sábado, 6 de maio de 2023

Por Que Os Viciados em Pensar Odeiam?

    

    Nas profundezas do subsolo interno, nasce o excesso de pensamentos, idealização do futuro, vergonha de si mesmo, covardia perante a realidade e falta de ação. 

    Uma das partes mais memoráveis para mim do texto Memórias do Subsolo (1864), de Fiódor Dostoiévski, é na segunda parte do livro, A Propósito da Neve Molhada, especificamente num trecho segunda história, cujo protagonista inominado relata uma histórica trágica. Se essa parte me é memorável, é porque eu consigo me identificar bem com ela. Serei conciso e exporei de imediato o que eu julgo ser importante. Que fique claro que meu texto vem da minha interpretação subjetiva, eisegética e livre. Portanto, não substitui de modo algum a leitura do livro original na íntegra.

    O nosso protagonista, homem do subsolo, havia concluído os estudos escolares e virara um homem essencialmente solitário. Nos tempos escolares, é descrito que ele era ridicularizado e tratado com desdém, desde então passou a ter uma postura de ódio e desejo de vingança contra seus colegas. São descritos como feios, simplistas e burros -- é notável ao longo da obra que o homem do subsolo desenvolveu um apreço gigante pela razão, em detrimento da ação, como um mecanismo de defesa -- para proteger seu orgulho e se defender, nosso rejeitado se dedica aos estudos, para assim tirar as maiores notas e ser reverenciado. Não só isso, dado que ler livros tidos como difíceis enchiam seu orgulho. Ele consegue resultados parcialmente, pois, mesmo não sendo mais desprezado, todas suas relações na vida escolar se tornam frias, distantes e muito formais. No entanto, seus anseios mudam conforme vai crescendo e começa a desejar ter amigos. Ao cumprir seu desejo, seu mais novo amigo se tratava de um rapaz ingênuo e manipulável, sendo esses atributos fundamentais para o despotismo do nosso homem do subsolo. Com sua recente conquista, ele passa a implantar no rapaz seu ódio contra o ambiente externo, e inclusive é dito que o ingênuo foi levado às lágrimas e surtos algumas vezes. Era claramente uma relação abusiva com um fim pré-determinado. O protagonista assume que só usou o jovem para triunfar sobre sua alma, e, tão logo seu brinquedo esteve totalmente sob seu domínio, foi cruelmente descartado.

    Percebe-se que o homem do subterrâneo é claramente um fracassado na vida real; não só era zombado pelos outros como também era ressentido. Não havendo como brilhar na vida real, ele se afunda no campo intelectual como válvula de escape -- sei bem como é isso. Sei bem como é ser o mais fraco e só poder se realizar ao terminar um livro difícil -- estando condenado a ser sempre rebaixado, desenvolve um complexo de inferioridade. Assim como os escravos hebreus que não podiam atentar verdadeiramente contra seus senhores, lhe restou desenvolver ideias que se baseiam no mais puro ressentimento e vingança intelectual contra as formas dominantes. Além do mais, as categorias predominantes em seu imaginário sobre como se relacionar com o outro eram principalmente de opressão -- mestres versus escravos -- onde ele frequentemente ocupou uma posição subalterna. Dado isso, foi essa o modelo que nosso déspota aplicou contra seu amigo, não somente se relacionando com ele da maneira mais tortuosa, porém podendo enfim ver as coisas do topo. 

    E como poderia ser diferente? Pessoas nascem desiguais, se desenvolvem de maneira desigual na sociedade civil e, consequentemente, surgem as hierarquias. Há ainda os mais românticos, os utópicos dos utópicos, que imaginam um futuro brilhante da igualdade radiante, onde as relações são baseadas na solidariedade e de igual para igual; contudo, não passam disso: são meros teóricos. Havendo diferenças de vontade, existirão sempre as formas escravas e formas mestres que talvez nunca mudarão. 

    Intencionalmente ou não, o livro deixa muito claro que o homem do subsolo não mudou, sempre se escondeu na toca da sua mente para fugir do mundo real. Não há como o fraco se expressar de outro jeito senão fraqueza.

    [Agradeço a um grande amigo por ter me ajudado na primeira versão desse texto me dando algumas dicas de gramática e redação. Honestamente, eu não teria terminado esse texto se não fosse por ele. Porém não o citarei nominalmente para não envergonhar seu nome, pois ainda preciso melhorar muito como escritor]

-Saint Nero, 06/05/23

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