domingo, 7 de maio de 2023

Ah! Que Susto!

 


         Ato 1 - O Nascimento

    O homem nasce. Simultaneamente, nasce a mente. A mente quase vazia, pois é uma folha em branco; entretanto, é uma folha, ou seja, é capaz de absorver, guardar e sistematizar informação. Um olho não pode enxergar a si mesmo senão por um espelho. Do mesmo modo, a mente do indivíduo não pode olhar para si, não pode examinar-se e nem absover informação disso. Porém, por mais que vocês sejam preguiçosos demais para ler o que eu escrevo e não possuam a mínima vontade de entender, vocês são obrigados a reconhecer que todos temos uma autoimagem, um conceito de nós mesmo. Que estranho, não? Como pode o sujeito ao mesmo tempo ser objeto de conhecimento si mesmo? De onde vem essa informação? Do Universo, isto é, do ambiente natural ou construído em sua volta, constituído também de outros indivíduos. São as limitações impostas pelo meio externo que no dão livre-arbítrio, por mais paradoxal que seja, pois elas ao menos nos dizem que não pode ser feito, restando para nós perceber o que nos resta a ser feito e assim fazê-lo. Ao conhecer outros indivíduos, conhecemos neles um condicionamento da natureza humana em seus mais variados aspectos. Por natureza, digo as limitações do nosso ser individual que possibilitam que entendamos os outros como membros de uma mesma categoria. O que eu quero dizer, inclusive, é que as limitações criam categorias na nossa mente. Dito isso, quero tratar aqui de uma parte dessa jornada da mente até seu desligamento: a morte. Essa parte é minha concepção sobre as relações pessoais que desenvolvemos no caminho. 

          Ato 2 - A Família

    Ao nascer, provavelmente o homem será reservado a um seio familiar, e é precisamente nas relações familiares da primeira etapa da vida que aprendemos a ser egoístas. Não se vem ao mundo egoísta, não se vem ao mundo sendo "eu". Não há ego! Entendemos o Universo como nosso nessa fase. Veja bem, basta o neném chorar para que sua necessidades fisiológicas mais primordiais sejam saciadas: para todo frio, o ambiente externo te agasalha; para toda sujeira, ele te limpa; havendo fome, há peito. Essa é sua sensação de onipotência, é o momento de ser um deus na terra. Ele passa a apreender o que está em sua volta e sua vontade é de tomar os objetos para si. Contudo, as intempéries do progresso do tempo mudam a fortuna do pequeno déspota, e o seu meio já não acompanha o aumento de seus desejos. Seus pais já não podem comportar tanta atenção despendida assim, pois eles também são indivíduos com vontades próprias: se uma das manifestações da vontade era comer a mãe, pode esquecê-la, pois o pai já faz isso com maestria; se se deseja mover-se, as sucessivas quedas causadoras dores lancinantes serão seu maior diabo. Ora, depois de tantos nãos progressivos, a ilusão de ser onipotente vai perdendo cada vez mais sua validade, então o Universo já não mais é seu; porém, é algo separado e com vontade própria! Aliás, notando a independência das ações de seus pais contra seus desejos, o tracejado de um Universo distinto passa a tomar um corpo mais sofisticado, culminando enfim na percepção do homem como indivíduo de si mesmo, como uma potência viva e sozinha.

          Ato 3 - Fodeu Tudo!

    Ok, e agora? O tempo, aquele que te empurra para frente contra seu querer, te joga para um novo tipo de relação: uma relação com outros humanos além dos seus familiares. Atualmente, esse momento acontece principalmente na escola, porém não me deterei a traçar com detalhes o caminho de sua vidinha média e serei mais objetivo. Falarei de mim, oras. Não é porque vocês, meus carrascos leitores, estão lendo isso que merecem todo o protagonismo! Não é como se eu não me importasse convosco, é só que eu quero só passar meu pênis em seus rostinhos rechonchudos e rosáceos, entendem? Talvez eu só esteja descontando todos os nãos que meu meio constituído por gentinhas como vocês me deu. Se passei pela etapa de me desiludir de minha onipotência, foi uma etapa não muito completa que me deixou ressentimento. Na verdade, acho que mudei de ideia... não quero escrever para meus leitores unicamente, nem mesmo somente para mim, mas para tudo que não sou eu: falo com você, ambiente externo. Enfim, me dê as mãos e vamos entrar nesse portal fantástico de ressentimento.

          Ato 4 - Saint Nero

    Cresci um pouco diferente de meus pares: sempre fui o mais novo das turmas que frequentei, também o mais fraco, pouco comunicativo e tímido. Como pude aprender isso sobre mim? Citei esse processo de formação de autoimagem no Ato 1 - O Nascimento, oras. 

    Lembro bem do meu período no Jardim Escolar de Infância. Passava todas as horas do dia como um mudo. Não era capaz de pronunciar uma palavra sequer, mas não por motivos médicos ou algo assim, porque as crianças me causavam temor. Sempre me pus abaixo delas. Como poderia ser diferente? Elas erão tão comunicativas, energéticas, erguiam em alto e bom som a voz ao falar mesmo as piores besteiras. Foram também capazes de somarem suas forças e coletivizarem-se, era uma tribo de selvagens que me estremecia até os ossos. Das limitações que você me impôs, ó, Universo, me restou então a opção de me defender, não fazer nada ativamente e focar somente em copiar o dever -- estava sendo gerado ali um intelecto da pior índole -- meu silêncio foi recompensado, pois a professora entendia isso como uma forma de boa conduta, dado que era menos uma voz estúpida ressoando em seus ouvidos. Em casa, os elogios da professora a minha personalidade eram entregues como um perfume francês para minha progenitora, que acabava também por me recompensar por minha conduta. Aprendi, portanto, a resignar-me, isolar-me em minha consciência e usar a escola somente como veículo de aprendizado -- recordo de conversar comigo mesmo diálogos intermináveis -- 

    Passado o curto período de seis meses que compreendia minha efetiva entrada no jardim para o fim da minha formação pré-escolar, dado que eu era acima da média, já que meus colegas eram felizes enquanto eu ficava copiando o alfabeto num caderno novo de Pica-Pau, entrei no primeiro ano do Ensino Fundamental I. Até aquela época, não me recordo de ter havido uma clara distinção entre os humanos além de adultos ou crianças, mas foi ali que eu notei fortemente que éramos divididos entre meninos e meninas. A lógica era simples: meninos só devem brincar com meninos, e meninas brincar com meninas. Sobre isso, escrevi uma vez em meu diário pessoal:

" Eu devia ter uns seis ou sete anos, não me lembro ao certo, mas lembro que foi uma das primeiras experiências de ser excluído [ativamente pela ação de outro] e me sentir bem mal com isso. Uma colega de classe que eu gostava fez uma festa de aniversário. Ela era da minha vizinhança, então tinha proximidade com meus familiares. Só que a festa dela teve algo muito peculiar: chamar somente garotas e excluir os meninos. Bem, logo de cara fiquei enciumado, porque minha irmã e prima iriam mas eu não, porém não queria demonstrar esse sentimento. Fiquei muito mal em casa me sentindo solitário, ao mesmo tempo fingindo estar tudo bem. [...]

    Qual era o sentido daquilo? A garota certamente foi influenciada pelo seio familiar que permitiu que essa segregação fosse feita. Por que os adultos simplesmente proíbem a amizade e afeto entre seus descendentes?"

    Também foi a época onde as ideias de eu ser inferior e fraco ganharam mais peso ainda, porque meus colegas eram mais desenvolvidos, unos, expressivos e passaram a exercer certos contatos físicos comigo que eu não desejava, mas era covarde demais para reagir. O corpo do resignado é um corpo público, de fato. Outra sucessão direta foi que minhas notas eram mais altas que a média da turma, o que me rendia mais e mais elogios de minha professora e minha mãe.

    Passados uns anos, tendo feito alguns amigos e sendo feito de puta vez ou outra, chego enfim em 2013, onde eu estava no Quarto Ano do Ensino Fundamental I. Conheci uma menina que me marcou como o maior não que eu recebera até então, assim como o maior amor que já tive -- Não adianta, maldito ambiente externo, não vou escrever aqui detalhes sobre isso. Te basta saber que ela era o objeto que eu mais desejei até então, talvez até hoje. Quem sabe? -- também a maior rejeição que já sofri -- eu tinha aprendido te observando, caro colega, que bastava ser romântico, educado, atencioso e querer para conquistar a donzela. Ademais, suas mídias culturais me ensinaram que uma relação entre homem e mulher é a maior dádiva da vida. Quão grande foi a facada quando tu me mostrou que eu estava sendo enganado por ti esse tempo todo. Se criava, portanto, outro elemento na minha autoimagem: aquele que fracassou na maior conquista que um homem poderia ter -- 

    Fui sim uma grande referência intelectual para meus colegas de classe. Não agir passou a ser a norma, viver na minha mente passou a ser a única atividade que realmente me traria algo. Fracassando em socializar com todos da turma e falhando em conquistar a dama, passava todas as noites chorando pedindo para que Deus me levasse se isso fosse me eximir do sofrimento da vida. Desenvolvi a fraqueza mais socrática de todas: desejar que uma vontade superior retirasse de mim a doença das doenças, a vida. Viver, então, era uma falha, e o que importava mesmo era ir para o Céu. Por fim, estava formado um "homem de consciência", segundo o que disse o Homem do Subsolo que já tratei em outro texto neste mesmo ambiente. 

     O desfecho dessa etapa foi minha formação no Quinto Ano -- te digo que minha formatura  foi o dia mais feliz da minha vida, honestamente. Eu havia brigado com a amada supracitada no dia anterior, então fui à cerimônia cabisbaixo. Chegando lá, encontrei um espaço amplo, diversos brinquedos e meus poucos amigos. O melhor de tudo é que nossos pais estavam em outro seção na cerimônia, e desfrutamos da mais plena liberdade. Pude, enfim, sair por umas horas da minha mente, meu subsolo, e só ser o que todas as crianças eram o tempo todo -- 

          Ato 4.1 - Conclusão

    Ok, pode me julgar sim. Acabo de pular partes importantíssimas no meio do texto para já pular para a conclusão. Motivo? Preguiça. Além do mais, tu nem deve mais estar interagindo com esse texto e certamente já o abandonou por preguiça também. Posso garantir que os anos que se sucederam foram o mais do mesmo: eu preso na minha mente, me negando a agir, fracassando no amor e usando o estudo como veículo de aprovação. Foi tudo por você. Digo mais, é tudo por você! Não houve um sorriso que eu não tenha aberto a cada sim que me deste, não houve uma lágrima que eu não tenha derramado a cada não. Te dou este derradeiro texto como uma carta de amor pessoal, é minha tentativa de reconciliação com o que você é e com o que você me fez saber que eu sou. Já não mais adereçarei nada a ti neste blog. 

    Quis muito que você lesse todos meus textos e valorizasse todas as ações que eu tomei no caminho; contudo, te manifestaste como meia dúzia de leitores que mal faziam esforço para captar o que eu escrevo. Se tem algo que eu aceitei, é que eu vou falhar em quase todas as vezes que eu tentar ficar acima de ti e dominar-te, pois és o mais feroz, caótico e irreverente dos cavalos. Sou muito grato por todas as vezes que tu se apresentou como arte, mas também pelas vezes que tu foi indivíduos que eram amizades verdadeiras. Busquei neles negar-te, falhando miseravelmente. Pensei em meus amigos como seres à parte, tentei expressar neles minha vontade e ser veículo da vontade deles. Mas não. Mesmo tu não tendo lógica alguma, continuas sendo sua pessoa. Se tentei manifestar a vontade deles como forma de reciprocidade, estava apenas expressando você para que tu me expressasse. Que cilada, não? 

    Especificamente para você, leitor, se tu teve atenção, notou que eu usei o adjetivo "derradeiro" para qualificar este escrito. Não é que eu nunca mais vá escrever, pois o que não é dito vira neurose; é que eu não quero mais publicar nada neste lugar -- agradeço muito ao dono do ambiente, Rocky Raccoon, por ter me cedido esse espaço que me possibilitou veicular meus pensamentos para que todos pudessem escutá-los -- a verdade é que ninguém se importa mesmo com o que está aqui, mas nem eu me importaria no lugar dos outros. Honestamente, sinto que eu devo me comunicar por conta própria num ambiente individual. 

    Abraços, leitor! Fique com Deus!

- Saint Nero, 07/05/23

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