sexta-feira, 10 de novembro de 2023

As Conversas Como Poder

    O universo é vontade de poder e nada mais! Pode-se dizer que tudo está assentado nesse princípio e é por ele estruturado. O poder atravessa toda a psicologia humana, a dança conflituosa entre seus instintos e o modo como o indivíduo executa suas ações. Não só isso, o poder estrutura as relações sociais entre indivíduos e os meios pelos quais elas se dão, o que abarca a conversa entre dois seres. 

    São com essas lentes que eu vou desvelar o fato social de uma conversa e entender efetivamente o que ocorre, pelo menos em partes, pois não confio que um método único não reduza a realidade a seus limites. 

    A conversa é o câmbio de conceitos e emoções entre duas consciências individuais, e os conceitos são certamente o conteúdo que preenche uma mente. As consciências não nascem exatamente vazias, mas com certas inclinações individuais, porém ela é constituída na maior parte por desejos e conceitos racionais — os conceitos trabalham para os desejos, como uma forma de dar-lhes uma forma para se canalizarem e se manifestarem. Poder é precisamente propagar-se ao outro, de modo a sujeitá-lo e assimilá-lo. 

    Portanto, o câmbio de formas próprias através de uma conversa é um meio de colocar-se no outro. Uma possível analogia é que os indivíduos são copos d'água, a água de cada são seus conceitos e a conversa é um duto entre esses copos. O fluxo da água de um copo para o outro é a relação de poder que se estabelece no ato. 

    Se há poder, há hierarquia — e como definir a hierarquia, portanto? O indivíduo mais poderoso é aquele que emite suas formas próprias ao outro, o subalterno é aquele que acata as ideias dele. Nota-se que pode haver um cenário de efetiva igualdade entre dois indivíduos que se reconhecem como membros de uma mesma casta. Nesse caso, um só emite suas ideias ao outro na proporção que o outro emite a ele, de modo a tornar a conversa uma via de mão dupla e a nunca provocar desequilíbrio. 

    Assim podemos entender o fenômeno que se apresenta esteticamente como alguém fazendo um monólogo infinito sobre si, desabafando ad' eternum e nunca dando a oportunidade de receptor o falar de volta. Isso é comum com famosos, que conversam sempre como se estivessem dando uma entrevista, ou num diálogo mulher-homem, ou entre amigos que perderam o senso de igualdade. 

    A respeito da dinâmica comunicativa entre mulheres e homens, o que se verifica é, em linhas gerais, que a mulher apresenta uma forte disposição a falar até mesmo sobre os menores detalhes de sua vida, enquanto o homem abaixa as orelhas e toma a postura de ombro-amigo e mostra-se interessado em ouvir cada vez mais. Isso indica que há uma mácula no tecido social, a desigualdade entre sexos. A níveis psicológicos, os civis tendem a conferir à mulher maior valor em oposição aos homens. 

    Já, numa amizade que se degradou, o fenômeno fica ainda mais obscuro. Um deles irá se comunicar com o outro somente para desabafar, propagar suas toxicinas ou ofender. O subalterno toma postura de psicólogo ou pária e torna-se escravo. Mas como eles foram amigos num primeiro momento? Provavelmente, o mais poderoso agira de modo predatório, conhecendo o terreno inicialmente (assim se deu o início da amizade) e, após comprovada a inferioridade do outro, o mais poderoso enfim mostrou suas garras.

    Conclui-se que é possível lançar um olhar profundo além da aparência da conversa, de modo a descobrir como a opressão se dá e em qual sentido ela ocorre. Porque a conversa é algo imediato que se dá no cenário microscópico, em consequência direta ao fundamento dos indivíduos, isto é, sua psicologia, a desigualdade se mostrará mais combatida quando indivíduos dialogarem equitativamente do que com indicadores estatísticos no cenário macroscópico. 



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