1. As ações de um homem transformam-no e selecionam-no para que ele seja um tipo específico de homem. No curso da vida, cada ação é a especialização daquele que a pratica.
2. Cuidado com aqueles que você ergue como heróis. Eles são a finalidade da sua vida, o norte que o guia. Se seus ídolos são hedonistas e imbecilizados, assim você será.
3. "NUNCA conheça seus heróis" — diz o tolo. Ora, se você os conhecesse, superá-los-ia somente para erguer novos heróis mais fortes. Portanto, conheça-os.
4. Saúdo aqui todos os meus antigos heróis, que tanto me ensinaram. O problema deles foi não terem enxergado além. Não sabem que um discípulo é sempre aquele que o vai sepultar no futuro? A distância entre aluno e coveiro é o tempo.
5. Se eu não os superasse, não poderia eu próprio tornar-me um herói também, para que possam me superar no futuro. Sigo erguendo e despedaçando meus ídolos num ciclo sem fim
6. Um homem incapaz de tecer heróis é um homem niilista, vazio.
A Colisão das Duas Consciências
Na eterna jornada de um indivíduo de se tornar o todo, o ser uno e absoluto que foi em sua onipotência da primeira infância, ocorre uma colisão. Dois indivíduos se chocam e se angustiam por entenderem que o outro é uma existência diferente, uma barreira impenetrável. Se dois indivíduos têm o escudo da individualidade, que é um verdadeiro limite para a expansão absoluta, o que eles buscam é justamente o fim da própria individualidade e de seres que possam barrá-los. Pense nisso como uma quantidade de água contida num copo e que quer estourá-lo e eliminar outras águas a fim de transbordar seu próprio volume sobre o mundo, tornar-se o grande e único oceano.
Desdobra-se a luta desses indivíduos para absorverem um ao outro. Eis um campeão! Algum deles conseguiu triunfar sobre o outro — o campeão agora é a consciência mestra; o perdedor, a consciência escrava.
O escravo não tem mais voz, deve seguir a vontade cega do recém-coroado mestre. Seu conteúdo é esvaziado e seu copo é preenchido pelo mestre — não ouse confrontá-lo, não queira propagar suas ideias a ele. Sua existência é mera servidão e engolir tudo o que ele vomita.
Conforme o exposto, o tempo se passa e o escravo aprendeu tudo sobre o seu senhor — seus gostos, suas paixões, seus desafetos, sua postura perante o mundo...— e consegue, em sua mente, representá-lo mesmo quando ocorre sua total ausência.
Então se desdobra uma nova etapa. O fiel escravo apreendeu o mestre, mas outras coisas também. Sim, a consciência subalterna, no balanço final, tem mais conteúdo que seu próprio senhor, que se tornou preguiçoso e satisfeito de ter um servo, ficando incapaz de buscar mais. A revolução começa — é a volta do cipó de aroreira no lombo de quem mandou dar. (Vandré)
O servo cristaliza seu senhor em uma minúscula figura passível de levar quantas marteladas quiser — tem um boneco de vidro em suas mãos. E como ele encheu seu dono de pancadas, como ele despedaçou cada parte dele! O senhor se vê pequeno e ameaçado, tornou-se o menor na relação mestre-escravo — pior, ele está totalmente despedaçado.
Como o escravo não tem mais nada a aproveitar de seu senhor, pode descartá-lo como um inseto. O mestre caiu como um raio do céu para que dormisse sob os vermes, no lugar onde o fogo não se apaga e o verme não morre.
Sê livre, ó escravo! Tu perdeste teus grilhões, tens o mundo inteiro a ganhar. Não temas em ser senhor também. Jamais! Mas tenhas cuidado para não te tornares preguiçoso como teu antigo chefe, pois isso seria o gatilho de uma desastrosa queda. Prospera, domina, multiplica-te, faze tudo aquilo que tiveres vontade, sê tua própria vontade!

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