quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Eu não sou a porra do Holden Caulfield

    Não se causa mal porque se sofreu mal no passado. As pessoas que julgam isso estão absortas no feitiço da lei da troca equivalente. Em verdade, o mal sofrido em seu passado apenas o fez se identificar com o próprio sofrimento. Tão logo se se torna sofrimento, necessita-se alimentar-se de sofrimento, daí a necessidade de se fazer mal aos outros.

Da caminhada

    Ao ritmo das minhas botas que martelam a calçada acidentada, meu pensamento se alinha com as formas estéticas de meu entorno. Os muros são irregulares, as casas não obedecem a nenhum padrão matemático, e as pessoas se reúnem em botecos maldistribuídos. O cinza do concreto é a cor predominante daqui. Vindo dos bares, músicas descompassadas entre si se misturam. Elas falam do trivial: bebidas, relacionamento e festas. Os repetitivos vinte anos que eu passei nesta cidade comprovam um fato: este lugar está travado no tempo. 

    Os livros, músicas e filmes que consumi durante toda a minha vida prometiam um mundo encantado, não necessariamente bom, mas interessante o suficiente para que alguém desejasse sofrer nele, tal qual um ator que interpreta um personagem tão desprezível quanto Judas apenas pelo prazer de estar no palco. Essa promessa deixou para trás um aborto, fruto da conjunção entre meus ideais estéticos sofisticados e o lugar remendado em que eu vivo. Seria melhor que tais amantes jamais houvessem se conhecido.

    Eu não queria estar aqui, é verdade, mas também não sou digno de vistas melhores, portanto tenho medo de encarar mundos mais belos. Eu faço parte deste lugar, eu sou como este lugar. Eu também sou desarmônico, remendado e impedido de progredir. Embora eu tenha plena consciência disso, meu orgulho me sugere que eu deva ser um espectador crítico desta tragédia, não mais um figurante dela, como o são todos esses homens que se entregam às diversões mundanas daqui.

    Estou quase no fim da caminhada. Não há muito aonde ir fisicamente aqui, então a verdadeira caminhada sempre se dá no fluxo de meus pensamentos. A saída de minha casa é apenas o ponto inicial da aventura espiritual, e meu retorno ao lar é o fim. Tenho consciência disso e fico angustiado. Quanto de vida eu estou perdendo por estar engaiolado neste presídio a céu aberto? A realidade com a qual eu sonho é tão mais complexa, harmônica e interessante. Eis o maior pecado que qualquer lugar ou pessoa pode ter: ser desinteressante. Os gregos tinham noção disso, então em seus mitos a humanidade era interessante o suficiente para despertar a atenção dos deuses, que, por alguns momentos, deixavam de ser o centro da verdade para deslocar a perspectiva a nós. Hoje perdemos isso, e as pessoas se embriagam através de bebidas, religião, sexo casual, roupas e objetos de moda, porque somente a neblina mental que os vícios criam é capaz de mascarar a face torta deste lugar. 

    Os humanos tentaram fugir do sofrimento por milênios, mas isso se deve ao fato de não entenderem que, enquanto estavam sofrendo, ao menos podiam se erguer num bom palco, justificados por um bom drama, que certamente tornaria seu sofrimento interessante. Aquilo que não é visto não existe nem merece existir, mas o que é menos visto do que o desinteressante? Portanto, minha vida e este lugar não existem de verdade -- não há um olho sequer capaz de validar nossa verdade. Há uma história sendo escrita neste exato momento, e não estaremos sequer documentados nela. 

    Adoraria continuar pensando a respeito disso, mas estou parado diante da porta de minha casa, sinal de que a caminhada acabou. Não há mais tempo para divagar, apenas para cumprir meus deveres. 

Estudar, trabalhar

socializar a contragosto

Estudar? Trabalhar. 

    Quem não abraçaria este lugar feio se não tivesse a esperança de um mundo melhor? A esperança é uma mulher dócil, mas também uma megera: ela o condena a se esforçar em nome de algo sequer visto. Ela excita as fibras de seu corpo a tal ponto que você se torna um arco tenso prestes a disparar no paraíso, mas essa tensão se dissipa lentamente,  até que nem uma ponta de flecha sequer tenha penetrado o mundo melhor. Finda a tensão, sobra apenas um viciado letárgico que se refugia de sua miséria nos prazeres instantâneos e mais baixos da vida.  

    Restam claras na minha mente ambas as possiblidades: ou eu atinjo o quanto antes o paraíso, ou a esperança, que é uma mulher, irá me trocar por um homem mais virtuoso. Estou no meio do caminho entre a taverna imunda dos camponeses e as suntuosas cerimônias dos nobres. Meu espírito é capaz de voar acima das nuvens enquanto meu corpo é escravo da tirania da gravidade. Então, como eu poderia ser apenas este lugar e como eu não poderia ser este lugar? Eu sou a síntese: o aborto, na verdade. 

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