terça-feira, 3 de outubro de 2023

A Carta De Um Salgueiro Para Os Seus Mortos



    1. Mas, se um dia os textos escritos neste blog forem mais do que palavras dispensadas aos que pouco querem, viverei enquanto divagarem no que eu disse. Já falei a favor do orgulho dos que me ouvem, até falei contra o desprezo deles, só que de nada adiantou. Não há um homem que leia estas coisas e queira remover de si a sujeira.
    
    2. Como poderão estes humildes textos tocar o coração de quem os lê? O que escrevo se desmancha no ar como névoa.

    3. O ceifador abandonou seu povo, seus livros e também seu racionalismo. É um espírito jovem, o sol brilha em seu rosto enquanto ele anda por planos campos verdejantes. Em seu horizonte, apenas beleza. O simples fato de ter aceitado a existência das coisas como o máximo e único valor metafísico que elas podem ter, dispensando, portanto, a necessidade de entender o sentido do todo, conferiu ao ceifador a maior liberdade que um homem pode ter. Ele é um homem essencialmente livre!

    4. Se ceifador o é, é porque não tem mais misericórdia: quando quer, vai e toma. Ele chega a novas aldeias e, uma a uma, mata suas plantações e colhe cada vida se assim desejar; cada ação sua exprime sua livre consciência e seus apurados instintos, sua jovialidade... olhem bem para essa joia forjada a fogo no Universo. Ele é a síntese, o cume de milênios de transformações culturais. O ceifador percebe a si mesmo como a finalidade de um passado que muitos tentaram compreender, mas todos falharam. 
Por ser a maior preciosidade que já pisou na terra, ele não tem mais qualquer vínculo com o processo que o criou.

                       A Carta do Salgueiro


   Um homem comum explorava a floresta numa manhã de verão. No que era para ser uma trilha monótona, ele surpreendentemente encontrou uma anomalia na paisagem. A vegetação do ambiente era constituída quase que integralmente por pinheiros. Os pinheiros eram todos iguais, com tamanhos parecidos e folhas de mesma magnitude. O que supreendera o explorador é que, no meio da regularidade da vegetação, encontrara um pequeno vale no qual se erguia um grande salgueiro adulto, rodeado por algumas árvores mortas, em seu centro. O contraste destes contra os medíocres pinheiros era assustador, tanto para o bem quanto para o mal! O salgueiro era o maior, mais belo, mais resistente e o mais chamativo entre toda a floresta — nenhum pinheiro se comparava a ele; as árvores mortas provocavam a atenção por sua intensa miséria.
    A existência de um salgueiro naquele local era inimaginável, não havia quaisquer motivos botânicos ou geográficos que tornassem aquilo meramente explicável. O que também espantava era a existência das poucas árvores mortas que cercavam ele. Elas eram como um híbrido, como se salgueiros jovens tivessem tentado ser um pinheiro e falhado humilhantemente.
    Ao pé do salgueiro, o homem encontrou uma pequena carta com uma caligrafia, por assim dizer, feia. O texto era longo e em seu rodapé havia uma assinatura escrita "— o salgueiro". Imediatamente o homem pôs-se a ler a carta, embora muito incrédulo de que uma árvore pudesse escrever alguma coisa. Ela dizia:
    "Não há como exortar quem já está conformado. E como a sociedade conformou os meus anjos! Atravessamos o inferno juntos desde nossos primeiros dias, somente para se esquecerem do ardor do fogo e abraçarem o conforto da mediocridade. 
Mas eu não me esqueci! Se os meus tiveram a voz silenciada ao passo que a doença em suas almas foi se alastrando, eu tentei dizer a plenos pulmões o que nosso sangue sempre gritou (mas nem eles quiseram ouvir) enquanto era derramado nos altares da vida. A mãe se esquece da dor do parto assim que toma o filho em seus braços; de semelhante modo, os que andaram comigo se esqueceram da caminhada no instante em que receberam migalhas de vida média.
Carrego comigo a sede de justiça que nossas almas desejaram, que fardo insuportável! Eles sequer quiseram carregar consigo seu peso, distribuíram tudo para mim.
    Nós —a carta prosseguia— fomos outrificados: éramos apenas figurantes na narrativa principal dos outros. Esparro! Nunca ocupamos uma posição que não a de subalterno. Negaram-nos tudo aquilo que uma árvore comum teria (Por que os meus insistem em ignorar isso?)
    Eu queria que o coração de vocês, meus amados, batesse junto com o meu, que ardesse como o meu. Entretanto, não esperaram um segundo e se renderam na primeira oportunidade! Por que amarraram uma corda no próprio tronco? Quando vocês negaram nossa dor do passado, decidiram se matar! Ah, se vocês se amassem como eu amo vocês, se vocês se valorizassem... que seja! Se é que ainda carregam alguma estima por mim depois de tanta proximidade, ao menos deixem-me dar-lhes seu último sacramento:
    'Sementes lançadas em mau solo: éramos nós! Foi-nos dado o direito não ao sol, mas ao subsolo para que nossas raízes pudessem se entranhar nas profundezas. Não sabem que é apenas com profundas raízes que uma árvore pode se tornar grande e forte? Era questão de tempo até que a primavera chegasse e finalmente desabrochássemos para superar todas as outras do campo. Elas tiveram solo bom, exposição contínua à luz, chuva seguida de chuva — justamente por isso que suas raízes não precisaram descer, ficando apenas no raso. Ora, o vento bateria e derrubaria todas essas árvores! Mas nós não. Nós resistiríamos ao vento, só que vocês foram fracos e impacientes. Em nome de um pouco de luz, sempre sombreada por outras árvores, e um pouco de água que caía das folhas daquelas que continuamente nos desprezavam, os senhores se precipitaram e se conformaram. 
    Pois bem, seus tolos, amaldiçoem o seu deus, que nos atirou nas piores condições para que pudéssemos ter um futuro glorioso, e morram sob a sombra dos que nasceram com tudo. Sintam o amargor amarrar a garganta de vocês, comam as migalhas que os escarnecedores deixam cair da mesa e não ousem olhar para o passado, pois o que vocês eram antes ressentiria o que vocês são agora. Eu os abençoo e consagro para seu derradeiro descanso. Amém!'"
    

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