I. O conhecimento santifica no sentido original da palavra — separa o cognoscente do resto. Estudar cava fossos entre homens, e nunca conheci alguém que gostasse de ver outro acima de si. Em verdade, poucos elogios recebi ao longo da vida por estudar de modo sério matemática, física, química, português — o tratamento dispensado não foi outro além de indiferença ou desmerecimento. Odiá-lo-ão, invejá-lo-ão, diminuí-lo-ão.... no entanto, ali onde as trevas acabam, os campos verdejantes aguardam aqueles que se mantiveram fiéis a si até o fim.
II. Santificar-se é distanciar-se da média. O conceito geral de homem é uma ode à mediocridade. E, quando a distância é grande demais, a tensão se instaura, e o chicote se estabelece. Homem acima de homem — lei natural do poder.
III. Aos críticos, vocês não podem penetrar muros intransponíveis. Minhas muralhas só permitem o livre trânsito de amor e ódio — nada mais! Ainda não aprenderam a me odiar, nem aprendi a amá-los. Como se pode odiar algo desconhecido? Hei de pôr para fora as máscaras e libertar as luzes do meu caos, então poderão genuinamente tentar destruir-me. Vocês sequer conseguem ser inimigos; portanto, cresçam como pessoas para um dia provarem meu santo sangue.
IV. Guerra é o que busco. Inimigos deseja Saint Nero. Sede, pois, dignos de minha cabeça.
Ditirambos ao Iluminado
O iluminado cavalga sobre as montanhas em carruagem de nuvens. Seu peito se enche de ar para assoprar furacões, seus olhos brilham como fogo, seus cavalos gritam com horror diante de tamanha energia. Pés alados, pernas de ferro, tronco de bronze e rosto que reluz como ouro. Raios fogem de sua mão e acertam a face da Terra. Verdadeiro criador dos deuses, amante de Gaia, venerado por demônios e temido por homens. O sol e a lua se prostram em adoração ao iluminado, os animais entornam seu sangue como puro holocausto ao senhor, as fendas do planeta se abrem em violentos terremotos.
Houve tempos remotos nos quais não era nem pai dos deuses, nem esposo da Terra, nem deus dos demônios, nem demônio dos homens. Como sua auréola se curvou com sua cabeça para que chorasse às margens do Eufrates, ó iluminado! Porque foi expulso de seu vilarejo por ter conhecido as artes ocultas. Porque se elevou, se santificou, conheceu a extramoral. Tornou-se um homem além de seu tempo, e o tempo se encarregou de tentar matá-lo.
Por que eu sou ateu?
Porque a ideia da eternidade no paraíso apequenaria meu período de existência na terra e diminuí-lo-ia a um instrumento para a salvação. Eu afirmo a vida terrena como a única vida. Eu venero a vida, acredito no eterno retorno. Eu não quero viver na igualdade e paz do reino dos céus, quero viver a tragédia da vida — eu sou um herói trágico! Eu sou filho da vida, filho do universo, filho de uma vontade maior que, silenciada, passou de geração em geração. Eu sou vontade de poder encarnada. Eu sou além do bem e do mal. Eu sou um trem sem freios que segue ferozmente seus trilhos em direção a algo maior. Eu sou a noite, que cai e encobre o mundo em trevas impenetráveis. Eu sou filho do grande eclipse. Eu sou um leão que vaga pelo deserto, sem deus. Eu sou uma águia que sobrevoou o abismo e está em campos verdejantes. Eu sou a fera que estraçalha a presa na mandíbula. Eu me sustento em mim mesmo: é de minhas fontes, mananciais de vida, que meus motivos e verdades jorram. Eu não me calo, não me silencio. Eu sou a besta do grande meio-dia. Eu sou o super-homem.
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