não existe amor sem a vontade infinita de
nadar para sempre na consciência do outro. A companhia de um livro -- ou de um
alguém especial, seja como for -- dá a seu dia fragmentado uma unidade, pois,
não importa quais pequenas contingências se abatam sobre você, o outro sempre
estará lá o esperando, e você estará lá para compartilhar seu tempo com ele.
O ônibus é como a jornada rumo à
liberdade, o livro é a sonhada companhia que estará consigo durante os
percalços de sua aventura. Confesso que às vezes me pergunto se não é a
companhia o mais importante e não a jornada, mas quem ainda hoje tem coração
para sentir isso?
6. Na
universidade
Enfim na universidade. Antes eu costumava
a chegar sempre atrasado para as aulas, nunca confiei em pessoas dando aulas,
acredito que a via do conhecimento seja quase sempre autodidata. Este costume
mudou radicalmente quando conheci Helena, frequentemente sou o primeiro a
chegar desde então, e hoje não é diferente. Meu amigo da vez é A Gaia Ciência,
então fico sentado numa sala o lendo até que meus colegas apareçam e comecemos
a socializar.
No geral, as pessoas daqui são
progressistas. A meu modo, posso ser considerado um conservador em minha vida
privada. Prezo bastante pela ideia de família, mas às vezes me julgo meio
patético para carregar valores tão nobres -- é como se eu estivesse tornando
feia uma causa tão bela. Assim, o progressismo me incomoda profundamente, mas
chega um momento na vida em que você tem que abrir mão de seu orgulho e se
esforçar para enxergar humanos além de futilidades como opinião política. Esses
colegas me consideram seu amigo de verdade, andamos juntos na maior parte do
tempo. Eles conhecem mais ou menos meu posicionamento e aceitam-no, embora eu
tenha que podar bastante minhas opiniões diante deles. Quando resolvi me
aproximar deles há um pouco mais de um ano, foi um passo que eu dei para tentar
sair de meu eu-narcísico e me aproximar da normalidade das massas.
Chegam minhas primeiras colegas e um
rapaz.
-- "Ah, vocês viram o acidente na
Brasil?"
-- "Aposto que essa aí tem um caso
com o professor"
-- "Gente, o novo álbum da Taylor Swift..."
Em regra, nossos assuntos eram banais e
pequenos. Entrementes, eu fazia pequenos gracejos e gestos que arrancavam
risadas de quase todos os presentes. Eu sou um palhaço, e as pessoas reconhecem
isso.
Alguns minutos se passam, então chega
Helena. Ela costuma a conversar cordialmente comigo nesses momentos e parece se
entreter com minhas pilhérias. Isso me surpreendeu de primeira, afinal pensei
que ela estivesse decidida a nunca mais se aproximar de mim.
Ela está de frente para mim, não fito seus
olhos e nem lhe dirijo a palavra diretamente, então tudo o que eu falo é para
todos os colegas ouvirem, mas no fundo eu sei que todas as minhas palavras são
para ela. Se ao menos eu pudesse perguntar-lhe como ela está, como foi sua
semana, o que ela tem feito... mas não, meu último gesto de amor foi decidir
nunca mais incomodá-la. Qual não é minha felicidade quando ela interage comigo
nessas pequenas conversas! Estar com ela ali, na minha frente, é um momento
especial.
Assim se dava até que a primeira aula
começasse.
E se
eu revelasse que eu não gosto de nenhum dos assuntos banais? Se por um momento
eu abaixasse a máscara de brincalhão, como estranhariam minha profunda
melancolia. Mas não se tem coração no Brasil para isso, as pessoas esperam
positividade sua o tempo todo, como se a vida não tivesse espaço para a miséria
e o desajuste. Se todos ali me dissessem um simples "eu sou infeliz",
isso me valeria muito mais do que as centenas de horas gastas conversando sobre
futilidades.
Torço pelo dia em que não precisarei mais
me entreter e socializar com as massas. A solidão perfeita exige as companhias
perfeitas: Guilherme, meu melhor amigo, é uma dessas companhias. Quis até a
última gota de minha alma que Helena também a fosse.
7. Deus está morto
Hoje é dia de fazer uma disciplina
extracurricular inútil no contraturno. O professor da vez era uma figura
excêntrica, um daqueles homens que usam ternos coloridos e gravatas estampadas.
Ele tem o costume de passar textos e documentários para que respondamos a um
questionário uma vez por semana, e eu tenho o costume de não fazer nada disso.
Pelo contrário, dedico meu tempo em suas aulas para ler grandes filósofos. No
geral, professores não se importam com o que os alunos fazem, considerando que
somos adultos, mas este quer sentir que está construindo o conhecimento com os
discentes, então constantemente tenta receber feedback da turma e provoca nossa
participação.
Sento-me no fundo da sala, enquanto à
minha direita estão meus colegas habituais das manhãs e Helena à minha
esquerda. Entra na sala uma mocinha com quem eu comecei a conversar há poucos
dias. Seu nome é Clarice, uma jovem branca de baixa estatura e óculos de lentes
fumê -- as pessoas a consideram a mulher com o corpo mais atraente de nosso
período. Como sempre, só precisei de uma gracinha aqui, outra palhaçadinha ali
e abrir o sorriso para ela ficar cativada.
Ela caminha até mim com o corpo projetado
para frente, sendo o gatilho de um abraço e uma pequena conversa até que ela se
sentasse em minha frente.
O excêntrico professor entra alguns
momentos depois, ele se senta, apronta a mesa e dá um gole em um copinho de
café. Tendo minha conversa com Clarice sido impedida neste momento, retiro de
minha mochila um livro e começo a lê-lo.
-- Você aí, fez a atividade que eu passei
na semana passada? -- pergunta ele.
-- Eu?
-- Sim, você mesmo.
-- Fiz.
-- E qual sua opinião sobre o texto? Fale
abertamente.
-- Mas não li o texto.
-- Ué, viu o documentário pelo menos?
-- Também não.
As risadas da turma sucedem minha fala, o
professor se mostra indignado.
-- Como diabos você fez a atividade então?
-- É que meu grupo fez. Eles debateram e
tudo, eu só te enviei a resposta.
O professor se levanta pesarosamente e, ao
suspirar, me diz:
-- Pode me dizer por que você não viu nada
que eu passei?
-- Na sua aula passada eu estava lendo um
livro -- mostro o texto que está em minha mão -- lembra? Acabou que eu fiquei
lendo ele esse tempo todo.
Agora as risadas dividiam espaço com olhares
de espanto. Clarice virava seu rosto para mim com uma expressão de surpresa.
-- Você vem para minha aula ficar lendo,
não faz nenhuma atividade e não presta atenção. Acha bonito isso?
-- Não -- respondo com ironia.
O professor que perambulava pela sala
enfim estacionou, era hora de fazer valer seus anos de magistério. Ele poderia
virar o jogo e conseguir produzir algo a partir daquele atrito. O desafio foi
aceito: ele precisava conquistar meu coração para aquela disciplina.
-- E por que você prefere ler Aristóteles
a ler meu conteúdo?
Tomei um tempo para pensar e ensaiar uma
resposta pudesse demonstrar minha desenvoltura retórica para os presentes.
-- Bem, é difícil explicar. Estudo
filosofia sozinho há anos, então continuo fazendo isso espontaneamente. Quanto
ao que o senhor nos passou, não me interesso na disciplina. Só estou aqui para
completar minhas horas pendentes.
-- E por que se interessar mais em
questões abstratas do que em temas que afetam seu cotidiano, jovem? -- ele não
disse isso para que eu retrucasse, apenas usou como gancho para conectar a aula
do dia com filosofia.
Assim começou a operar um enorme
solilóquio sobre o desenvolvimento do pensamento ocidental, até que chegou na
crise da modernidade.
-- Na transição da idade média para a
modernidade e com a ascensão do positivismo... -- o professor escreve
"Deus" na lousa -- um pensador importante surge. É Nietzsche. Você
aí, rapaz que gosta de filosofia, sabe o que Nietzsche diz sobre Deus?
Os olhares se voltam para mim, um leve
sorriso se desenha em meu rosto. Digo-lhes:
-- Deus está morto.
8. Clarice
Demorou um bom tempo até que o docente
terminasse a aula. Na saída, as pessoas vinham falar comigo e deixavam
comentários expressando, de certo modo, admiração pela minha enorme cara de
pau. Clarice saiu acompanhada de Helena. Ao me verem, nos cumprimentamos e a
jovem de óculos fumê me entrega outro abraço.
No dia seguinte, sentamo-nos eu, meus
colegas, Helena, Clarice e outras pessoas -- falavam da discussão entre mim e o
professor. Alguns censuravam minha conduta, mas Helena achava tudo aquilo bem
engraçado, enquanto Clarice me dizia:
-- Menino, e bem que a gente tinha falado
sobre isso antes, né?
-- Sim, é verdade -- e, dirigindo-me para
todos, eu disse -- coincidentemente, eu e Clarice estávamos falando sobre a
morte de Deus minutos antes de a aula começar.
-- mano, cuidado que agora o professor vai
ficar de olho em você -- disse um dos rapazes que estava conosco.
-- Não, não me preocupo.
-- Você tá comprando briga com o cara,
isso sim. -- disse outra pessoa.
-- E vocês pensam que eu provocariam cara
que eu nem conheço? -- perguntei com certo sarcasmo.
-- Sim, você provocaria sim. -- falou
Helena com um sorrisinho apertando suas bochechas.
Mas já era hora de a primeira aula do dia
começar. Todos foram na frente, exceto Helena, que ficou para trás conversando
comigo.
-- vamos lá com eles, certo? -- convidei-a
para ir embora com todos, eu não aguentava ficar a sós com ela.
Ela me acompanhou e tivemos uma breve
conversa sobre gatos, bebedouros e a falta de higiene no câmpus. Assisti à aula
por alguns minutos, quando decidi tomar água e notei que tinha esquecido a
garrafa em casa. Resolvi então ir para uma das cantinas comprar alguma bebida.
O dia estava especialmente ensolarado, e o
clima era ameno. Clarice estava do lado de fora também, ela não tinha ido para
a sala conosco conforme eu tinha imaginado. Na verdade, estava com suas amigas,
umas criaturinhas insuportáveis que sempre rodearam Helena. Eu não teria
desviado meu caminho para ir falar com ela se ela não tivesse me acenado a uns
trinta metros de distância, no meio de todas, para chamar minha atenção.
-- e aí, tranquila? -- cumprimentamo-nos
novamente com um abraço.
-- Pensei que você tivesse ido para a
aula.
-- Só vim comprar uma bebida mesmo.
As garotas estranharam um pouco, nunca
tinham visto eu e Clarice juntos. Sucedeu-se uma pequena conversa entre nós
todos, e arranquei risadas de todas. Ela aproveitou para contar-lhes o episódio
do dia anterior em alguns minutos.
-- Eu fiquei pensando bastante nas coisas
que você me disse ontem. -- confessou-me Clarice.
-- Sobre Deus?
-- Não só isso, mas no sentido geral mesmo
das coisas, sabe? Eu costumava a ser cristã, mas algumas coisas me afastaram
mesmo, como a questão de não poder usar certas roupas para não "induzir
homens ao pecado".
-- Olha só, uma umbandista que foi cristã.
-- E agora até a umbanda tem ficado
difícil para mim. Quer dizer, é exigida de mim uma fé que eu não tenho, não
consigo ter. É como se as coisas não tivessem tanto sentido, entende? Às vezes
vejo bastante coisa de astronomia, e, cara, a gente é muito pequeno. Se outros
universos existissem, será que nós existiríamos? É complicado.
-- Quem sabe. Teve outros motivos para
você largar o cristianismo?
-- Sim... algo sempre me incomodou nessa
religião: a falta de justiça. Deus nunca pune. Vê lá o Guilherme de Pádua, o
cara matou a menina jovem, virou pastor e morreu com um infarto. Cadê a
justiça? Não suporto pensar nisso.
-- E por que a umbanda?
-- Eu preciso disso, eu não quero viver
uma vida vazia e sem sentido. Como você consegue? Eu quero que exista alguma
coisa por que me mover, do contrário por que estamos aqui? -- ela respondeu com
certo desespero.
Era
como se Clarice estivesse segurando um fio de corda para não despencar no
abismo. Notando a intensidade da conversa, ela resolveu pisar no freio
subitamente perguntando:
-- Já viu Interstellar? Tem uma parte que
o cara se aproxima do horizonte de eventos e entra em contato com ele mesmo do
passado. Fico me perguntando se não existem lugares no nosso universo assim
também, com o tempo não sendo linear: sem passado, presente e futuro. Você é
bem inteligente, deve saber bastante dessas coisas.
--
Deve ser louco, me lembra até algo da filosofia.
-- Mesmo?
-- Mesmo.
Um breve silêncio se impôs entre nós, eu
não queria perder o assunto anterior para falar de filmes. Ao redor, as meninas
já tinham se dispersado.
-- Olha, Clarice, eu tenho algo a dizer
sobre tudo isso que falamos...
Sentada, Clarice estava completamente
atenta ao que eu iria lhe falar, de pé e de costas para ela.
-- Você entende o contexto histórico de
Deus estar morto, entende até as origens filosóficas, mas é necessário ir além
e sentir isso existencialmente. Clarice, a vida não tem sentido, nada tem.
Estamos abandonados no universo. Somos animais que um dia inventaram o
significado através da linguagem, mas parece que o significado morreu antes
mesmo das palavras. Não existe justiça no universo porque ela foi construída
por nós.
Ela estava absorta em meu discurso, um
tanto encantada.
-- Passado, presente, futuro... --
prossegui -- Tudo é matéria, o universo está rolando os dados com a matéria
limitada que existe. E tudo está fadado a se repetir. Eu e você já tivemos essa
conversa infinitas vezes, e a teremos infinitas vezes mais. Não existe um
propósito para nada disso, só existe uma ordem. A vida é uma ordem. Tudo o que
existe está condenado a se repetir eternamente, nós estamos condenados a viver
tudo isso sem nenhuma âncora, nenhum apoio para nossa angústia e ausência de
significado. Justiça seria uma petição de igualdade, mas estamos mergulhados
numa sopa de desequilíbrio de forças. Enquanto houver vida, vai haver opressão.
Será como é e sempre foi, de novo e para sempre.
Virei-me para ver seu rosto, ela estava
atônita.
-- Já deu a minha hora. Preciso mesmo ir
comprar uma bebida.
9. O desprezo das
massas
É outro dia. Estou na universidade sentado
na cantina com A Gaia Ciência em mãos, assim aguardo o tempo passar até que a
próxima disciplina se inicie. Nietzsche, meu amigo que tem me acompanhado há
anos. As pessoas não o entendem nem em coração, então não o podem compreender
em pensamento. E quem ainda sente no peito o desprezo das massas?
Em todas as instituições que eu noto,
sempre há massas. As massas do ônibus, as massas da universidade, as massas das
escolas, as massas das igrejas... iguais, todos iguais. Por algum tempo pensei
que minha solidão narcísica pudesse encontrar seu remédio no calor das massas,
mas logo aprendi uma coisa: as multidões são frias. A leva não pode oferecer
acalento ao indivíduo. Vez ou outra me pego imerso de ódio contra as massas,
especialmente porque elas são profanas -- não me interprete como um clérigo
moralista ou algo assim, para mim profano é rebaixar algo de sua sacralidade, e
o coletivo só pode tocar em algo quando este deixa de ser sagrado. As boas
artes, o amor e os bons pensadores são sagrados, a horda nunca pode verdadeiramente
tocá-los, então ela cria suas versões inferiores. Mozart é substituído por
artes decadentes como o funk, trap e sertanejo; o amor cede lugar ao hedonismo
e ao consumismo rápido de humanos; os bons pensadores são editados e absorvidos
do jeito mais humanista possível para o gosto moderno. No entanto, evito me
prender no ódio contra a turba e detenho-me somente no desprezo.
Não se torna um indivíduo antimassas,
nasce-se. Quem não tem o pathos do desprezo jamais o entenderá, tampouco quero
ensiná-lo a alguém. Os grandes gênios da humanidade nasceram com isso, a
solidão parece ser a tendência dos maiores humanos. Nietzsche, Goethe,
Dostoiévski e Dazai foram solitários, eu sou solitário, talvez você o seja
também, leitor. Dito isso, não quero santificar a solidão ou fingir que ela é
melhor do que realmente é. A solidão pode levar ao narcisismo, o narcisismo é
sempre ruim. Almas presas no narcisismo estão com frio o tempo todo. Faço votos
para que encontremos o calor.
10. Maria
Madalena da Universidade
Alguém decide se sentar à minha esquerda,
deito meu livro sobre a mesa e noto que é Clara, uma colega de curso. Ela é uma
figura carimbada, uma das poucas conservadoras da faculdade, o que gera
desconfiança nas outras pessoas. Conversamos algumas vezes, em especial sobre
política. Eu não a detesto, mas não consigo lhe tecer tantos elogios. No geral,
é uma moça pedante, proselitista e pouco doce.
É
inverno, então não está quente embora o sol esteja especialmente luminoso
agora. A luz do sol contrasta com seus cabelos loiros e lhe dão um aspecto
sublime. Ela me cumprimenta e prontamente abre seu notebook, diz algo sobre o
quão atarefada está com o trabalho e outras chatices de universitários com
síndrome de adultinhos maduros. Tivemos uma pequena conversa à la elevadores
corporativos, o que é um grande exercício de simpatia para pessoas
introvertidas como eu.
Finda a pequena conversa, abro novamente A
Gaia Ciência. Ela, que estava vidrada na tela do notebook, olha de canto e
percebe que meu livro é de Nietzsche.
-- "Nietzsche... esse homem era
louco" -- diz com um pequeno riso de deboche
-- "É, era sim" -- respondi como
quem não queria conversar sobre, e realmente não queria.
Para meu conforto, o silêncio novamente se
estabelece entre nós. Eu bem gosto de conversar com as pessoas sobre filosofia,
mas eu não estava a fim de entrar numa dicussão acalorada. Noto que Helena está
na mesa imediatamente ao lado da minha.
-- "Me diz, você concorda com
ele?" -- Clara retoma o assunto, mas desta vez continua concentrada na
planilha idiota na qual ela estava mexendo esse tempo todo
-- "Sim, posso dizer que concordo com
absolutamente tudo."
-- "Então você acredita que Deus não
existe?"
Ela me pegou, não saio por aí discutindo
meu ateísmo, em especial com pessoas com que eu não desejo tanta proximidade.
Curiosamente, já tive a mesma conversa com Helena algumas vezes nesta mesma
cantina. Parece ser minha sina debater com mulheres em vez de ter um encontro
normal, o que não deixa de ser engraçado.
-- "Sou sim. E você é protestante,
não é?" -- Tentei jogar a bola para ela, não queria me tornar o centro do
assunto.
-- "É claro... mas vem cá, por que
você não acredita em Deus? Quer dizer, deve ser bem triste ser niilista."
Meu estratagema não deu certo, ela voltou
a falar sobre mim. Aliás, me incomodou ela ter associado Nietzsche ao niilismo,
mas é um erro comum de quem nunca o leu.
-- "hm, é uma resposta complicada,
mas posso dizer que abandonei o cristianismo quando percebi que Deus nunca agiu
em minha vida. O ateísmo veio posteriormente com o estudo da filosofia."
-- "Como pode não enxergar Deus em
tudo? Seu ateísmo foi influenciado por um homem que escrevia enquanto
louco." -- era de fato uma falácia, porém eu não estava disposto a desfazê-la.
-- "É, acho que sim... mas por que
você é cristã?"
Nessa hora eu percebo que estávamos
chamando atenção, algumas pessoas prestavam atenção na expectativa de
assistirem a um bom debate. A hipótese de Helena estar ouvindo me atravessou
também.
Clara então começou a me citar uma dezena
de fatos sobre a história da igreja, mencionou as diversas seitas heréticas que
se assemelhavam às minhas ideias, fez algumas alusões a C. S. Lewis e assim
tomou curso um longo debate sobre fé. Ao fim do debate, as pessoas em volta nem
disfarçavam mais que estavam ouvindo e assimilando cada palavra dita ali. Foi
uma conversa chata e incômoda, não quis fazer nenhum ataque às crenças dela. Eu
não sou o tipo de homem que rouba o deus dos outros, não quero impor minhas
ideias a ninguém. Por seu turno, ela parecia bem disposta a me destruir a cada
frase.
Talvez eu estivesse ali enquanto um humano
buscando conexão, enquanto ela estava como um predador ansiando por massacrar
sua presa. Ela venceu.
Quando eu tinha essas conversas com
Helena, ela nunca tentava me vencer ou algo assim. Sinto saudades de ouvir seus
pontos e ser escutado por ela. Se é que ela ouviu o debate, espero que tenha
sido com certa nostalgia.
11. Beatriz
Apanhei meu livro e levantei-me da mesa.
-- mas já? Fique mais um pouco --
protestou Clara.
-- não é nada, é só que deu meu tempo.
-- a aula começa daqui a alguns minutos,
nós ainda podemos...
-- desculpe, eu realmente preciso ir.
-- Bem, no final é tudo sobre escolher
crer ou não crer, não é?
-- E quem tem o poder de escolher alguma
coisa, Clara?
Assim me dirigi para a sala de aula. Era
um lugar úmido num pavilhão velho e mal-iluminado da universidade, alguns
alunos já estavam dispondo as cadeiras em formato de círculo, na maior moda
freireana de círculos de cultura.
No momento em que passei pela porta, vi
uma série de rostos conhecidos dos mais variados períodos do curso. Dentre eles
estava o de Beatriz, que logo recebeu meu olhar com um gentil sorriso e
sinalizou para mim com um aceno efusivo. Beatriz era uma daquelas moças que
realmente têm estima por você, a tal ponto que qualquer possibilidade romântica
fora prontamente desbancada por uma amizade quase fraterna. De pele clara e
cabelos loiros ondulados, era dramaticamente menor que eu, e estava dois
períodos na minha frente. Ela adorava ser prestativa com os amigos, também
gostava de joguinhos como Genshin Impact.
-- Chegou cedo, filha -- disse eu
cumprimentando-a e tomando lugar à sua esquerda.
-- então, já pensou no que vamos fazer no
seu aniversário?
-- hm, mais ou menos, quero consultar o
pessoal antes.
-- amigo, é seu aniversário, vamos para
onde você quiser.
-- eu queria algo mais agitado, só que o
perfil de vocês é, hm, meio...
-- meio...?
-- ...quadradinho, eu acho. Quer dizer, o
pessoal é meio corporativo e tudo, não quero levar vocês pr'um lugar doidão.
-- às vezes você pensa demais, sabia?
Passados alguns minutos, o relógio marcou
13:00h, e a professora pontualmente chegou. O lero-lero da vez era sobre o
histórico de formação de milícias no estado. Era uma daquelas aulas para que as
pessoas só vão para bater a carga horária do curso, poucos alunos não
abandonavam a sala após a professora computar nossa presença.
Depois de quase uma hora, Beatriz me
sussurrou:
-- ei, vamos chamar o uber logo.
Abaixei A Gaia Ciência, que eu tinha
tornado a ler desde o início da aula, e respondi:
--
vamos, não quero me atrasar.
A professora estava silente prestando
atenção na apresentação de alguns alunos que debatiam o tema do dia. Clara, que
se atrasara alguns minutos, criticava duramente as leis que podavam o poder de
a polícia intervir severamente na situação. Ao levantar, aproximei-me do ouvido
da professora e lhe disse:
-- professora, preciso sair mais cedo
hoje, tenho que fazer a prova da autoescola.
-- certo.
-- a senhora se importa de registrar nossa
presença mesmo assim? Beatriz vem comigo.
-- Não se preocupe, boa prova.
Sinalizei para Beatriz, que logo deixou
seu assento e me acompanhou.
Não levou muito tempo até que chegássemos
no local de prova. Beatriz ficaria me esperando até que eu terminasse a prova.
-- mas faça com calma, ok? Não precisa ter
pressa, vou ficar vendo algums roupas e maquiagens enquanto isso.
-- eu tô sempre tranquilo.
Sim, eu estava me sentindo seguro para a
prova, não porque eu tivesse qualquer conhecimento sobre trânsito ou algo
assim. Na verdade, eu nunca prestei atenção nem por um instante nas aulas da
autoescola, eu passava o tempo todo lendo algo de meu interesse durante as
lições. Meu trunfo era meu celular, eu iria usá-lo para consultar as respostas
da prova.
Durante a prova, minhas mãos começaram a
suar em bicas e tremer levemente. A bem da verdade, sou mais frouxo do que
gosto de aparentar. Esses pequenos desvios me deixam nervoso, não gosto de
andar fora da linha. Mas não importava, a cola tinha sido um sucesso, fui
aprovado com a pontuação máxima do exame.
Na saída, Beatriz estava com duas sacolas
de roupa. Havia itens como uma máscara de olho, uma capa amarela, um collant
vermelho e uma camisa verde.
-- como foi?
-- Bem. Gabaritei a prova.
-- pô, aí sim! Sua inteligência me
impressiona -- ingenuamente disse Beatriz enquanto batia palmas.
-- Então, já comprou o que queria?
-- Preciso de cosméticos ainda, vamos lá,
seja educado e me ajude a carregar estas bolsas.
12. Na loja de
cosméticos
Era um ambiente bastante iluminado, o chão
era de mármore, e o lugar exalava um cheiro bem doce. Eu nunca tinha entrado
numa loja de maquiagens antes, embora sempre tivesse tido curiosidade para
saber como funciona.
Beatriz estava agachada testando alguns
pequenos pincéis no punho.
-- Que é isso, Beatriz?
-- é um corretivo, oras.
-- serve para quê?
-- é para camuflar algumas imperfeições e
contornar o rosto.
Passei os olhos pelas prateleiras e fui
tomando nota mentalmente de cada um daqueles produtos, e sempre questionava a
Beatriz a utilidade deles.
-- e isso, Beatriz?
-- isso é um selador, serve para manter a
maquiagem no rosto por mais tempo.
-- e aqueles ali? -- apontava para uma
fileira de frascos cheios de líquidos padronizados por cores de pele.
-- são bases, elas servem para uniformizar
a pele. Mas, cá entre nós, por que você quer tanto saber essas coisas? Daqui a pouco
você deve estar usando também.
Feitas as compras, tomamos o caminho para
o ponto de ônibus. Durante a caminhada, não pude deixar de lhe perguntar:
-- Eu quero saber algo. Se você fosse
presentear alguém com uns cosméticos, você teria comprado nessa loja? Quer
dizer, os produtos dela são decentes?
-- Bem, se eu recebesse esses cosméticos,
teria ficado feliz. São de boa qualidade, não são vagabundos, não. Acho que
agora estou começando a entender, você quer presentear alguma mulher, não quer?
-- Não, não é isso -- acanhei-me um pouco
-- você sabe que não.
-- amigo -- tomou uma pausa para puxar o
ar -- é sobre ela ainda?
Retribuí com o silêncio, meu olhar se
perdia no piso. Os pesnamentos assaltavam minha mente e paralisavam minhas
respostas.
-- mas não fica com essa cara -- disse
Beatriz, com certa exultação me dando um tapa nas costas -- se você não estiver
com pressa, vou te mostrar outras boas lojas, tá bom?
A gentileza dela me resgatou, meu ânimo
foi devolvido e saímos da rota original para irmos conhecer outras lojas de
cosméticos mais.
-- são para o halloween. -- disse Beatriz.
-- ahn, o quê? -- indaguei um tanto
perdido.
-- as roupas que eu comprei. Já que você
não me perguntou, vou usar elas no halloween. Vou de Robin, você deveria ir de
Batman.
É verdade, eu não tinha comentado nada
sobre as roupas. Eu estava tão imerso em meus próprios assuntos que eu não me
dispus a questionar o motivo daquelas peças tão estranhas.
13. A Ópera de
Dionísio contra O Crucificado.
Dentro do ônibus de volta para casa, tomei
meu assento no banco da roda esquerda. Estava prestes a reabrir A Gaia Ciência
quando senti uma vibração no bolso de minha calça: era Guilherme, melhor que
qualquer livro, me mandando mensagem.
-- E aí, mano, foi bem na prova?
-- Lógico. Foi easy demais, todas as
respostas estavam na internet.
-- Divino.
O suor de outrora já secara sobre a palma
de minhas mãos, meus dedos deslizavam habilmente pela tela do aparelho.
-- mano, como vai ser teu aniversário?
-- sei lá, velho, faço a menor ideia.
Tipo, eu nem tava querendo fazer nada, só decidi organizar porque meus colegas
deram a sugestão.
No instante que eu enviei a mensagem, um
pregador protestante passou pela catraca do veículo. Seu objetivo era fazer uma
breve pregação e angariar fundos dos passageiros para sua igreja. Ele vestia
uma camisa social branca por dentro das calças pretas, sob o braço direito
havia uma bíblia grande com capa de couro.
-- Eles gostam de mim, sei disso. Tenho
que ser recíproco, né? Se não fosse por isso, eu não iria comemorar nada.
-- Você tem que fazer o que você quer. O
que você quer de verdade?
-- Eu gostaria de extravasar o abismo que
estou vivendo, mas com certeza eles iriam se assustar e não iriam gostar. Eu
queria fazer algo bem doidão.
-- Uma orgia dionisíaca.
Nesse momento, o pastor, suado, anuncia
sua pregação. A voz do pastor e as mensagens de Guilherme se cruzavam em minha
cabeça.
PASTOR:
Meus pequenos amados em Cristo
irmãos.
Tende tempo para a palavra de Deus
E doações que venham a minhas mãos?
GUILHERME:
Não se preocupe, meu amigo
Você mesmo me fez aprender
Que absolutamente tudo aquilo
Que existe, merece perecer.
PASTOR:
Sede vós com os outros amáveis
É o principal mandamento
Torna as coisas mais fáceis
E evita o eterno tormento.
GUILHERME:
Toda firmeza de caráter irá ceder
Às primeiras tentações da carne
Como noite diante do alvorecer
Portanto, da orgia toma parte.
Irmão, faze-os conhecer a tua dor
Que o álcool encha suas bocas
Que os corpos se agitem em calor
Enche de gozo suas almas ocas
PASTOR:
Negai a voz do diabo, o tentador
Sede vós maiores que vossa corrupta
vontade
É pior conhecer do inferno o calor
Do que no céu entrar vossa alma pela
metade
GUILHERME:
Seus colegas atuais são folhas de
verão
Você os conquistou, é verdade
Mas, quando vier o outono, eles
sumirão
Portanto, imponha sua vontade.
O conflito da Vontade de poder
contra o amor
Da vida vivemos só uma parte
Vive melhor quem aceita seu demônio
interior
Faça da vida uma obra de arte.
PASTOR:
Para o jovem, criança ou senhora
Aceitem Jesus enquanto há tempo
Pois a morte vem a qualquer hora
A vida é poeira soprada ao vento
GUILHERME:
Abandona a melancolia e a depressão
Teu isolamento me dá o indício,
Em uma miserável e mesquinha visão,
De que flertaste com suicídio.
Helena, uma Julieta que deixou Romeu
Em mim nunca houve engano
Foi o egoísmo dela, assim penso eu
Que provocou teu abandono
A ideia de você tirar a própria vida
--
Tal imagem me assombra de verdade
Sua solidão testemunha sua descida.
PASTOR:
Fazei vós também obras de caridade
É por seu dinheiro que anseio
Para aos trabalhos dar continuidade
Só saio daqui de bolso cheio
Assim o pastor pega uns trocados e vai-se
embora. Essa ópera bagunçou minha cabeça, sinto-me atordoado. O ônibus chega em
meu ponto, então me levanto e puxo a corda de apito do ônibus. Droga, o que
fazer? Nada importa, não há mais tempo para lamentos. Passei semanas chorando
amargamente de raiva e saudades. Já estou no inferno, eu devo ir até o fim
dele.
14. Em casa
Estou sentado na poltrona da sala, preciso
planejar meu aniversário. O mais seguro é reunir todos os colegas numa
pizzaria, nada alucinante acontece nesses lugares, e as pessoas se sentem mais
aclimatadas como se estivessem em família, mas eu ainda posso arriscar. Todos
os aniversários que comemorei até hoje foram um fracasso -- sempre punha neles
a expectativa de ser o meu dia, de a minha vontade ser feita e ficar
demonstrado que, por pelo menos num dia do ano, eu era incondicionalmente
amado; entretanto, as coisas nunca se sucederam de tal modo. Os convidados
sempre costumavam a atropelar minha vontade e a fazer do meu dia um banquete no
qual minha alma era o prato principal.
E um bar? Nesse lugar eu poderia levar as
pessoas para o meu mundo. Todos estariam atordoados pela música alta, completamente
embriagados e com a visão obscurecida pela baixa luminosidade do local. Por uma
vez na vida, os convidados seriam os pratos de minha ceia, eu e Guilherme
seríamos como Dionísio ante as bacantes. Só que isso seria arriscado, os
convidados poderiam se espantar e me abandonar no meu dia.
E se eu consultasse a opinião dos
convidados? Poderíamos acertar o local, mas seria uma demonstração pessoal de
abaixar a cabeça, o que me traz desonra. Não, que seja, não vai ferir minha
dignidade consultá-los -- afinal de contas, foram eles que me sugeriram
reiteradas vezes que eu marcasse algo com eles. Num grupo online, mando uma
mensagem.
-- Galera, tô pensando em fazer algo na
pizzaria, quem sabe passar num barzinho próximo depois. Ocorrerá à noite.
Uma longa discussão se desdobrou. Por um
lado, alguns colegas queriam ir à tarde, outros queriam que fosse apenas na
pizzaria, outros queriam o bar. Pressenti o terror de ver minha vontade ser
menosprezada novamente, após anos sem comemorar meu aniversário. Um rapaz até
insinuou que não iria porque queria ver um reles jogo de futebol.
É Beatriz quem manda uma sequência de
mensagens pondo fim à discussão:
-- A festa é não é nossa, é ele quem
decide; meu amigo, o que você quer fazer de verdade?
Não pude deixar de me sentir espantado ao
ver que alguém, sem que eu precisasse lutar, me colocando em primeiro lugar. A
essa altura, eu estava resoluto em levar todos ao bar, mas a doçura de Beatriz
balançou minha escolha. O amor fraternal de Beatriz conteve parte de meu espírito
marcial e dionisíaco.
-- Vamos para os dois. Primeiro comeremos
na pizzaria, então ficaremos até de madrugada num bar próximo, o
"Diretório". -- decidi enfim.
ATO II - Que as festas
dionisíacas comecem!
Você já quer saber sobre a história de
Helena? É verdade que você já conhece bastante meus pensamentos e temos certa
intimidade. Mas não, ainda não é hora. Você vai descer para o inferno comigo.
Chega de reflexões, vamos à destruição.
XX. Revolução
Francesa
A lâmpada giratória projetava cristais
multicoloridos nas paredes pretas. Eu tomava um copo vermelho de plástico das
mãos de uma mulher raquítica: adeus, enjoada, estou mandando mais uma dose para
dentro. Está difícil me manter equilibrado, sinto um forte gosto de fumaça na boca,
e minha camisa social branca está parte dentro da calça, parte fora dela.
A moça de quem eu pegava a bebida estava
fantasiada de Maria Antonieta, mas era minha cabeça estava fora do lugar
naquela noite. Seu rosto tingido por uma maquiagem pálida assumia contornos
estranhos e era rabiscado pelas luzes projetadas do alto.
Um bobo da corte carmesim, sujeito alto e
esguio, me fitava e gargalhava. Seu rosto era sombrio e seus olhos pareciam
emitir uma luz vermelha. As paredes se ampliavam mais.
-- Seu nome?
-- Que te interessa meu nome? Eu sou deus.
Sentia que estava virando uma curva a
cento e vinte por hora, um rapaz vestido de caipira e de sorriso gentil mexia
no telefone ao meu lado, e aquele maldito bufão não parava de rir. A batida da
música crescia, parecia que eu já tinha escutado umas cem músicas diferentes
enquanto virava a curva. Na verdade, estava afundando no sofá, e a rainha da
França estava com a cabeça no chão. Os aristocratas para os postes, os
aristocratas que enforcaremos. O som da festa entrou em seu clímax, era hora de
levantar e inquirir aquele palhaço folgazão.
-- Bobo imbecil, do que está rindo?
-- Você não é deus, por acaso?
-- Besteira, vamos fazer revolução. --
apertei bem os olhos, um feixe azul me cegara.
-- Não vê que Maria Antonieta já perdeu a
cabeça?!
O miserável não entendia mesmo, penso que
aquelas roupas rubras serviriam mais em mim do que nele. Meu estômago começava
a se revirar, minha boca se ensopava de água. Cobri os lábios com a mão
direita, mas logo a barragem cedeu diante da correnteza de vômito que corria
como um tsunami em minha boca.
-- Doente, vê só o que fizeste com meu
traje!
Eu tinha que sair dali, não é bom irritar
bobos da corte por aí. Que belas paredes essas, sim. As pessoas carregavam
Maria Antonieta enquanto meu adversário ralhava comigo. No sofá, prontamente
encaixei meus fones intra-auriculares nas orelhas -- não precisava de mais nada
além de Jigsaw Falling Into Place. O rapaz com roupas de caipira tinha me
ajudado a destravar meu celular. A esse ponto, minha camisa já estava
encharcada por uma mistura ácida e quente de álcool com outras porcarias no
meio.
Minha boca estava escancarada, meu olhar
distante se perdia nas figuras projetadas nas paredes.
-- Meu amigo, eu não devia estar aqui,
isso é um erro.
-- Relaxa aí, rapaz -- tranquilizava-me o
gentil caipira.
-- Me escuta, eu acho que vou ligar para
ela. Eu deveria estar em call com ela agora, talvez jogando um jogo. Nós
gostamos muito de jogos indies.
-- Você está mal.
Os versos "she looks back, you look
back" me ancoravam em doces memórias.
-- Quer dizer, ela gosta mais do que eu.
Eu não gosto de jogos eletrônicos.
Novamente um raio de luz da lâmpada
giratória me cortava as vistas, meus olhos estavam vidrados naquele globo tão
epilético.
O bobo estava de volta, dessa vez eu podia
ver melhor seu rosto. Era um homem de pele clara, queixo curto e boca larga.
Ele dizia:
-- Muito bem, a festa acabou. Saiam
depressa.
-- Me deixa aqui, bufão.
-- Não entendeu? -- ele me agarra pelo
colarinho da camisa.
-- Meus fones... você fez meus fones
caírem.
-- Tome seus fones -- ele os enrolava com
presteza e os enfiava em meu bolso -- suma!
Quando acordei, notei que estava na casa
de Beatriz, deitado em seu sofá e coberto com uma manta verde. Notei que eu
vestia uma camisa com estampa feminina. Peguei meu celular para ver as horas,
era quase meio-dia, Jigsaw Falling Into Place continuava sendo tocada.
XX. São João
Confesso que não estava caracterizado para
a festa de São João, pus um boné branco, roupas negras e um tênis sem marca.
Fiquei por um tempo passeando pela paróquia e conhecendo cada barraquinha. A
primeira que me chamou a atenção era uma que vendia caipirinha. Outra vendia
petiscos bem gordurosos, e a fila para o milho estava lotada. Não havia nada
como uma barraca do beijo, talvez esse costume esteja longe dos padrões éticos,
ou mesmo higiênicos, de hoje em dia. Atrás das barracas, havia um enorme espaço
circulado por algumas mesas. Os fiéis se acomodavam nelas para aguardar a dança
que ocorreria em breve. Havia diversas crianças correndo, e seus pais
reclamavam para que se comportassem.
Álcool, é isso o que falta para essa festa
valer a pena. Pedi três caipirinhas fortes. No último copo, até o cheiro da
bebida me causava náuseas. Vi diversos casais passeando de mãos dadas, e o que
mais me chamou atenção foi o de dois jovens. A garota, que não devia ter mais
que dezenove anos, estava caracterizada de noiva, e o rapaz contava com uma
camisa xadrez e um bigode postiço. Ela tomava seu par pela mão e o apressava.
-- "Depressa, a quadrilha já vai
começar!"
Ele, que segurava uma lata de cerveja na
mão, quase derramou o líquido no vestido da noiva quando algumas crianças
esbarraram nele. Minha vista se embaralhou naquela hora, a caipirinha estava
fazendo seu efeito.
Não demoro até puxar alguns cigarros do
bolso. Eram cigarros artesanais de tabaco puro, bem melhores do que porcarias
industrializadas.
Os casais, as crianças e até mesmo alguns
idosos estavam se dirigindo ao espaço onde ocorreria a quadrilha. Quando notei,
havia uma fogueira acesa ali. O fumo derrubou minha pressão, eu tinha vontade
de sentar no chão e descansar por mil anos.
Os participantes fechavam um círculo em
volta da fogueira. As chamas crepitavam quando a brasa se desprendia da lenha,
até que alguns instrumentistas iniciaram uma levada de sanfona com batidas
intercaladas num triângulo. As pessoas deram as mãos para fechar uma roda em
volta da fogueira, então começaram a girar de acordo com a velocidade da
música. Todos se divertiam bastante e não escondiam a alegria de estar ali.
Aquela conexão humana tão cálida, mas tão simples e até mesmo ridícula
abrandava meu humor. Após algumas voltas, desfizeram o círculo e cada um tomou seu
par.
Lá estava a garota fantasiada de noiva com
seu parceiro, reconheci nele certa inexperiência para dançar, mas ela não
parecia se importar com isso, e às vezes pisava nos pés dele. Tive a impressão
de que as chamas da fogueira estavam se intensificando um pouco. Mas isso não
importava para o casal, havia neles uma expressão de realização que só se
atinge quando a felicidade é compartilhada com alguém. Não pude conter em mim
um sorriso bobo.
Debruçado sobre a barraca, contemplando
aquela cena, dei mais uma tragada no cigarro. Olhando para a fogueira
novamente, vi que ela estava com um tamanho enorme, muito além do normal. A
música estava se dessaranjando. Achei aquilo estranho e resolvi comentar com o
vendedor de caipirinha. Por mais que eu falasse com ele, ele não me respondia,
apenas ria. Ele ria cada vez mais, quando me disse:
-- "Que tal mais um copo?"
-- "Não, já bebi o suficiente por
hoje. Aí, você não me ouviu? O que está acontecendo aqui?"
A música estava completamente corrompida.
Já não havia nenhuma nota, apenas batidas frenéticas de percussões. Os
participantes já não eram mais pessoas felizes, mas sim bruxas nuas soltando
gargalhadas estridentes. O medo me paralisou completamente. Ao voltar minha
atenção para o vendedor, seu semblante era como o de um demônio.
-- "Que diabos é isso?" -- disse
a ele gaguejando.
-- "É tempo, é mais que tempo."
-- respondeu-me ele
-- "Tempo de quê?" -- perguntei
em vão.
Eu não conseguia me mexer, mas minha
vontade era de sair correndo. Algumas bruxas se lançavam na fogueira. Uma delas
gritou:
-- "Saturno, senhor do tempo, vem
devorar seus filhos!"
O vendedor com cara de diabo então me
falou:
-- "Você não vai escapar. Ninguém
nunca vai escapar. Já chegou seu tempo."
Comecei a chorar como uma criança, fiquei
completamente desesperado e amedrontado.
-- "Por que você não desaparece logo?
Que direito você tem de ter a mesma felicidade dos outros? Você ainda não
entendeu, é tempo, é mais que tempo."
Senti meu corpo balançar, o vendedor
estava com as mãos em meu ombro e seu rosto voltou a ser o de um humano. Ele me
disse:
-- "Tá tudo bem? Você tá aí parado há
um tempão. Que coisa estranha."
A fogueira estava normal, a quadrilha
chegava ao fim e três copos vazios se empilhavam em minha frente. Eu não sabia
como reagir, fiquei atônito e saí disparado sem dizer uma palavra.
ATO III - A história de Helena
Oh, eu preciso cumprir a promessa que lhe
fiz no primeiro ato. As festas foram intensas, não foram? Pois eu fiquei
devastado.
Você finalmente vai saber como tudo
começou e quem é Helena, o fantasma precisa ganhar corpo. Vamos recuar diversos
meses antes de tudo o que ocorreu até agora. E, se por um momento você se
comover, saberei que não estou sozinho neste mundo.
XX. O Gatsby
XX. A conversa a
sós
Eu precisava me aproximar dela de algum
jeito, mas como? Eu podia continuar interagindo com ela enquanto ela estivesse
entre minhas amigas, mas isso não criaria nenhum vínculo específico. Mas o medo
de abordá-la individualmente me paralisava. Ela poderia ser grossa, poderia
agir de modo cínico. E se ela me rejeitasse? Isso sim seria motivo de vergonha,
todos poderiam descobrir tal opróbrio. Não, eu não podia ser covarde. Eu já não
lhes disse que liberdade é liberdade diante da morte? Era hora da ação,
portanto.
Naquele dia eu decidi: devo falar com
Helena a sós. Uma longa conversa individual poderia ser o gatilho para criar
conexão maior. A primeira aula acabara há pouco, estávamos esperando a prova do
dia começar. Helena dirigiu-se para fora da sala com um copo na mão, seu
destino era o bebedouro que ficava no mesmo corredor que a sala. Aquela era
minha oportunidade, eu só precisava me levantar da cadeira e seguir a mesma
direção para
nos encontrarmos
em algum momento.
Em minha mente, as inúmeras leituras sobre
heroísmo contrastavam com minha covardia pessoal. É difícil ir falar com uma
mulher quando você tem sentimentos por ela, porque você começa a nervoso e com
medo de suar, gaguejar e tudo.
Venci o medo: abandonei meu assento,
peguei meu copo e fui atrás dela. Ela havia deixado seu copo em cima do
bebedouro para ir ao banheiro. Foi em sua saída do banheiro que eu a encontrei.
Nossos olhos se cruzaram, não tive muito tempo para pensar e rapidamente lhe
disse:
- e aí, preparada para a prova?
Ao que ela me respondeu
- acho que sim, não falta mais nada para
estudar, mas a professora pesa a mão, não é?
- hm, é... Só que, sabe, acho que eu
fiquei de estudar a parte de Letra de Câmbio.
Até aquele momento, eu nunca tinha notado
quão pequena ela era perto de mim. Começamos a abastecer nossos copos.
- não precisa se preocupar com essa parte,
vai ser o tema só da segunda prova
ainda. -- ela
disse, me tirando o peso da falta de ideias de assunto na qual prontamente me
encontrei.
- então vai ser só nota promissória,
duplicata e cheque, né? - adicionei o cheque estrategicamente, eu sabia que não
iria cair na prova.
-hm, não, cheque não.
Abastecidos os copos, saí do bebedouro e
me apoiei nas grades. Ela fez o mesmo,
num gesto de quem
iria permanecer para conversar. Eu consegui a almejada conversa a sós, sim,
esta é uma pequena vitória.
Passamos por um tempo falando sobre o
curso, até que o assunto fluiu para gostos
pessoais.
- armas, eu tenho interesse por armas.
Quer dizer, já atirei com uma e tudo. -- disse eu, prontamente me arrependendo.
Ese ela pensasse que eu sou um perigo?
- Armas? Hm, minha família tem uma em
casa. Quer dizer, é de chumbinho, e a gente usa para matar pombos. – ela sorriu
no momento, estava achando a conversa engraçada.
- ah, mas eu nunca atirei em animal não --
disse eu em tom de censura -- e por que
vocês têm isso em
casa?
- é do meu pai. – quando ela disse isso,
notei que seus olhos se embaralhavam um
pouco.
– seu pai é policial, é?
- Bem, ele trabalha em algo a ver com
segurança, não sei exatamente no quê. -- mentiu ela. Que tipo de filho não sabe
onde o pai trabalha?
Nesse momento, nossa conversa é
interrompida por uma amiga dela. Sua amiga brevemente trocou palavras conosco e
convidou Helena para retirar-se com ela, ao que Helena educadamente recusou.
Isso me deixou contente, Helena não
abandonou minha companhia para ir com a amiga.
- bem, eu gosto de algumas músicas -
também. -– disse Helena, seu rosto estava radiante.
- Quais gêneros, tipos de música e tal
você mais gosta de ouvir? - então estiquei minha coluna nas grades a fim de
ostentar minha altura, quem sabe isso a impressionasse.
Ali eu descobri que ela só ouvia gospel, о
que me deixou um tanto impressionado. Eu tomava nota mental de cada pequeno
detalhe, pois poderia utilizá-los como ganchos em futuras conversas. E assim
prosseguiu nosso diálogo até que a prova iniciasse.
Neste dia, eu saí vitorioso. Triunfei
sobre o medo, consegui um retorno positivo. Meu coração se aquecia cada vez
mais na companhia dela, e eu deveria conseguir mais conversas assim.
XX. Rei de Thule
No sonho, uma torre negra se erguia no
centro de um vale na ilha lendária de Thule. Nele havia muitos escravos
construindo um cálice de ouro gigante em frente à torre. Todos os dias
despencava uma tempestade que assolava os trabalhadores, os raios acertavam
suas cabeças e a chuva os adoecia. Eu expedia as mais diversas ordens de cima
da torre.
- fogo! - e assim prisioneiros na masmorra
eram executados.
- sede vós uma só carne! - e assim unia
casais ao meu bel prazer.
Eu tinha a chave da morte e da geração de
vida.
- queimem os quadros! É hora de revivermos
a arte superior.
Os trabalhos prosseguiam incessantes, o
cálice precisava ser erguido a qualquer custo. Certa vez, durante uma crise
geral de fome durante dureza do inverno, disse-me um oficial:
- majestade, os escravos estão cada vez
mais improdutivos devido à escassez de
alimentos.
Inúmeros estão morrendo, nossa produção está despencando.
- Alimentemo-los já, por favor - dizia
Guilherme, meu conselheiro real.
- sem mais suprimentos! - ordenei.
A corte real não entendia por que eu não
alimentava a massa de escravos e por que gastar tantos recursos num cálice.
Quer dizer, isso seria danoso para o Estado longo prazo, nosso reino iria à
falência nesse ritmo. Debatiam-se muito os motivos para tal, entretanto não
encontravam respostas.
Nos mercados, a escumalha lamentava minha
ascensão. Desde que eu e minha aristocracia entramos no poder, a infelicidade
geral se tornou a regra em
nome da
felicidade dos poucos. A boca do cálice estava quase completa, e a água da
chuva o preenchia. Alguns corpos caíam no cálice, que adquiria um líquido
avermelhado de sangue misturado com água de chuva e lágrimas dos escravos.
Com o passar o tempo, as massas foram
assoladas pela fome e tivemos uma perda
econômica
avassaladora - até mesmo meus aristocratas estavam insatisfeitos com a
situação.
Não durou muito
até que eles operassem um golpe de Estado. Guilherme ascenderia ao meu trono.
"É o mais sensato" -- concordavam os aristocratas revolucionários.
Os rebeldes montaram um tribunal de
exceção e me julgaram publicamente. O
povo famélico e
oprimido se agitava e se manifestava contra mim em meio à tempestade.
- tirano! Maldito tirano!
- perdi meus pais, meu filho está com
fome! É culpa desse desgraçado.
- retirem o corpo de meus pais do fundo do
cálice!
Eu me calava, meus lábios ensaiavam um
sorriso cínico. Estava claro que eu seria
condenado à pena
capital.
- mas nós ainda não entendemos, por que
você executou tantas pessoas, privou
seus
trabalhadores de alimento, abandonou-os na dureza do inverno, escravizou uma
nação inteira?... -- perguntou-me o juiz
- e tudo isso a troco de nada. Na verdade,
até mesmo às custas de nosso bem-estar -
diziam os
aristocratas revoltosos.
Guilherme me questionava acerca do cálice
de ouro.
Calei-me por um tempo, fechei os olhos,
meditei brevemente.
- como não entenderam? - indaguei - será
possível que ainda não aprenderam
que tudo o que
existe merece perecer?
Todos me olharam com espanto, e as nuvens
negras despejavam raios no topo da torre.
- Seria melhor que nada mais existisse! -
prossegui - não veem que eu sou o rei de Thule que de sua amada não recebeu o
cálice? O mundo pagou por isso. Que seja vossa destruição a expiação pela minha
dor!
Todos se horrorizaram. Nunca foi minha
finalidade cuidar do Estado, apenas vingar meu sofrimento. Thule virou um
moedor de carne em meu reinado, eu nunca me importei com outra coisa que não
fosse destruir o que então existia e retribuir a dor de nunca ter recebido um
cálice de ouro das mãos de Helena.
Enforcaram-me na manhã seguinte, enfim a
tempestade cessou.
ATO IV - Destroços
XX. O inventário
de um homem
Na minha gaveta há uma cópia de Fausto,
Assim Falou Zaratustra, Os Sofrimentos do Jovem Werther e O Declínio de um
Homem. Não há espaço para a Bíblia.
Na minha playlist, Radiohead, Joy Division
e Os Mutantes. Há também o bom e velho Mozart, que coroou um dos momentos mais
delicados e humanos de minha vida.
Com raiva e saudades chorei
amargamente.
XX. Miséria em
casa
-- Você precisa comer, você só quer ficar
trancado no quarto o tempo todo!
Era assim que minha mãe protestava contra
mim.
-- Não quero comer nada. Estou de saco
cheio já, não suporto mais. Comida, comida, só sabe falar disso! Não estou
passando fome, não preciso comer.
-- Desse jeito vai ficar pior ainda! O que
houve com você, garoto?
-- Os estudos, mãe, os estudos me
estressam. Tudo aqui me estressa. A cidade nojenta, as pessoas frias, a
monotonia. Não aguento, não aguento.
-- Vou te levar no médico desse jeito!
-- Também não aguento mais ouvir
reclamações. Por favor, me deixa quieto.
XX. E agora,
José?
Eu me lancei ao mundo com todo atrevimento
possível. Minhas mãos tremeram, minha voz falhou, por muitas vezes meus olhos
se encheram de lágrimas. Em meu coração, um aperto nunca antes sentido.
Quantos conselhos já não me deram antes
para que fosse sempre ponderado e colocasse a mim mesmo acima de tudo? Eu
sempre quis ser perfeito, tirar as melhores notas, ser visto como alguém
brilhante e triunfante. Para me apaixonar por Helena, tive que me livrar de
tudo isso, toda essa capa fútil de vaidades. Toda essa dor sempre andou de mãos
dadas com um raio de sol que se abria quando eu estava com ela. Por alguns
momentos, eu vislumbrei o que era a felicidade genuína: ignorar meu eu para
mergulhar no outro.
Mas eu fracassei profundamente, fui
destruído até que sobrassem apenas destroços.
XX. O tordo
Estava de bruços na cama quando ouvi um
pedido de socorro -- era um piado desesperado. Meu cansaço ofereceu certa
resistência, mas lutei para caminhar até o barulho. Em meu quintal caíra um
pequeno pássaro. Tomei-o nas mãos e identifiquei um frágil filhote de tordo.
Ofegante, ele se contorcia dolorosamente.
-- Não, não, isso não vai acontecer. Você
vai ficar bem, você precisa ficar bem.
Mas o filhote não parecia melhorar, eu
sentia suas penas caindo em minhas mãos durante seu movimento agitado. Tentei
pô-lo de pé, mas ele mal conseguia se equilibrar. Após algumas tentativas, ele
se apoiou nas duas asas e assim ficou enquanto lutava para respirar. Só aí que
eu notei que sua asinha direita estava quebrada.
Abri mais ainda os dedos das mãos, de modo
que elas ficassem completamente planas. Era a base para que o pássaro
ensaisasse um voo e voltasse para seu ninho. Ele, ferido e amedrontado, bateu
as asas e operou um impulso que o fez voar. O voo não durou nada, entretanto.
Tão logo ele decolou, despencou no duro chão de concreto. Desta vez, o inocente
tordo não sobreviveu.
Certamente o pássaro, cansado da vida monótona
e encacerada no ninho, havia tentado se libertar e, pela primeira vez, viver de
verdade -- os planos da natureza eram outros, no entanto. O mundo resolveu
puni-lo por sua ousadia. Com a alma desejando plenitude e a asa arrebentada,
foi morto por este mundo vil.
Ajoelhei-me perante seu corpo morto e
chorei copiosamente, eu havia desmoronado.
XX. As Lágrimas
do Rei de Thule
Diante de toda profusão de sentimentos,
aquele que prevalece é o da saudade. Eu nasci para ser quebrado por ela.
Um sonho de criança - o amor à liberdade,
não a liberdade que se confunde com a solidão, mas a liberdade de encontrar seu
lugar. Não mais um sonho, porém -- agora, uma reminiscência cheia de
ressentimento.
A perda, a perda da pessoa amada. Aquela
doçura, aquele raio de sol -- não mais iluminará o campo. Fora, fora, vela
breve: resta escuridão!
Deus, Deus, se no mais alto céu reinais
sobre vossos filhos, por que não vos comovem minhas lágrimas? Sou vosso Adão
mais completo, tenho memórias de um Éden onde jamais habitei. Pai, sou vosso
Adão superior, e o Senhor permitiu que minha Eva me abandonasse. Senhor, o fogo
de Prometeu incendeia meu peito, por que deixastes que a chama do Olimpo
abrasasse meu peito? Pai, sou vosso filho mais frágil. Tende misericórdia!
Helena, Helena! Que nunca minha dor aperte
seu peito, que seus dias sejam repletos de leveza, que o Altíssimo a quem tanto
amas lhe conceda vida eterna.
XX. Carta para
Guilherme
É ruim não ter mais a companhia de Helena,
especialmente nas noites de sábado -- nós passávamos a noite toda conversando
nesses momentos. Para sempre vou guardar com gratidão essas lembranças, elas
são a coroa de minha vida.
Guilherme, você se assustou com minha
condição. Você elencou minhas conquistas ao longo da vida, meus talentos e
minhas capacidades, como se elas fossem o fundamento de minha existência. Meu
irmão, aquilo que é exclusivamente nosso é pó. Sem o outro, estamos sempre
rodando atrás de nossas caudas.
Conforta-me ouvir de você que o sol sempre
vai brilhar e que, quando a lua rouba seu lugar ou as nuvens o encobrem, é a
hora certa de encontrarmos a luz do astro-rei em nosso profundo ser. Mas,
Guilherme, não é a lua mais real que o sol? Antes de o universo existir, tudo
era trevas. Da noite primordial, surgiu uma pequena perturbação chamada vida.
A vida, essa síntese entre o que é e o que
não é, nunca vai descansar, nunca vai parar de doer. E nossos corações não irão
parar de bater. O que é mais humano do que aceitar isso?
Mas chega de divagações, devo lhe contar
que estou estudando para o concurso, também estou finalizando a autoescola e
pretendo entrar na Procuradoria ano que vem. Sinto que necessito fazer mais
atividades físicas também, sua sugestão de que eu deveria frequentar a academia
é boa. Quer dizer, podemos acordar cedo e ir juntos, não é?
XX. Carta para
Beatriz
Você me disse que eu não precisava atrelar
minha identidade ao amor intenso e não correspondido por Helena. Tenho medo,
Beatriz, de que essa tenha sido a única coisa realmente importante em minha
vida. Sem isso, eu sou mais um humano ordinário -- com alguns dons, mas
supérfluo -- só que você me deixou bastante pensativo.
Ó Céus, mas será que realmente vale a pena
não aceitar ser alguém comum? Às vezes me pergunto se tudo o que fiz até hoje
não foi uma luta contra o tédio de viver uma vida medíocre.
XX. Jigsaw Falling Into Place
Estava sentado na cantina com Clara --
algumas coisas retornam eternamente. Ela tomou assento ao meu lado. Eu, por
minha vez, estava com o rosto virado para uma mesa à frente.
-- Já sabe o que fazer nas férias?
-- Descansar, pô, não suporto mais. Esse
período foi tenso -- Clara respondia com certo alívio.
-- É, é bom não encarar mais esses
professores por algumas semanas.
-- Nem me diga. 'Cê tinha que ver a prova
de hoje, tinha uma questão muito ridícula sobre direitos de famílias
poligâmicas. A professora não para. -- seu tom de deboche era evidente.
-- Tsc, essa galera quer mesmo emplacar
essas coisas.
Nesse momento, Helena sentou-se justamente
na mesa a que eu mirava. Ela sentou-se desleixadamente, quase deitada sobre o
espaldar da cadeira.
-- É satanismo, isso sim. É parte de um
projeto maior para destruir o Ocidente e nossos valores, não é? O pior é ver
como as pessoas compram essas ideias sem nem questionar. Já vi algo parecido
ocorrer em Sodoma e Gomorra -- Clara não pausava nem para respirar -- e sabe o
que aconteceu depois, né? Ah, esqueci que você é ateu.
-- O engraçado é que...
-- Que bom que você não concorda com esses
trapos ideológicos -- cortou-me Clara -- valorizo muito mesmo a família, é meu
sonho ser mãe e tudo. Quero cuidar de meus filhos, nem penso em trabalhar. Meu
marido que sustente. Não fez? Tem que bancar! Vou fazer pilates de manhã,
servir o almoço meio-dia, levá-los para as compras no shopping e à noite ir
p'ra igreja com eles.
Um rapaz se aproxima lentamente de Helena.
É um homem de cabelo crespo, pele achocolatada, camisa do Flamengo e calças
baggy. Ele suspende a mão no ar enquanto fita seus olhos.
-- E como você quer que seja seu marido?
-- perguntei para Clara.
-- Ah, primeiramente tem que ser um homem
de Deus e...
Eu não estava prestando atenção. Clara que
continuasse seu longo solilóquio sobre como homens deveriam ser. Naquele
momento, éramos só eu, o rapaz e Helena. A mão dele logo envolveu a bochecha
esquerda de Helena, servindo de apoio para que deixasse um beijo no lado
direito do rosto dela.
Helena
permanecia estática. Aquele homem a profanou, ousou encostar seus lábios nela
sem mais nem menos. Sequer pediu permissão, apenas estabeleceu contato visual e
cometeu tal injustiça. Eu precisava, eu precisava levantar. Meu sangue começou
a esquentar, meu coração disparou violentamente. Nunca em toda a minha vida
adquiri ódio tão prontamente de alguém que eu acabara de ver pela primeira vez.
Eu poderia destroçá-lo como um animal. Sim, eu era um César na arquibancada do
coliseu; ele, no melhor dos casos, um servo, um babaca com calças de mulher.
Que importa? Jesus faria o mesmo com os mercadores que violavam o templo.
-- ...mas você é ateu, não é? Quer dizer,
eu me casaria com um ateu desde que ele deixasse eu criar meus filhos na fé e
tal. -- Clara cortou meu transe, devolvendo-me à realidade.
Virei o rosto para ela, meu rosto ainda
estava ensombrecido e meus olhos ainda expressavam certo ânimo de predador. Em milissegundos
desfiz o semblante, e um sorriso involuntário abriu-se em meu rosto. Não pude
deixar de rir um pouco.
--
E eu me casaria com uma cristã também!
-- Você não iria se incomodar com sua
esposa levando seus filhos para a igreja?
-- Quer dizer, que opção eu tenho? Levar
os meninos para o templo de Charles Darwin?
Clara gargalhou bastante. O flamenguista
foi embora, Helena ainda permanecia sentada esperando que seu pai viesse para
buscá-la.
-- Clara, existem coisas mais urgentes num
relacionamento, como pagar contas de luz.
-- Bem, não é seu filósofo que diz que
aquilo que é feito por amor tem seu lugar além do bem e do mal? Talvez faça
sentido, mas abro só essa concessão, viu?
-- Quanto romantismo.
Guilherme, parece-me que a finalidade da vida é a perpetuação. A maior angústia que nós temos é a de sermos devorados por Saturno, então construímos uma rede de significados em que possamos viver para sempre. A eternidade é uma mistificação de algo muito mais simples: a vontade de não ser esquecido. Meu amigo, sinto que durante a vida toda eu fui alguém supérfluo. Quando eu morrer, tenho certeza de que a minha lembrança nunca apertará o coração de alguém, meu fim nunca será motivo de desamparo e perda de sentido. Não, eu não ocupo essa posição importante para ninguém.
Eu sou uma conversa interessante, uma personalidade curiosa, um amigo exótico e, no melhor dos casos, um símbolo de inteligência -- não mais. Estou lutando contra a morte todos os dias, mas quem se importa quando só mais um desaparece?
Não olhe para trás, Orfeu contemporâneo, porque sua Eurídice sequer existiu, o inferno é todo seu. Não é o Hades que incomoda, é a solidão.
XX. As cortinas
caem
Enfim entrei de férias, hoje resolvi
acordar mais cedo que o de costume. Preparei meu café-da-manhã do melhor jeito:
dois ovos mexidos, três pães de forma e uma xícara grande de café com leite.
Minha mãe acordou enquanto eu comia minha refeição, era seu dia de ir para a
igreja. Ela sempre achou que eu fazia muita bagunça na cozinha.
-- Jesus! E essa frigideira em cima da
mesa? -- indagou-me enquanto enchia de água o canecão que eu usara para aquecer
o leite.
-- mãe, hoje vou sair mais cedo, vou para
o Cristo Redentor. Não se espante quando não me ver em casa.
Seu semblante desanuviou-se, prontamente
ficou mais feliz. Era a primeira vez em semanas que ela me via sair de casa.
-- isso mesmo, menino! Vá lá conhecer o
Cristo, vá.
-- quem sabe, se eu tiver dinheiro e
disposição.
-- tire bastante foto e mande p'ra mamãe,
viu?
Pus minha camisa social, um par de tênis e
uma calça, no maior estilo all black. Uma anel negro envolvia meu indicador
esquerdo. Na minha mochila, uma cópia de Os Sofrimentos do Jovem Werther.
Quando espetei a chave no portão, minha
mãe me perguntou:
-- Você vai com alguém? Não é querendo me
intrometer na sua vid-
-- não, não vou. É bom sair sozinho às
vezes.
E assim peguei o ônibus para fazer uma
pequena viagem ao Parque Lage, que fica aos pés do Corcovado. O veículo
produzia alguns ruídos estranhos, e o ar-condicionado só gelava quando o
motorista pisava no acelerador. Pus cantos gregorianos nos fones enquanto lia o
livro. Werther é um santo, creio que ele morreu em nosso lugar para que pessoas
como ele jamais fizessem o mesmo.
Em vários momentos me rendi à paisagem
retirando os olhos da leitura. O verde e o mar em harmonia com as pistas e os
prédios, sendo o palco para a vida cotidiana de milhares de pessoas, eram
impressionantes.
Desci em frente ao parque. Logo na entrada
eu notava a presença de algumas famílias mesmo que fosse tão cedo, e ali se
destacava uma mulher negra vestida de noiva. Um homem de meia-idade vestindo
camisa polo carregava equipamento fotográfico. A família dela estava radiante,
e ela mais ainda. Vi também alguns pais tomando seus pequenos pelas mãos
durante o passeio. Havia alguns casais de jovens, e um rapaz sozinho tirando
uma foto panorâmica do palácio, a principal construção do parque.
Eu não sabia muito bem como funcionava a
rota para o Corcovado e, com preguiça de ler as placas, me orientei segundo as
trilhas. Encontrei-me perdido na mata algumas vezes, mas fui recompensado por
uma bela vista de peixes nadando sob uma queda d'água. Não demorou até que eu
encontrasse a trilha que me levaria ao Cristo Redentor e, diante dela, notei
que eu não queria subir aquilo nem viver uma aventura. O que eu queria mesmo
era estar onde as pessoas estavam, onde o fotógrafo capturava as colunas do
palácio, os pais se sentavam com seus filhos em frente a uma fonte e a contente
noiva se preparava para seu ensaio fotográfico.
Ontem tinha ocorrido uma chuva de
primavera, que tinha deixado toda a vegetação úmida. Eu podia sentir meu tênis
apertando a grama molhada a cada passo.
Sentei-me num banco em frente ao palácio.
Toda aquela visão preencheu meus olhos e, por um momento, minha mente se calou.
A vida continuava.
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