sábado, 4 de novembro de 2023

O Arquétipo do Iluminado

    All hail WiredPerseu e Saint Nero, as feras do meio-dia! A nós! Quando o meio-dia chega, ele alumia o mundo em irrefreáveis raios de luz. Alumina! Alumina! Alumina!

O Iluminado

    A missão da humanidade é aprimorar a si mesma a cada geração — observa-se, portanto, que ela está falhando muito. Para nossa evolução, a ordem do universo deu-nos mais que o fruto do Éden ou a chama de Prometeus: ela nos entregou a desigualdade. Sim! Nós humanos nascemos todos desiguais, assim as hierarquias e opressões podem se estabelecer e, ao passo que os superiores se distanciam com repulsa da casta inferior, aperfeiçoam a si mesmos e distribuem essa benfeitoria para a humanidade. Devem-se às obras dos superiores todos os avanços da espécie. 

    O universo deu mais a uns do que a outros — espero ter sido bastante claro nisso — então surge a situação-problema: o que ocorre quando alguém especial vive cercado de pessoas comuns? — Creio que há alguns precedentes disso na própria Bíblia, a saber, José e Davi, mas deixem-me narrar as coisas do meu jeito. 

    Dormem os animais, não se ouve sino algum nem desponta no céu uma bela estrela: nasce, entre os comuns, uma nobre semente. Por ter suas formas próprias, diferentes interesses, ser mais doce e capaz de se conectar melhor com questões espirituais, a nobre semente é tratada como menor de todos. Em suma, é alguém diferente, mas essa diferença é recebida como inferioridade — Enganam-se aqueles que pensam que, se um leão nascesse entre ovelhas, devorá-las-ia; pelo contrário, elas o amarrariam de modo que ele nunca descobrisse que é um leão. 

    Nascido uma nobre semente, o agora menor de todos é maltratado em todas as instâncias. Desde cedo, aprende a apagar-se e sempre engolir as verdades e mandamentos dos outros, porque ele não é alguém minimamente digno de ter vontade própria. É uma criança que ama a Deus e o mundo, mas o mundo não o ama. Todos os seus gestos são sempre uma entrega de si para satisfazer a consciência dos outros. É alguém que não se apega tanto à matéria nem mesmo se importa com o próprio bem: antes busca o bem dos outros — Não pensem que esses são atos de fraqueza. Na verdade, são atos fortes de carregar sobre si os maiores fardos, os quais ninguém em seu meio poderia aguentar. 

    Os comuns incutiam na cabeça do menor as mentiras de que nascemos todos iguais e devemos ter compaixão. Mas as ovelhas, que matam os melhores para preservarem sua mediocridade, são capazes de misericórdia? Elas sabem inconscientemente que são inferiores, animais prontos para o abate, então agem com astúcia para eliminar da terra todos os leões. O desejo sombrio deles é destruir a vida do menor de todos, expurgar todos os leões existentes!

    Listarei aqui algumas possíveis mentiras contadas a nosso herói: somos todos iguais, seja bonzinho, seja cavalheiro, torça para tal time de futebol, não revide caso seja agredido, peça desculpas, vá à igreja...

      E assim o menor conheceu a frieza da solidão, foi isolado nas montanhas cobertas de neve e quis descansar... descanso não há! A mente dele está cheia de questões não resolvidas, seu coração queima para expandir seus valores pelo mundo todo, quer entender por que sempre foi deslocado de sua comunidade. Por que quem mais amou não pôde ser amado? Por que aquele que mais fez o bem nunca o recebeu de volta? Por que ele tinha que levar o fardo da miséria dos outros sobre seus ombros? 

    Após algumas experiências transformadoras — quem sabe um bom resultado, talvez descobertas feitas ao analisar os outros, ou tudo isso somado... ele, no pico das geleiras, encheu-se de autoconhecimento. Descobriu, finalmente, que nascera alguém melhor em meio à lama. O falso ídolo da igualdade foi derrubado como porcelana e tudo se sucedeu dali. Deixou de ser o menor de todos para ser o Iluminado! Em si desvendou os mais nobres valores, os sentimentos mais aristocráticos e sua especial conexão com a ordem superior do universo. Ele sabe que é vontade de poder encarnada: vida que possui, que se expande e vence a resistência. 

    Chegou o seu tempo, ó Iluminado. É tempo de desceres as montanhas e exerceres tuas faculdades sobre o mundo. Obedeça-te a ti mesmo, Iluminado! O universo é para ti um quadro em branco, no qual tu criarás tua arte como quiseres. Tua ação é a paixão do mundo, que por ti suspira! Já não estarás mais sozinho, há outros iluminados dispersos pelo mundo que irão caminhar contigo.

    

O Lamento do Menor de Todos


    O amor é fluxo torrencial de energia que dá ao amante a chave da vida e da morte — o poder ilimitado de construir e destruir. São águas imparáveis que não encontram obstáculos nem dutos para canalizar sua violência. É impulso cego conferido pelos deuses a aqueles que vão fazer de tudo. E, se a enchente acidentalmente destrói a pessoa amada, mata também o amante.

    Não houve alguém que amasse como eu! Amei o povo como um grande cristão faria, também amei mulheres como Werther faria. Assim me tornei presa para as grandes mandíbulas que caminhavam no campo, um vaso para que despejassem sua sujeira.

    "Por ti, destruiria e reconstruiria mil vezes o mundo e a mim!" — gritei durante minha infância e adolescência. Graças a uma dessas reconstruções me tornei alguém capaz de gerar bons resultados, e alguns resultados me fizeram entender as estruturas inquebrantáveis do meu ser, minha essência indestrutível de fato.


Oração ao Iluminado


Do alto cume da solidão,

Como é duro o inverno! 

Como é luminescente o autoconhecimento!

Ei-lo, o que nasceu nobre semente

Em pleno inverno, encheu-se de luz

Não é hora de se unir com o todo,

É hora de discipliná-lo!

O menor de sua comunidade

Descobriu em si as mentiras dela

Far-se-á a maior fera do campo

É hora de cavalgar o tigre!

Ei-lo, o grande meio-dia

Abrem-se os átrios do céu

E o Iluminado irrompe como um raio

É hora do domínio de Urano sobre Gaia!

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