domingo, 8 de setembro de 2024

A Arte da Representação

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Hoje é um abafado dia quente de inverno, embora abafado, quente e inverno devessem ser palavras contraditórias. Estou disposto a escrever, mas não sei bem o quê nem como. Algumas pessoas sugerem que se tome a realidade como ponto de partida. Eu poderia falar da minha biografia, fazer um romance em cima das condições sociais do brasileiro ou algo que o valha, mas não. Acho a realidade desinteressante. Talvez não toda a realidade, mas a realidade a minha volta é desinteressante. A coisa mais interessante aqui sou eu, porém não consigo organizar meus pensamentos de modo a falar de mim, e, se falasse da minha biografia, provavelmente sentiria um bocado de vergonha alguns meses depois. Por que eu comecei falando do maldito abafado dia quente de inverno? Eu sequer sei fazer descrições de cenário, e isso é a penalidade por não se querer estudar métodos de expressão literária. 

Meu temperamento. Isso. Já sei do que vou falar: vou falar do meu temperamento. Meu temperamento é como fogo numa palha: arde bastante, mas por alguma fração de minuto, até que as coisas se esfriem e eu desista. Eu sou péssimo em manter constância, o que é duro de admitir, porque a minha vaidade adoraria que eu fosse alguém disciplinado e de vontade constante, como um Horácio ou qualquer outro homem de confiança. Ninguém deveria confiar em pessoas que têm um temperamento bagunçado assim, porque gente como eu é algo agora e outra coisa daqui a uns intervalos de hora. Talvez seja TDAH, mas detesto a ideia de ter qualquer doença psicológica incapacitante. Quem gosta de deficiências? Quem quer ter qualquer traço de impotência? Quando éramos bebês, pensávamos ser onipotentes, e todos temos alguma fixação nessa etapa da vida.

 Bem, que seja, este aforismo ficou com o começo minguado e o meio desconexo, então o condeno a ficar sem um fim conclusivo. 

2

 O cinismo é o único modo de retribuir a indiferença deste mundo. Estamos todos atomizados no nosso interior, mesmo nos relacionando socialmente bem mais, por meio da mercadoria, do que nos séculos anteriores. Será que é a natureza das relações sociais que determina a integração do indivíduo com seu ambiente? Não sei, não me importa. Quando você compra uma camisa, ela com certeza passou pelas mãos de operários de outros continentes, viajou por um navio repleto de anônimos e conheceu um tributo abusivo numa alfândega brasileira, então um sujeito, infeliz, que trabalha numa transportadora a deixou na porta de sua casa. Talvez ele tenha deixado a camisa nas suas mãos, então você disse algo vazio como um boa-tarde -- se você foi hipócrita, provavelmente ofereceu um copo d'água para se sentir caridoso, enquanto lutou com a sensação de nojo por deixar um completo desconhecido pôr os lábios em seu copo. Apesar de todos esses atos que envolvem dezenas, senão centenas de pessoas, você continua atomizado. É contraditório e, portanto, poético dizer que a melhor coisa que a sociedade de massas produziu foi indivíduos atomizados. 

A bem da verdade, confesso que eu menti no segundo período deste texto. Não estão todos atomizados em seu interior, nem as pessoas são todas solitárias. A solidão é uma característica exclusiva de indivíduos que, inseridos na sociedade de consumo, desenvolvem volição e consciência para além das forças históricas, sociais e econômicas. Os materialistas certamente irão me censurar por escrever isso, mas eu sou obrigado a admitir que existe uma consciência metafísica em alguns poucos indivíduos, que vence a inconsciência escrava determinada pelos fatores externos. O consumismo conseguiu conectar milhões de escravos, que se sentem integrados e pertencentes uns aos outros, mesmo que por vias superficiais; entretanto, há algumas ilhas atomizadas que chamamos de homens de consciência. A estes sobram a solidão e o cinismo. Faça o teste você mesmo, caro leitor de consciência. Você consegue se conectar de verdade com as outras pessoas? Você pode até encontrar indivíduos de consciência parecidos com você, deleitar-se de uma boa conversa privada com eles, mas, no exato instante em que vocês começam a se relacionar, resta entender que vocês estão se relacionando em oposição a um mundo inteiro repleto de escravos que compartilham da companhia uns dos outros. Não importa como, não importa quanto: um homem de consciência nunca vai conseguir se integrar de verdade com algo externo. 

E seus amigos? Eles tendem a se atomizar à medida que aprofundam a própria consciência, que é um princípio de individuação, até que seus laços tenham desaparecido naturalmente, como uma península que, enfim, se separa do continente. 

3

 Eu sou uma criança, uma criança desejosa de correr em vastos campos abertos e iluminados pelo sol, uma criança aprisionada num mundo antiestético, remendado e escuro. Se a vida lhe dá uma prisão, a postura mais adequada é soerguer um palco de madeira entre as quatros paredes. E que esse palco seja a base de inúmeras representações de campos abertos! Uma criança entediada deve brincar, mesmo que disponha apenas de brinquedos baratos. E, se não houver brinquedos o suficiente, que haja pelo menos uma agulha para espetar a carne e sentir alguma coisa. Eu amo a vida, mas a vida não me ama, então tive que pintar a vida numa tela branca. E, se um dia alguém me elogiou chamando-me de prodígio, estudioso ou inteligentinho (sic), quero lhe dizer que eu não sou nada disso. A única coisa que eu sou, e nunca deixarei de ser, é uma criança. Ó céus, existe uma criança que não seja uma artista, existe um artista que não seja uma criança?    

4 

Deve-se pintar uma tela branca com a máxima liberdade artística, o que implica que se devem romper seus grilhões espirituais. Grandes artistas não foram moldados pelo espírito de seu tempo, mas formaram seu tempo a sua imagem e semelhança. As forças externas querem pôr correntes nas mãos dos artistas. As correntes prometem ser laços com coisas maiores que o artista, também prometem fulminar a solidão e dar sentido à vida, mas apenas assassinam a criatividade e deixam seu cadáver sob os pés de um homem genérico. Espíritos livres são mestres na arte de representar, então entendem instintivamente o processo mimético nas coisas. As correntes mimetizam, elas mentem e enganam, às vezes sob o nome de Deus e moralidade. Deus é o melhor ator no teatro da vida, pois é uma criação que pretende ser o criador, é um suspiro de uma alma sofrida que pretende ser a panaceia de todo o sofrimento, é um poço sem fundo que promete ser um chão firme que protegeria seus filhos do vazio. Não são também o bem e mal, os filhos de Deus -- quem sabe, seus pais --, outros excelentes atores? Eles se mascaram sob os títulos de objetivos, perenes e absolutos, mas existe algo mais volúvel, contingente e relativo do que a moralidade? Todo artista que romper as correntes finalmente poderá receber, das mãos de Prometheus, o fogo da vontade de poder. Caro artista livre, cabe a você penetrar seu olhar dionisíaco em toda a realidade, para que a luz de seus olhos rompa a obscuridade das fantasias dos atores da vida. Querem exemplos de outras correntes atrizes? Pois bem: socialismo, feminismo, wokismo... 

Não vos esqueceis disso: o mundo é um teatro. Lembrai-vos de mim se um dia descobrirdes uma maneira de não atuar. 

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